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Exame: como ficam as ações das exportadoras com a tendência de queda do dólar

O dólar atingiu na última semana sua menor cotação desde junho de 2020, chegando a 5,0352 reais. Embora tenha encerrado a semana em alta em meio a especulações sobre mudança na política monetária nos Estados Unidos, a tendência para a moeda americana segue sendo de queda. Isso porque as condições no Brasil estão favoráveis: a recuperação da economia vem surpreendendo analistas e a perspectiva de alta nos juros brasileiros ajudam a atrair o capital externo para dentro das fronteiras.

O movimento afeta diretamente as empresas exportadoras. A variação cambial diminui as receitas, que são recebidas em dólares, e aumenta os custos de produção (em reais) da fatia alocada no Brasil. Quanto maior for a parcela de gastos na moeda local, maior o prejuízo.

“Uma empresa que pode ser prejudicada é a Embraer, que é uma grande exportadora e tem uma parte relevante dos custos em reais. Já as exportadoras de proteína como JBS e Marfrig já possuem uma diversificação geográfica maior, fazendo com que fiquem menos vulneráveis ao câmbio”, explica Victor Hasegawa, gestor de ações da Infinity Asset.

A Marfrig (MRFG3) abate 31.200 cabeças de gado por dia, sendo 13.200 delas no Brasil, o que representa 42% do total. Já a JBS (JBSS3) tem apenas 14% de sua produção localizada nacionalmente – a maior fatia está nos Estados Unidos, com 50%. A Embraer (EMBR3), por outro lado, tem 10% de sua receita em reais, enquanto a fatia de custos também denominados em moeda local é de 20%.

Apesar de prejudicial, esse é um movimento com o qual as exportadoras já estão acostumadas a lidar. Para se proteger, as companhias costumam fazer operações de hedge (compra ou venda de derivativos como forma de proteção) e também dolarizam parte de sua dívida. Isso significa que, quando o dólar cai, a receita diminui, mas a dívida também fica menor, porque está denominada em dólares.

O resultado é uma equalização – ainda que parcial – do balanço contábil da empresa. A Embraer sinalizou ter proteções para metade de sua exposição em custos em reais para o caso do dólar recuar abaixo da marca de 5,20 reais.

“As empresas estão acostumadas a essas variações, mas os investidores podem ter reações exageradas às perdas com o câmbio. O movimento do mercado é imprevisível e pode ter uma magnitude maior do que a esperada, o que pode ser uma oportunidade de compra para o investidor atento aos fundamentos”, avalia Phil Soares, chefe de análise de ações na Órama.

Dólar não é tudo

Apenas a queda do dólar, no entanto, não é suficiente para determinar se vale ou não a pena entrar em uma ação. As ações da Embraer, por exemplo, avançaram 21,5% nos últimos dois pregões com o anúncio de que sua subsidiária Eve negocia fusão com a americana Zanite.

“O dólar não é o único fator que impacta o preço da ação. No caso das exportadoras atreladas a commodities, principalmente, é preciso entender para onde vai o preço da própria commodity”, reforça Lucas Maia, analista de ações da Occam.

Papel e celulose

No caso das commodities, é consenso entre os analistas que o setor de papel e celulose será o mais prejudicado pela desvalorização do dólar. O cenário, no entanto, está ainda mais relacionada às perspectivas para o setor do que à variação cambial.

O preço da celulose passou por um rali a partir do último trimestre de 2020, passando de 300 dólares por tonelada para 780 dólares por tonelada, e analistas já começam a discutir se a celulose ainda tem espaço para avançar.

“O setor tem a maior parte de sua receita dolarizada, então o efeito no câmbio acaba sendo muito significativo. Além disso, as empresas que já atuam no mercado estão aumentando a capacidade de oferta em um momento de expectativa de queda nos preços da celulose. Não vejo como oportunidade”, destaca Maia.

Especialistas do Bank of America (BofA) acreditam que o preço de normalização da commodity deve ficar em 600 dólares por tonelada, o que pode prejudicar as ações do setor, já afetadas pela desvalorização do dólar.

Considerando esse cenário, o banco rebaixou, na última sexta-feira, 11, as ações da Suzano (SUZB3) para recomendação neutra, a 80 reais – o que ainda representa um potencial de valorização (upside) de 35% em relação ao último fechamento do papel, de 58,96 reais.

Para as ações da Klabin (KLBN11), os analistas mantiveram a recomendação de compra mas tiveram redução no preço-alvo, de 34 reais para 30 reais por papel. Em comparação ao último fechamento da ação, em 26 reais, o novo preço-alvo ainda mostra um upside de 15%.

Siderurgia e mineração

O cenário para siderurgia e mineração é o oposto, com o preço do aço e do minério de ferro ainda em alta, acompanhando o cenário de recuperação econômica mundial. No pregão de sexta-feira, o preço do minério de ferro teve nova alta, de 1,1%, sendo negociado a 219,26 a tonelada.

Acompanhando o resultado, as ações da mineradora Vale (VALE3) saltaram 2,24%, com alta de 1,25% também nas ações da Bradespar (BRAP4), grande acionista da Vale. Entre as siderúrgicas, Gerdau (GGBR4) avançou 2,68% e Gerdau Metalúrgica (GOAU4) teve ganhos de 2,42%. CSN (CSNA3) subiu 1,49% e Usiminas (USIM5) 0,58%. Vale lembrar que o resultado ocorreu no mesmo dia em que o dólar comercial subiu 1,21%, a 5,1271 reais.

Maia acrescenta ainda que as companhias do setor já estavam acostumadas a passar por um cenário de apreciação cambial quando as exportações subiam. “O que tivemos nos últimos meses, de commodity em alta e dólar também em alta, foi uma situação atípica. Agora, o câmbio apreciado gera uma margem menor de lucro. Ainda assim, o valuation atual das empresas do setor e as perspectivas para as commodities mostram que ainda existem muitas oportunidades”.

Por Beatriz Quesada

Publicado originalmente em https://invest.exame.com/me/como-ficam-as-acoes-das-exportadoras-com-a-tendencia-de-queda-do-dolar

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