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Exame: “Estamos no início de um ciclo de alta da economia”, diz Howard Marks

Com US$ 150 bilhões sob sua gestão, presidente da Oaktree acredita que o mercado de ações está à frente de si mesmo, mas a economia poderia estar melhor

Para o megainvestidor americano Howard Marks, estamos apenas no início de um ciclo de recuperação gradual da economia, que irá durar vários anos. “O mercado de ações está à frente de si mesmo. A notícia ruim é que a economia não está”, apontou, em live realizada nesta terça-feira (23) pelo Itaú Personnalité. Cofundador e presidente da Oaktree Capital, que tem US$ 150 bilhões sob gestão, ele é autor de best sellers como “O mais importante para o investidor” e “Dominando ciclos do mercado”, Marks tem mais de 50 anos de atuação em finanças.

A Oaktree foi fundada há 27 anos e se define como uma empresa de gestão de fundos global alternativa focada principalmente em crédito, além de títulos e ações tradicionais. A gestora se concentra em operações de crédito estruturado, fundos imobiliários, private equity e operações de infraestrutura.

Em que ponto do ciclo econômico estamos?

Questionado em que ponto do ciclo econômico estamos, Marks aponta que em 2020 não houve um ciclo permeado por excessos e correções, mas sim um fator exógeno à economia, que foi a pandemia e a recessão. “Não foi evento cíclico”.

Portanto, para ele, o lockdown limitou a economia e o resultado foi que no segundo trimestre do ano passado foi registrado o pior PIB mundial da história. “Como consequência, o BC e o Tesouro americano vieram resgatar a economia e no terceiro trimestre de 2020 tivemos um aumento do PIB. Mas isso não ocorreu naturalmente: foi causado por autoridades”.

Desde então, Marks aponta que a maioria dos mercados no mundo vem se recuperando. “Normalmente mercado e economia andam juntos. Mas o mercado de ações americano subiu em março de 2020 e continuou subindo antes da economia recuperar porque tinha fé que o BC e o Tesouro iam resolver o problema. Hoje, o nível é mais do que o dobro dos últimos 20 meses. A economia teve trimestres bons este ano, mas a partir de agora vai ter uma recuperação gradual, que pode durar vários anos”.

Portanto, para ele, estamos no início de um ciclo de alta de vários anos. “O mercado de ações está à frente de si mesmo com base em números históricos. A notícia ruim é que a economia está mais ou menos”.

Perspectivas para a inflação

Para Marks, o que o BC americano fez em 2020 foi essencial. Sem isso, aponta, haveria uma depressão global. “O que fez tem ramificações negativas, como a inflação? Tem. Mas não a ponto de que não deveriam ter feito o que fizeram”.

Questionado sobre os efeitos da inflação e perspectivas, ele responde que a alta de preços é misteriosa. “Nada em investimentos e na economia é mecânico: liga luz e acontece. Ninguém esta totalmente certo sobre o por quê da inflação. Se observarmos a ultima década, antes da crise econômica mundial, tivemos juros bem baixos, déficit crescente no Orçamento federal, situações supostamente inflacionárias, e não havia inflação. E agora temos”.

O BC e o Tesouro injetaram 10 trilhões na economia americana em um ano e meio. Causada por essa injeção de capital, a inflação seria teoricamente limitada. Mas muitos fatores pesam ainda na conta, segundo o megainvestidor. “As pessoas não puderam sastar, sair de férias, se casar, ir a um show durante um ano e meio. Esse dinheiro ficou no banco. Quando a vacina chegou, houve uma demanda reprimida”.

Um gargalo na cadeia de suprimentos acabou por tornar o cenário explosivo, diz Marks. “Foi muito difícil reiniciar a economia após um fechamento por diversos meses com uma demanda reprimida. Podemos comparar a um carro que não andou, ficou problemático e suas peças ficaram indisponíveis. A economia não consegue produzir tanto como conseguia há dois anos. Há demanda maior, menos oferta, porque muitos bens não conseguem ser produzidos, e há inflação”.

Mas como o governo não vai continuar distribuindo dinheiro, na medida em que se resolver problemas na cadeia de suprimentos global a economia voltará a andar. “Fundamentamente, a economia pouco mudou do que era há dois anos. Talvez seu desempenho ficou diferente por conta de demissões. Então esses fatores, que respondem pela maior parte da inflação, são transitórios”.

Contudo, Marks pontua que existem fatores com implicações no longo prazo. “Como tem menos pessoas trabalhando, os funcionários podem demandar um salário maior, têm maior poder de barganha. E isso é inflacionário, pois depois que altos níveis de salários forem atingidos, eles não voltam. Podem diminuir, mas não voltam ao que eram antes”.

Em geral, as expectativas sobre a inflaçao são fortes, o que apenas prolonga o ciclo. “Nos Estados Unidos quando dizemos que a inflação vai aumentar a população sai comprando tudo e fazendo estoque antes que a crise chegue. Mas esse comportamento é inflacionário”.

Por fim, Marks acredita que a previsão é de que haja inflação como havia há dois anos, e não nos níveis de hoje. “Acho que vamos ficar no meio caminho. Mas ninguém sabe, na verdade”.

Há uma bolha no mercado?

A grande quantidade de capital em circulação e baixas taxas de juros, bem como a segurança trazida pela ação do BC e do Tesouro americano, elevaram os preços dos ativos, na visão de Marks. Mas os juros, aponta, é o maior responsável. “Quanto mais baixas as taxas de juros, mais caros são os ativos. Mas, qual é a opção? O dinheiro precisa ser aplicado em algum lugar. Empresas de seguro, por exemplo, não têm opção de não investir. Melhor investir logo do que ficar com rendimento zero. E se for para fora, em algum momento tem de entrar de novo. São duas decisões, e difíceis de tomar”.

Portanto, aconselha, o mais importante é investir com cuidado para o longo prazo, por décadas, sem tomar muito risco. “Para isso, é necessário usar dinheiro que não se irá precisar. Senão o risco de estragar tudo no meio do caminho é grande”.

No longo prazo, a economia progride, empresas crescem e títulos se valorizam, resume. “Quem fica tirando e colocando perde os melhores fundos e melhores anos. Pode sair de algo que foi bem e entrar em algo que está subindo? Sim. Mas isso está bem longe de ser algo fácil. Tem muita gente inteligente fazendo isso. É como um jogo de futebol contra todos no mundo. Todos estão querendo ter resultados superiores. Mas isso, por definição, não é possível acontecer”. A melhor coisa, aponta, é não inventar muito e ser paciente.

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Por Marília Almeida

Publicado em: cutt.ly/TTJSwbv

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