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Exame: Como a 3ª geração desta família fará gigante dos queijos passar dos R$ 2 bi

Da redação
26 de agosto de 2026
Conhecida durante décadas pelo fornecimento a pizzarias e restaurantes, Scala amplia presença diante do consumidor final e projeta crescimento de dois dígitos em 2026

De queijo, os mineiros entendem bem. Durante décadas, muita gente consumiu produtos da Scala, de Sacramento, no interior de Minas Gerais, sem estar sabendo. A fabricante de construiu boa parte de seus 63 anos de história fornecendo queijos para pizzarias, restaurantes e outros clientes do food service. Agora, quer que o consumidor reconheça também o nome estampado na embalagem.

O movimento em direção ao varejo virou uma das principais frentes de crescimento da companhia. Cerca de 70% do mercado de queijos está concentrado nesse canal, segundo a empresa, uma fatia da qual a Scala historicamente participou pouco. A mudança vem acompanhada de investimentos industriais, aquisição de fábricas e de uma meta ambiciosa: faturar mais de R$ 2 bilhões em 2026, um crescimento de dois dígitos, e dobrar de tamanho até 2030.

A companhia hoje possui sete fábricas, entre Minas Gerais e Rio Grande do Sul, capacidade para processar mais de 1 milhão de litros de leite por dia e cerca de 1.700 funcionários diretos, considerando também a força exclusiva de merchandising.

“É uma marca que está nos bastidores. Então muita gente não conhece”, diz Maria Eugenia Soares Cerchi, diretora administrativa e membro do conselho de administração da Scala.

Para onde a Scala quer ir

A origem desse relativo anonimato ajuda a explicar a estratégia atual. A Scala cresceu principalmente atendendo outras empresas, o chamado B2B (business to business). Sua mussarela, um dos primeiros produtos da casa ao lado da manteiga e do parmesão, foi desenvolvida ao longo dos anos em diálogo com pizzarias tradicionais de São Paulo.

Segundo Cerchi, clientes como as pizzarias Camelo e Esperanza testavam o produto e apontavam características importantes para a operação: o queijo não poderia, por exemplo, ficar borrachudo depois de esfriar ou soltar óleo dentro da embalagem durante uma entrega. A equipe voltava à fábrica, ajustava o produto e enviava novamente.

“Muita gente come pizza com mussarela Scala sem saber que está comendo Scala”, afirma Cerchi.

Nos últimos anos, a empresa passou a olhar com mais atenção para o outro lado do balcão. Em 2025, os produtos vendidos ao consumidor final representavam 25% das vendas e estabelecia como objetivo elevar essa participação a 30% até o fim de 2027. Naquele momento, também buscava ampliar sua presença em atacarejos.

A estratégia exigiu mais do que colocar produtos em novas prateleiras. A empresa fez um rebranding, pesquisou consumidores e clientes B2B e criou um projeto interno que analisou a jornada de compra nos diferentes canais. O trabalho levou cerca de três anos e envolveu diversas áreas da companhia.

O resultado já aparece nas vendas. Segundo Cerchi, os canais de atacado e varejo cresceram dois dígitos nos últimos três anos.

Qual é a estrutura da Scala hoje

A expansão comercial acontece ao mesmo tempo em que a Scala aumenta a estrutura de produção.

No ano passado, a companhia comprou o Laticínio Deale, no Rio Grande do Sul, acrescentando duas unidades fabris à operação. Com a aquisição, passou a contar com sete fábricas: quatro em Sacramento, sendo três de laticínios e uma de nutrição animal; uma unidade de laticínios em Salitre de Minas, também em Minas Gerais; e as duas fábricas gaúchas.

A marca adquirida será mantida. Segundo Cerchi, a força regional da Deale justifica a convivência com a Scala no mercado do Sul.

A compra também ajuda a aproximar a empresa da meta definida para o fim da década. Com a nova estrutura, a capacidade instalada supera 1 milhão de litros de leite por dia. “Com isso, a gente avança bastante rumo a esse objetivo de dobrar de tamanho até 2030”, afirma Cerchi.

O salto é relevante diante do tamanho que a companhia tinha pouco tempo atrás. Em 2024, a Scala registrou receita de R$ 1,4 bilhão. No ano seguinte, trabalhava com a meta de ultrapassar R$ 1,5 bilhão e já estruturava sua operação para chegar a um processamento diário de 1,4 milhão de litros até 2030.

Agora, a previsão para 2026 já é superar a marca de R$ 2 bilhões.

Como a Scala nasceu e cresceu

A história começou longe das gôndolas dos grandes supermercados.

A Scala foi fundada em 1963, em Sacramento, município mineiro próximo à Serra da Canastra. O fundador, conhecido como Nino, era um imigrante italiano que chegou ao Brasil com a mãe viúva e quatro irmãos, depois de fugir da guerra. Antes de entrar no setor de laticínios, trabalhou em diferentes atividades, entre elas padaria e restaurante.

Depois de juntar dinheiro, comprou uma pequena fábrica de manteiga. O negócio se transformaria na Scala.

Hoje, a terceira geração da família participa da empresa. Cerchi é neta do fundador, enquanto a gestão executiva continua nas mãos da família. Ao mesmo tempo, a companhia vem profissionalizando sua estrutura de governança.

Os fóruns de governança começaram a ser organizados há mais de 20 anos. O conselho de administração, inicialmente consultivo, tornou-se deliberativo; também foi criado um conselho de sócios. Mais recentemente, a empresa incorporou conselheiros independentes — atualmente são três.

A orientação, segundo Cerchi, sempre foi impedir que o negócio crescesse mais rápido do que sua capacidade de gestão. É uma filosofia que ela resume a partir da ideia da “marcha das 20 milhas”, popularizada pelo autor Jim Collins: crescer de maneira constante, sem acelerar de forma desordenada nos períodos favoráveis e preservando estrutura para atravessar momentos difíceis.

Investimentos fora da linha de produção

Parte dos recursos empregados na expansão não vai diretamente para produzir mais queijo.

A Scala investiu R$ 50 milhões em uma estação de tratamento de efluentes capaz de produzir biometano.

Em 2025, o BNDES havia aprovado R$ 64,7 milhões em financiamento do Fundo Clima para a implantação da nova estrutura em Sacramento. O projeto foi dimensionado para tratar 2.500 metros cúbicos de efluentes por dia e sustentar a expansão prevista até 2030.

A companhia também diz manter aproximadamente 350 hectares de florestas plantadas e compensar, por meio de reciclagem, volume equivalente a 110% das embalagens que coloca no mercado. São investimentos que correm em paralelo à expansão da capacidade e à ofensiva comercial.

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Por Guilherme Gonçalves

Publicação original

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