Programa interno da varejista capacita colaboradores de áreas como RH a desenvolverem ferramentas de IA em poucos dias, mirando eficiência e milhões em economia
Em 12 dias, dois funcionários da área de recursos humanos da Riachuelo criaram uma plataforma para automatizar etapas das avaliações de desempenho — e nenhum dos dois tinha experiência prévia em programação.
O projeto nasceu no Builders, programa que capacita funcionários a desenvolver soluções para problemas de suas próprias áreas, e o piloto foi usado por 52 colaboradores, segundo a empresa.
A Riachuelo estima que dez iniciativas do programa gerem, ainda neste ano, retorno potencial de R$ 16 para cada R$ 1 investido. A empresa não informou quanto desse valor já se concretizou.
Ney Santos, diretor executivo de tecnologia e inovação da Riachuelo, afirma em entrevista exclusiva à EXAME que o programa permite “tirar das planilhas manuais aqueles processos que antes não teriam a chance de se tornarem sistemas automatizados”.
Funcionários de áreas como RH, lojas, fábrica e finanças desenvolvem ferramentas para problemas de suas próprias rotinas, com apoio da equipe de tecnologia. “A velocidade que o negócio precisa exige uma nova forma de trabalhar com tecnologia”, diz Santos.
A companhia já utiliza inteligência artificial em operações como precificação e gestão da cadeia produtiva. Em comunicado divulgado em setembro, a Riachuelo afirmou que o programa reunia 30 projetos em desenvolvimento, dos quais 20 estavam em fase piloto. As iniciativas abrangiam áreas como RH, operação de lojas, prevenção a fraudes, crédito e comércio eletrônico.
Como funcionam os projetos?
Um dos projetos é o WFM Hub, plataforma para organizar as escalas de funcionários nas lojas. Segundo Santos, a ferramenta foi implantada em todas as unidades em agosto e substituiu planilhas que permitiam aos gerentes visualizar apenas uma semana de operação. Agora, a plataforma reúne informações do mês, identifica picos de demanda e envia alertas.
A Riachuelo projeta que a mudança no modelo de escalas possa gerar entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões em economia. Santos afirma que a estimativa está ligada à distribuição mais eficiente das equipes e à possibilidade de evitar um aumento proporcional nas contratações. Segundo ele, a projeção não decorre apenas do software. “O foco absoluto está na maximização da eficiência e na melhor distribuição da força de trabalho, e não na redução do atual quadro de funcionários”, afirma.
Outro projeto, voltado à gestão de carreira e desempenho, está disponível para cerca de 33 mil colaboradores. A Riachuelo estima que a automação de etapas administrativas dos ciclos de avaliação possa liberar 3.600 horas de trabalho. O processo ocorre duas vezes por ano e inclui formulários, calibrações, lembretes e consolidação de relatórios.
A inteligência artificial não escreve avaliações por conta própria nem decide sobre a carreira dos funcionários, afirmou Santos. A ferramenta pode sugerir ajustes de tom em textos escritos por gestores, recomendar contribuições para planos de desenvolvimento individual e automatizar tarefas administrativas. A avaliação e as decisões continuam sob responsabilidade humana.
Na área de crédito, um agente de IA cruza informações cadastrais e societárias para sinalizar inconsistências e riscos. A companhia afirma que a ferramenta analisa cerca de 3 mil propostas por dia e tem potencial de proteger R$ 6 milhões em riscos. A IA não aprova nem recusa pedidos — a decisão final permanece com o analista. A iniciativa está ligada à operação de crédito consignado da Midway, braço financeiro da Riachuelo.
Funcionários sem formação técnica
O Builders começou depois que funcionários criaram, por iniciativa própria, mais de 1.500 agentes de inteligência artificial, segundo Ney Santos, diretor executivo de Tecnologia e Inovação da Riachuelo. As ferramentas ajudavam em tarefas individuais, mas não tinham escala para mudar processos de equipes inteiras. Esse uso espontâneo levou a empresa a estruturar um programa para desenvolver soluções com alcance maior.
Os participantes usam ferramentas de IA para criar interfaces, painéis e automações. A equipe de tecnologia entra quando o projeto precisa se conectar aos sistemas centrais da companhia, envolve dados sensíveis ou esbarra em um problema técnico. Na primeira turma, a incubadora interna ofereceu 120 sessões individuais de mentoria.
A capacitação também toca em uma dificuldade mais ampla do varejo: a falta de conhecimento interno sobre inteligência artificial. Esse foi o principal obstáculo à adoção da tecnologia para 46% dos executivos ouvidos em levantamento recente. Outras aplicações da tecnologia no setor, como automação de processos e previsão de demanda, foram abordadas nesta reportagem sobre IA no varejo.
Um dos exemplos do programa é a Plataforma de Carreira e Performance, criada por Melissa e Filipe, especialistas da área. Antes, os ciclos de avaliação exigiam tempo de lideranças e do RH. Uma solução pronta do mercado custaria à companhia mais de R$ 1,5 milhão por ano, sem contar os meses de implantação. Nenhum dos dois tinha experiência prévia com programação.
“O grande diferencial que une os nossos builders não é a formação técnica pregressa, mas sim o profundo domínio sobre os processos de negócios aliado à genuína vontade de otimizá-los”, afirma Santos.
Por Tamires Vitorio
