Em nove anos, startups construiu um modelo de negócio que une grandes marcas, poder público e cooperativas para fazer a reciclagem
No fim de fevereiro de 2026, enquanto o Carnaval de Salvador chegava ao fim, um grupo de catadores e catadoras concluía uma operação que entraria para o Guinness World Records: mais de 46 toneladas de latinhas recolhidas durante a festa — o maior volume já registrado numa ação do tipo no mundo.
Por trás da operação estava a Solos, uma startup baiana que, neste ano, atingiu outro marco: R$ 10 milhões em renda gerada diretamente para trabalhadores da cadeia da reciclagem desde sua fundação.
O número chega numa semana em que se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente e representa mais do que um indicador financeiro.
O dado prova que o modelo de negócio que a empresa vem construindo há quase uma década — e que desafia a lógica convencional do setor — traz efeito: em vez de tratar a reciclagem como custo ou obrigação legal, a Solos trabalha o valor do resíduos, gerando benefícios ao mesmo tempo para grandes marcas, prefeituras e cooperativas de catadores.
Logística reversa como negócio
A operação da Solos funciona a partir de três frentes complementares:
A primeira são as operações em grandes eventos — carnavais de Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo —, onde a empresa mobiliza catadores para coletar materiais recicláveis durante e após a festa.
A segunda são os sistemas de logística reversa estruturados em parceria com marcas como Ambev, Heineken e Braskem.
A terceira é a geração de créditos de reciclagem, um mecanismo que adiciona valor econômico ao resíduo destinado corretamente.
A renda gerada para os catadores vem dessas três fontes: pagamento direto pelos serviços prestados nas operações, repasse pela comercialização dos materiais coletados e participação nos créditos de logística reversa.
O modelo não depende de doação — ele é remunerado pelas marcas e pelo poder público, que têm obrigações legais e metas de sustentabilidade a cumprir.
“Conseguimos garantir um modelo que traz adicionalidade de massa, engaja o cidadão e promove inclusão social e produtiva de catadores. Isso em uma triangulação que envolve grandes marcas e o setor público”, afirma Saville Alves, cofundadora e líder de negócios da Solos.
Em 2025, o modelo recebeu um endosso financeiro importante: um aporte de R$ 1 milhão do Banco do Nordeste, via Lei de Incentivo à Reciclagem, para expansão das operações e desenvolvimento de soluções voltadas à inclusão produtiva de catadores.
Nordeste como escolha estratégica
Grande parte das operações que contribuíram para o marco de R$ 10 milhões aconteceu no Nordeste — uma escolha que a Solos faz questão de sublinhar como intencional. A empresa apostou em territórios com infraestrutura de reciclagem menos desenvolvida do que em outros grandes centros do país. Assim, o impacto de cada real investido tende a ser maior.
Programas como Recicla Capital, Roda, Reciclo e Virado, focados na geração de valor a partir da reciclagem de resíduos, foram desenvolvidos e operados pela empresa em diferentes regiões, sempre articulando cooperativas locais com empresas e prefeituras.
A parceria com a Prefeitura de Salvador é hoje um dos casos mais emblemáticos: foi ela que viabilizou a operação do Carnaval 2026 e o consequente recorde do Guinness.
A descentralização regional também serve a uma lógica de negócio: ao construir infraestrutura em territórios menos disputados, a Solos cria vantagem competitiva e, ao mesmo tempo, atende à demanda crescente de empresas por certificação de impacto socioambiental fora do eixo Sul-Sudeste.
Renda no bolso de catadores
Mãe de duas filhas, Eduarda Sant’Anna — mais conhecida como Duda — entrou para uma cooperativa em 2017 após períodos de desemprego e a perda de parte da casa em um incêndio. Começou motivada pela possibilidade de trabalhar perto da creche das filhas.
Em poucos meses, passou a integrar a coordenação do galpão da Associação de Catadores e Recicladores Vila Chocolatão, em Porto Alegre, onde atua com a Solos desde 2021. Hoje Duda também trabalha com educação ambiental.
“O mais importante ainda é o respeito. As pessoas precisam enxergar a gente como seres humanos iguais a elas, porque o trabalho que fazemos é fundamental para toda a sociedade”, diz ela.
A geração de renda para essa população é um dos principais ganhos no trabalho, segundo a fundadora da startup. “Quando a gente cria soluções pensando nas pessoas mais vulnerabilizadas, conseguimos construir mecanismos que também ajudam essas pessoas a enfrentar momentos de crise”, diz Saville.
O que vem a seguir
Com R$ 10 milhões distribuídos e uma operação de recorde mundial no currículo, a Solos chega a 2026 numa posição de consolidação, com o aporte do Banco do Nordeste e as parcerias com grandes empresas, que tendem a ganhar escala à medida que a regulação de logística reversa no Brasil se torna mais rígida.
O mercado de créditos de reciclagem também está em maturação no país, o que pode abrir novas fontes de receita para o modelo da SOLOS e ampliar a renda repassada às cooperativas.
“A gente entende que a SOLOS não faz isso sozinha. Existe um movimento maior acontecendo no setor. Mas ficamos muito felizes em perceber que fazemos parte dessa transformação e conseguimos materializar isso em um número tão significativo. Esses R$ 10 milhões representam impacto real na vida das pessoas”, conclui Saville.
Por Letícia Ozório
