Fundada em Minas Gerais em 1963, companhia aposta em frota, tecnologia e novos negócios para sustentar uma expansão de até 20% ao ano
Aos 63 anos, a Jamef está tentando fazer uma coisa que costuma ser delicada para empresas familiares longevas: ganhar velocidade sem desmontar o que funcionou até aqui. Fundada em 1963, em Divinópolis, Minas Gerais, a transportadora permanece sob o controle da mesma família, mas entrou recentemente em uma nova etapa de profissionalização da gestão.
A companhia projeta alcançar R$ 850 milhões de faturamento em 2026. Para os próximos anos, a ambição é sustentar taxas anuais de expansão entre 15% e 20%, principalmente de forma orgânica. O plano envolve renovação da frota, tecnologia, ampliação da capacidade operacional e negócios como logística hospitalar.
A estrutura atual ajuda a dimensionar o desafio. A Jamef tem mais de 30 unidades próprias, atende 22 estados, conta com cerca de 3.500 funcionários diretos e mantém uma frota que passa de 1.200 veículos, segundo o CEO Marcos Rodrigues. Em 2025, movimentou mais de 11 milhões de volumes e fez aproximadamente 2,2 milhões de entregas pelo país.
Rodrigues assumiu a presidência no início de 2025 com uma missão bastante objetiva: recolocar a companhia numa trajetória mais acelerada. “O principal, eu diria, foi retomar a velocidade que nós eventualmente possamos ter desacelerado”, afirma.
A nova fase também tem dinheiro envolvido. A previsão do executivo é aplicar entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões até 2028, principalmente em frota e tecnologia.
Por que a Jamef trouxe um CEO de fora
Rodrigues não chegou à Jamef como executivo contratado diretamente para comandar a empresa. Sua relação com a transportadora começou entre 2018 e 2019, quando foi convidado para integrar o conselho.
Nesse período, participou da criação e do fortalecimento de estruturas de governança, incluindo comitês de estratégia, inovação e pessoas. No início de 2025, recebeu o convite para trocar a cadeira do conselho pela operação.
Sua carreira também destoa da trajetória tradicional de um executivo especializado em uma única área. Rodrigues começou em tecnologia e passou depois por funções de CFO, executivo de recursos humanos e diretor de operações antes de chegar à presidência de empresas. Ele próprio define sua formação profissional como mais horizontal do que vertical.
Essa experiência passou a ser usada para mexer em uma companhia com características típicas de negócio familiar. Segundo Rodrigues, uma das mudanças foi aumentar a cobrança por indicadores, desempenho e velocidade de decisão.
“Eu ajudei a trazer uma cultura de performance mais ainda agressiva”, afirma. Segundo ele, o objetivo foi combinar a dinâmica de uma companhia nacional controlada por seus fundadores com instrumentos de gestão usados em empresas de maior porte.
Não se trata, ao menos por enquanto, de buscar um investidor para financiar essa transformação. Rodrigues afirma que a Jamef não precisa de capital externo para executar o plano atual e pretende usar principalmente sua própria geração de caixa. Eventuais linhas de financiamento poderão entrar na conta, sobretudo para a renovação da frota.
Como a Jamef vai seguir crescendo
A principal aposta continua sendo o negócio que colocou a empresa na estrada: o transporte de cargas fracionadas.
Nesse modelo, mercadorias de diferentes clientes dividem o mesmo caminhão e percorrem uma rede de centros de distribuição até chegar ao destino. A Jamef atua principalmente no transporte rodoviário, embora também tenha uma operação aérea e serviços voltados aos mercados B2B e B2C.
A espinha dorsal da operação de transferência é própria. Os caminhões que fazem os deslocamentos entre os terminais pertencem à companhia e os motoristas são funcionários da empresa. Para Rodrigues, isso dá mais controle sobre prazos, disponibilidade e qualidade do serviço do que uma operação totalmente dependente de terceiros.
Nas regiões em que não possui filial, a companhia complementa a cobertura com mais de uma centena de agentes parceiros. A rede de unidades próprias vai de Belém a Caxias do Sul.
Rodrigues passou os primeiros meses no comando tentando entender essas diferenças de perto. Em cerca de 14 meses, visitou todas as filiais da transportadora. A lógica, segundo ele, era observar como uma mesma operação muda conforme clima, distância, infraestrutura e riscos de cada região do país.
A prioridade agora não é levar a Jamef para fora do Brasil. Apesar de ter recebido propostas de parcerias para avançar em outros mercados da América do Sul, Rodrigues diz que ainda há espaço suficiente para crescer internamente.
“A nossa estratégia é crescer aqui dentro, Guilherme, crescer dentro do Brasil”, afirma.
Quais serão os próximos investimentos da Jamef
Parte relevante do plano dependerá de novos ativos.
Neste ano, a empresa investiu R$ 25 milhões na compra e preparação de 31 novos cavalos mecânicos Mercedes-Benz Axor 2038. Além do veículo em si, entram nessa conta equipamentos de rastreamento e os demais itens necessários para colocar os caminhões em operação.
A renovação busca diminuir manutenção corretiva e interrupções, além de melhorar consumo de combustível e segurança. É um ponto especialmente sensível para uma empresa de transporte: o diesel representa entre 45% e 50% dos custos operacionais da Jamef.
A necessidade não termina nos 31 caminhões. Rodrigues diz que haverá uma renovação relevante da frota até 2028, o que deverá absorver uma parcela dos R$ 100 milhões a R$ 150 milhões previstos no novo ciclo de investimentos.
A companhia já possui também uma estrutura de grande porte em Osasco, na Grande São Paulo. O centro logístico tem aproximadamente 50 mil metros quadrados e mais de 2 quilômetros de esteiras, além de abrigar estruturas de controle operacional, manutenção e outros serviços.
O sistema de separação instalado no local tem capacidade para processar mais de 100 mil volumes por dia, ou cerca de 5 mil por hora.
Segundo Rodrigues, a infraestrutura existente foi desenhada para suportar uma companhia significativamente maior. “A estrutura que nós montamos, ela indubitavelmente é para suportar uma receita 50% maior que nós temos hoje”, afirma.
Como a transportadora usa tecnologia
A outra parcela importante dos investimentos está menos visível que um novo caminhão.
Rodrigues, que começou a carreira em tecnologia, colocou inteligência artificial e análise de dados no centro de parte das mudanças. A Jamef já utiliza ferramentas de IA em áreas como atendimento comercial, recursos humanos, inteligência de mercado e operações.
No comercial, sistemas ajudam a processar cotações e contatos de clientes. Em RH, são usados em etapas de seleção e análise de dados. Na operação, a empresa desenvolve sistemas de roteirização e utiliza câmeras para calcular automaticamente a cubagem das mercadorias — medida importante para definir quanto espaço cada encomenda ocupará no caminhão.
A empresa também está unificando sua infraestrutura de dados. O plano para 2026 inclui data lake, migração das ferramentas de BI e consolidação dos data centers, num investimento que Rodrigues coloca na casa de dezenas de milhões de reais. A ideia é entrar em 2027 com essa estrutura já funcionando.
Mesmo assim, o CEO evita vender uma automação total da logística como algo iminente. A empresa chegou a testar um robô humanoide, batizado de JT63, mas Rodrigues reconhece que ainda não há tecnologia capaz de manipular de maneira eficiente a variedade de pesos, dimensões e formatos encontrada numa operação de carga fracionada.
Uma nova avenida na saúde
Fora da operação tradicional, a Jamef também tenta encontrar áreas em que possa cobrar pela especialização, e não apenas pelo transporte.
Uma delas é a Jamef Hospitalar, unidade dedicada à logística de produtos médicos. A empresa já investiu mais de R$ 10 milhões na vertical e prevê que o negócio possa crescer até 300% nos próximos dois anos.
Uma das operações mais recentes veio de uma parceria com a Endocardio Medical. A Jamef passou a atender mais de 40 hospitais nas regiões de Campinas, Ribeirão Preto e Barretos, transportando produtos como marcapassos e desfibriladores.
Nesse negócio, a exigência é diferente da carga convencional. Alguns itens precisam chegar ao hospital em até duas horas, e a empresa informa operar com índice de 99,8% de assertividade.
A divisão funciona separadamente da transportadora convencional, embora utilize espaços dentro dos terminais da Jamef. Por transportar produtos de saúde, possui estrutura própria e precisa seguir regras específicas da Anvisa e do Ministério da Saúde.
O modal aéreo é outra frente em expansão, mas sem mudar a prioridade da companhia. Rodrigues deixa claro que a Jamef não pretende se transformar numa empresa de aviação.
“O aéreo é um modal importante para nós, é um modal que nós vamos continuar crescendo, mas o nosso foco […] é transporte rodoviário”, afirma.
Quais serão os próximos passos da Jamef
Rodrigues também não descarta aquisições, embora elas não sejam necessárias para cumprir as metas atuais.
Segundo o executivo, transportadoras menores e até empresas de porte semelhante são oferecidas à Jamef com alguma frequência. A companhia também analisa cerca de 12 novos negócios correlatos, para os quais já desenvolve estudos e business cases.
Por enquanto, porém, a ordem é crescer com a própria operação.
“Hoje, nosso foco é esse crescimento orgânico”, afirma Rodrigues. Para o executivo, existe espaço para manter uma expansão anual de 15% a 20% pelos próximos cinco anos, desde que o ambiente econômico não imponha uma desaceleração mais forte.
Aquisições podem voltar à mesa mais adiante, especialmente em 2027 e 2028. Até lá, a agenda é menos espalhafatosa: trocar caminhões, automatizar processos, aproveitar melhor a rede construída ao longo de seis décadas e tentar colocar uma empresa familiar de 63 anos para andar mais rápido.
Por Guilherme Gonçalves
