Aposta feita há 35 anos levou a Icatu a crescer 20% ao ano com seguro de vida e previdência privada. Para 2026, o foco está em crescer em um país que envelhece rapidamente
O Brasil caminha para se tornar um país de idosos. Segundo projeções divulgadas pelo IBGE, o número de brasileiros com 60 anos ou mais deve saltar de 33 milhões para 75,3 milhões até 2070. Com isso, os idosos representarão 37,8% da população, quase quatro em cada dez brasileiros.
Com esse cenário, alguns setores se sobressaem no mercado. Além da saúde, outro segmento que avança junto com o envelhecimento da população é o de seguros. É nesta onda que a Icatu, empresa brasileira focada em seguros de vida, previdência e capitalização, está surfando registrando 20% de crescimento consistente nos últimos anos.
A companhia encerrou 2025 com faturamento de R$ 14,6 bilhões e mais de 14 milhões de clientes. O motivo? A busca crescente por proteção financeira em um país onde viver mais significa também planejar melhor a aposentadoria, proteger a renda da família e se preparar para imprevistos.
“A população tem duas grandes preocupações à medida que envelhece: manutenção da renda e saúde. A aposentadoria pública é muito importante, mas qualquer complemento precisa vir da previdência complementar ou do seguro de vida”, afirma Luciano Soares, CEO da Icatu, em entrevista exclusiva à EXAME, direto da sede da companhia no Rio de Janeiro.
O desempenho ocorre em um mercado que ainda possui baixa penetração quando comparado a países mais maduros na cultura de proteção financeira.
“O mercado brasileiro ainda é subpenetrado. Houve uma evolução muito grande nos últimos anos, mas ainda existe muito espaço para crescer”, afirma Soares.
Uma aposta iniciada há quase um século e que envolve o Bradesco e investimento em esporte
Embora a Icatu complete 35 anos em 2026, suas origens remontam à história da família Almeida Braga, tradicional no mercado financeiro e de seguros brasileiro.
A trajetória começou em 1930, com a criação da Atlântica Seguros, companhia voltada a seguros patrimoniais e corporativos que ajudou a consolidar a presença da família no setor. Sob a liderança de Antônio Carlos de Almeida Braga, conhecido como Braguinha, a empresa ganhou notoriedade tanto pelos negócios quanto pelo incentivo ao esporte brasileiro.
“Apaixonado por vôlei, Braga patrocinou o histórico time Atlântica Boa Vista e chegou até a contratar atletas da seleção brasileira como funcionários da companhia após os Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, para evitar que migrassem para clubes europeus”, diz Soares.
Em 1981, a Atlântica foi incorporada ao Bradesco. Dois anos depois, surgiu oficialmente a Bradesco Seguros, unificando as operações do banco com a Atlântica Boa Vista.
Após sua saída do grupo, na década de 1980, a família decidiu criar a Icatu inicialmente como uma gestora de recursos voltada à administração do patrimônio familiar em um período marcado pela hiperinflação e pela instabilidade econômica brasileira.
“O nome Icatu tem uma origem curiosa. Embora signifique ‘rio de águas boas’ em tupi, a escolha foi motivada pela Rua Icatu, no Rio de Janeiro, onde vivia a família controladora da companhia”, diz Soares.
Pouco tempo depois, em 1991, os filhos de Braguinha enxergaram uma oportunidade ainda pouco explorada no país: criar uma seguradora focada exclusivamente na proteção das pessoas. A aposta deu origem à Icatu Seguros, com atuação em seguros de vida, previdência privada e capitalização.
“A tese era simples: em algum momento o Brasil estabilizaria sua economia e a demanda por proteção financeira cresceria”, afirma.
Trinta e cinco anos depois, a previsão se confirmou.
Pandemia: o que mudou em relação ao seguro de vida?
Entre as três principais linhas de negócio da companhia (vida, previdência e capitalização) o seguro de vida tem sido o principal motor de expansão.
Em 2025, o prêmio retido da carteira de seguro de vida atingiu R$ 6,1 bilhões, crescimento de 19% em relação ao ano anterior. O destaque ficou para o segmento de vida individual, que avançou 67,1%, além dos crescimentos de 17,8% no seguro de vida em grupo e de 17,7% no prestamista.
Hoje, a seguradora passa a proteger, em média, mais de 450 mil pessoas por mês por meio de seus seguros de vida.
“O interessante não é apenas o crescimento de um ano específico. O que chama atenção é a consistência. Nos últimos quatro anos conseguimos manter crescimento acima de 20% ao ano”, afirma o CEO.
A pandemia também teve papel importante na mudança de comportamento dos consumidores.
“O debate sobre finitude passou a acontecer ao mesmo tempo entre diferentes gerações. Todo mundo conhecia alguém que sofreu com a Covid. Isso trouxe para a mesa discussões sobre proteção, invalidez, sucessão e segurança financeira”, diz.
Uma pesquisa nacional realizada pela Icatu em parceria com a Conversion mostra que o tema da morte está cada vez mais presente na vida dos brasileiros. Segundo o levantamento, 67% afirmam pensar na morte com alguma frequência, sendo 47% “de vez em quando” e 20% “com frequência”.
Apesar disso, a reflexão ainda raramente se transforma em planejamento financeiro efetivo. Apenas 12% dos entrevistados afirmam possuir seguro de vida, enquanto 43% dizem já ter conversado sobre o assunto com familiares sem adotar medidas concretas de proteção.
O estudo também identificou um descompasso entre patrimônio e proteção. Enquanto 53% afirmam possuir investimentos ou aplicações financeiras que poderiam ser herdados pela família, apenas 12% contam com seguro de vida. Outros 22% dizem não ter nenhum produto financeiro que deixariam para os familiares em caso de falecimento.
“Estamos crescendo ano a ano, mas ainda temos muito espaço para crescer no Brasil”, diz o CEO.
Geração Z e longevidade: as oportunidades em um Brasil que envelhece
O envelhecimento populacional é um dos fatores que mais sustentam a perspectiva positiva para o setor de seguros.
Para o CEO, conforme a população envelhece, duas preocupações passam a ocupar lugar central na vida financeira das famílias: renda e saúde.
“São duas preocupações inerentes de qualquer população que vai envelhecendo: manutenção da renda e saúde”, afirma.
Ele avalia que a combinação entre previdência privada e seguro de vida será cada vez mais importante para complementar a cobertura oferecida pelo INSS. As discussões sobre reformas previdenciárias, inclusive, costumam impulsionar o setor.
“Sempre que a reforma da Previdência entra em pauta, mais pessoas percebem que talvez a cobertura tradicional não seja suficiente para manter seu padrão de vida no futuro”, afirma Soares.
A nova geração também se mostra mais propensa a pensar em proteção financeira.
“Os jovens já não esperam passar a vida na mesma empresa, mas justamente por isso precisam começar mais cedo a construir sua própria proteção financeira”, afirma Soares.
Os dados da seguradora mostram uma mudança importante na forma como Millennials e integrantes da Geração Z enxergam o seguro de vida.
Ao contrário das gerações anteriores, que tradicionalmente associavam o produto à proteção da família em caso de morte, os mais jovens vêm contratando coberturas voltadas à proteção durante a própria vida.
Entre os Millennials, 81% contratam cobertura para invalidez parcial por acidente e 72% para doenças graves. Na Geração Z, os percentuais são ainda maiores: 88% e 81%, respectivamente.
A cobertura para doenças graves, inclusive, tornou-se uma das modalidades que mais crescem dentro da companhia. Em 2022, ela estava presente em 58% das apólices comercializadas. Atualmente, já ocupa a segunda posição entre as coberturas mais contratadas pela seguradora.
“O seguro de vida deixou de ser visto apenas como um instrumento para os herdeiros. Cada vez mais ele é percebido como uma ferramenta de proteção financeira para situações que acontecem durante a vida”, afirma o presidente da Icatu.
Tecnologia para atender 14 milhões de clientes
Para sustentar a expansão, a Icatu vem investindo pesado em tecnologia.
Nos últimos cinco anos, foram mais de R$ 2 bilhões destinados à modernização de sistemas e processos. O objetivo, no entanto, não é substituir a relação humana, afirma o CEO.
“Investimos para que a força de vendas tenha menos trabalho operacional e possa focar na relação de confiança com o cliente”, afirma Soares.
A seguradora possui atualmente 29 filiais e cinco regionais espalhadas pelo país.
“A estrutura busca adaptar produtos e estratégias às diferentes características econômicas e sociais de cada região”, afirma o CEO. “Buscamos melhorar a democratização do acesso e por isso temos um portfólio que vai do microsseguro a coberturas mais amplas.”
A aposta continuará acelerando. Apenas em 2026, a companhia prevê investir mais de R$ 300 milhões em tecnologia, com foco em inteligência artificial, automação de processos, digitalização da subscrição e melhoria da experiência de clientes, corretores e parceiros.
O estagiário que virou presidente
A história de Soares dentro da companhia também conta com o podemos chamar de longevidade. O economista começou na empresa como estagiário no início dos anos 1990 e desde abril de 2023.
“O plano inicial era seguir carreira acadêmica, mas a oportunidade de trabalhar na Icatu mudou os rumos da minha carreira”, conta Soares que começou como pesquisador de macroeconomia na PUC-RJ e depois entrou para o corporativo.
Ao longo de mais de três décadas, passou por diversas áreas na Icatu, assumiu posições de liderança, integrou o conselho da seguradora por 15 anos e posteriormente foi escolhido para ocupar a presidência executiva.
“Nunca tive medo de encarar problemas. Sempre gostei de aprender coisas novas e resolver desafios”, afirma.
O maior desafio para a empresa avançar: convencer os brasileiros a se planejar
Apesar dos resultados robustos, Soares acredita que o principal desafio da companhia (e dele como CEO) continua sendo educacional.
Para ele, muitos brasileiros ainda adiam decisões importantes relacionadas à proteção financeira, previdência e planejamento patrimonial.
“Gostaria que as pessoas tivessem consciência de que uma não decisão também é uma decisão. E isso pode ser muito perigoso quando estamos falando de proteção financeira e planejamento para o futuro”, afirma.
A missão da Icatu, segundo o executivo, é justamente ampliar essa conscientização em um país que envelhece rapidamente e onde a necessidade de proteção financeira tende a crescer nas próximas décadas.
“Muitas vezes o seguro não é um prêmio de loteria. O seguro é importante para te recolocar nos trilhos em um momento de adversidade, como a perda de um familiar ou de um emprego”, diz Soares.
Para uma companhia que cresceu apostando na longevidade dos brasileiros, a mensagem que eles levam pelo Brasil é de que viver mais, com qualidade e um mínimo de conforto, exige planejamento e investimento.
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Por Layane Serrano
Publicação original
