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Exame: Electrolux investe R$ 700 mi em nova fábrica no Brasil

Da redação
24 de agosto de 2025
Localizada em São José dos Pinhais, no Paraná, unidade da companhia sueca vai inaugurar a produção de linhas de ventiladores e liquidificadores no país, que até então eram importadas

Não há um setor que não esteja em estado de tensão com as tarifas anunciadas pelo presidente americano Donald Trump aos produtos do Brasil. Nem o setor de eletrodomésticos escapa desse alerta, que se soma à volatilidade que enfrenta pela crescente concorrência de jogadores asiáticos.

Por outro lado, a multinacional sueca Electrolux se mostrou disposta a navegar contra a maré ao inaugurar nesta sexta-feira, 22, sua nova fábrica no Brasil, promovendo a nacionalização de seus principais produtos e ganho de participação de mercado , principalmente em um momento de concorrência acirrada.

Com um investimento de cerca de R$ 700 milhões, a unidade industrial, lançada em São José dos Pinhais (PR), marca a maior expansão da gigante dos utensílios domésticos na América Latina . A quinta planta da empresa no Brasil foi projetada para dar à luz a fabricação local de duas linhas de produtos até então importados: liquidificadores e ventiladores. A expectativa é que esse seja o trunfo da empresa para se consolidar como a “queridinha” do setor.

“É o nosso maior investimento no Brasil. É um passo essencial para nosso plano de expansão. A empresa vem crescendo bastante nos últimos anos, atingimos a liderança no setor de eletrodomésticos no país, estamos em mais de 70% dos lares e vendemos mais de 15 milhões de produtos por ano”, disse Leandro Jasiocha, CEO do Grupo Electrolux na América Latina , em entrevista à Exame.

O disse executivo ainda a nova unidade abre portas para outras categorias de produtos, como ventiladores e liquidificadores e eleva a competitividade no mercado. Até então, este tipo de produto era importado de países asiáticos, onde a companhia tinha outras unidades fabris.

A projeção é que, a partir de 2027, uma unidade de São José dos Pinhais se tornará capaz de fabricar mais de 5 milhões de produtos por ano, o que representará 25% das receitas de eletroportáteis da empresa no Brasil. Para dar um gás nesta missão, ele conta que foram investidos R$ 37 milhões em Pesquisa e Desenvolvimento de novos produtos.

De olho nos resultados de longo prazo, Jasiocha afirmou que o volume de utensílios desenvolvidos na nova unidade já está ajudando a trazer perspectivas positivas de receita.

“O investimento de R$ 700 milhões é consistente com as necessidades locais, mas precisamos crescer para garantir que o negócio seja pago. Em dois meses, já fabricamos mais de 100 mil produtos. O projeto já está começando a dar frutos e temos a confiança de que logo vamos entregar o retorno aos acionistas da Electrolux.”

Imune à tarifação?

Nascida em 1919, em Estocolmo, a companhia vendia mais de 40 milhões de produtos anualmente em 120 países. Em 2024, suas vendas globais alcançaram US$ 14,2 bilhões. A América Latina representa cerca de 25% da receita total do grupo. No entanto, a multinacional não divulga dados sobre os resultados da operação brasileira.

A Electrolux tem fábricas e centros de desenvolvimento na Europa, América do Norte, América Latina, Ásia e Oceania. No Brasil, a empresa comemorará 100 anos em 2026 e opera atualmente com fábricas em Curitiba (PR), São Carlos (SP) e Manaus (AM), produzindo desde refrigeradores e lavadoras até micro-ondas e aparelhos de ar condicionado.

Apesar dos temores de muitos empreendedores com os efeitos das taxas de 50% aplicadas pelo governo Trump ao Brasil , o CEO Latam da Electrolux afirma que a medida não causará danos à companhia. A Electrolux do Brasil não realiza exportações para os EUA, tanto que a empresa conta com a Frigidaire para manter sua presença no mercado norte-americano . Diante deste cenário, ele reforça que as disputas entre as marcas tendem a aumentar.

“As tarifas não vão impactar diretamente nossa operação no Brasil e em outros países da América Latina. Como o mercado americano está se fechando e dificultando as possibilidades de negócios para as empresas, a tendência é que as vendas e os volumes de produtos antes focados nos Estados Unidos sejam direcionados a outros mercados. E como consequência, oportunidades para novas marcas ganham espaço”, pontua Leandro Jasiocha. “O momento que tivemos gera incertezas e medo, mas acredito muito no potencial do Brasil.”

A operação brasileira não exporta bens fabricados em grande escala em razão dos custos de logística. A pequena parcela reservada a este propósito é direcionada a países como México, Peru, Colômbia, Equador e Porto Rico , que segundo o CEO acompanha as normas comerciais dos EUA. Mesmo assim, ele se sente seguro. “Hoje o índice de exportação das fábricas no Brasil é relativamente pequeno, em torno de 5%. Então, o objetivo de expansão em São José dos Pinhais é atender o mercado local”.

Cerca de 40% dos produtos da Electrolux vendidos na América Latina são provenientes de fornecedores asiáticos, que prestam dois serviços à multinacional: OEM ( Original Equipment Manufacturer , fabricante de equipamento original) e ODM ( Original Design Manufacturer , fabricante de design original). Mas, com a nova fábrica no interior paranaense, a proposta é lançar mais produtos “made in Brazil”.

“A fábrica de São José dos Pinhais é verticalizada, com uma cadeia de fornecimento bastante presente no país. Hoje, mais de 70% dos nossos produtos são montados com componentes de matéria-prima local. Então, poucos componentes virão prontos de fornecedores ODM e OEM fora do Brasil. É uma cadeia adensada e ela faz com que todo o nosso parque fabril se beneficie”, acrescenta o CEO.

Essa tática também livra a empresa de custos como fretes marítimos e traz perspectivas de preços mais atraentes aos consumidores no varejo, o que pode contribuir para o incremento de sua participação de mercado . Segundo levantamento da consultoria Mordor Intelligence, o mercado de eletrodomésticos no Brasil deverá movimentar US$ 2,14 bilhões até 2029. Neste cenário, a Electrolux e a americana Whirlpool  (dona das marcas Brastemp e Consul) têm participações significativas no mercado brasileiro, superando as coreanas LG e Samsung .

No entanto, Jasiocha reforça que entrou nessa briga para levar a maior fatia do mercado: “Não temos medo de concorrência. Ela nos incentiva a sermos os melhores e o consumidor se beneficiar com os melhores produtos e preços. Os produtos que serão desenvolvidos localmente chegarão às lojas com valores adequados à realidade do mercado. E estamos entrando em categorias que antes não estávamos.”

Para o executivo, a preocupação com a qualidade, simplicidade e inovação — como parte do DNA escandinavo da companhia — é o que mais atrai os compradores.

“Sempre trazemos diferenciações nos nossos produtos, algo a mais a oferta para estar à frente dos concorrentes. Por exemplo: produzimos ventiladores com ventos podem chegar a até 7 metros de distância. Além de liquidificadores que contam medidores nas tampinhas. Enfim, são pequenas coisas que a Electrolux prefere os nossos produtos”.

Sustentabilidade no DNA

A unidade industrial de São José dos Pinhais foi projetada com foco total na sustentabilidade, alinhando-se à meta global da empresa de zerar as emissões de carbono em suas operações até 2033. A fábrica utilizará exclusivamente energia elétrica proveniente de fontes renováveis, e os veículos internos, como empilhadeiras e transpaleteiras, serão elétricos.

A cozinha da planta, que atenderá cerca de 400 pessoas por refeição, também seguirá esse padrão sustentável, operando apenas com equipamentos elétricos. Outro destaque importante é a inovação nos processos de soldagem, com uma equipe de engenharia implementando uma nova tecnologia de solda verificada aos princípios de economia de baixo carbono.

A nova unidade adotará tecnologias de reaproveitamento de água, o que resultará em uma economia de 83% no uso de água potável, com uma redução anual de mais de 2,6 milhões de litros. O projeto inovador também foi pensado para promover o uso da iluminação natural, minimizando a dependência de luz artificial e criando um ambiente de trabalho mais saudável. A fábrica foi planejada para oferecer bem-estar aos seus colaboradores, com janelas que buscam vista para um bosque preservado e um sistema automatizado de venezianas que controla a temperatura interna de forma natural.

“Essa é a primeira planta 100% sustentável do grupo. A gente se preocupa com isso desde o início da construção dessa unidade. Faz parte da nossa cultura. A sustentabilidade é o ponto central de nossas ações. “Temos objetivos bem agressivos de descarbonização e estamos sendo bem sucedidos”, declarou Ramez Chamma, COO do grupo sueco, durante a apresentação da unidade.

Com 50 mil m² de área construída, a fábrica tem como meta ser “Zero Aterro” desde o início, garantindo que nenhuma descarga seja enviada para aterros sanitários. Além disso, o terreno da fábrica inclui 138 mil m² de área de preservação, o equivalente a quase 20 campos de futebol, que serão ampliados com o plantio de mais de 3 mil mudas de árvores. “São vários esforços e planejamentos para depender cada vez menos de recursos poluentes, gerar poucos resíduos e descarbonizar nosso trabalho”, enfatiza o executivo.

A expectativa é que, nos próximos meses, a operação da nova unidade conquiste a certificação LEED, tornando-se a primeira fábrica da Electrolux a receber esse reconhecimento mundial.

Ganha-ganha

A fábrica faz parte de um acordo firmado em 2023 com o Governo do Paraná e a prefeitura de São José dos Pinhais.

A prefeitura contribuiu com a concessão do terreno e a execução da terraplanagem. Além dos incentivos fiscais oferecidos pelo Programa Paraná Competitivo, que incluem facilidades no pagamento do ICMS sobre energia, gás, operações de e-commerce e assim por diante, e a utilização do ICMS para aquisição de bens de ativo imobilizado.

De acordo com Ramez Chamma, uma fábrica recém-lançada terá um impacto significativo na economia de São José dos Pinhais, com uma previsão de geração de cerca de 2 mil empregos – entre 400 e 500 diretos e de 1.400 a 1.500 indiretos.

A instalação também estimulará a atração de novas empresas, o fortalecimento do setor de serviços e o desenvolvimento de programas de capacitação profissional. Cerca de 90% dos colaboradores contratados residem nas cidades de São José dos Pinhais e Fazenda Rio Grande.

“Nosso compromisso é gerar resultados positivos nas comunidades em que atuamos, sempre posicionando as pessoas e o planeta no centro do nosso desenvolvimento”, afirma Chamma.

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Por Mateus Omena

Publicado originalmente em: encurtador.com.br/AWun9

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