Helcio Tokeshi assume como CEO em meio à reorganização societária da petroquímica; Magda Chambriard, presidente da Petrobras, comandará o conselho
A Braskem aprovou uma ampla reformulação em sua estrutura de governança após a entrada da IG4 Capital no bloco de controle da petroquímica, ao lado da Petrobras. Em Assembleia Geral Extraordinária realizada na segunda-feira (8), a companhia elegeu Helcio Tokeshi como novo diretor-presidente, em substituição a Roberto Prisco Paraiso Ramos.
Economista e sócio-diretor da IG4 Capital, Tokeshi chega ao comando da maior produtora de resinas termoplásticas das Américas em um dos momentos mais delicados de sua história recente. A empresa enfrenta uma crise financeira relevante e busca avançar em negociações com credores para reestruturar cerca de R$ 60 bilhões em dívidas, incluindo passivos da subsidiária mexicana Braskem Idesa.
Em sua primeira entrevista como CEO, ao Valor, Tokeshi afirmou que o processo de reestruturação “não vai ser fácil” e deve enfrentar turbulências, mas disse enxergar um cenário mais favorável para a companhia. Segundo ele, a melhora nos preços e na demanda por petroquímicos, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio, ajuda a criar uma janela de oportunidade para as negociações.
A principal agenda de curto prazo será evitar novas pressões sobre a liquidez da empresa. A Braskem tenta negociar com credores no Brasil e no México a suspensão temporária de vencimentos, em um movimento que pode anteceder uma recuperação extrajudicial. Segundo fontes próximas aos controladores, não há intenção, neste momento, de recorrer à recuperação judicial.
Além de Tokeshi, a Braskem elegeu Carlos Augusto Machado Pereira de Almeida Brandão, ex-presidente da Iguá Saneamento e especialista em reestruturação de dívidas, como diretor financeiro e de relações com investidores. Camilla Tedeschi de Toledo Tápias assumirá a diretoria jurídica, enquanto Luiz Gustavo Perrotti Rossato ficará à frente da área de transformação.
A nova composição também marca uma mudança relevante no Conselho de Administração. O colegiado, com mandato até a Assembleia Geral Ordinária de 2028, será presidido por Magda Chambriard, atual presidente da Petrobras. A escolha reflete o novo equilíbrio de forças na governança da Braskem, agora compartilhada entre a estatal e a IG4 Capital.
Com as alterações, deixam seus cargos Felipe Montoro Jens, Geraldo Magela de Moraes Vilaça Netto, Stefan Lanna Lepecki e Roberto Prisco Paraiso Ramos.
A reestruturação, no entanto, vai além da dívida. A nova gestão reconhece que a indústria petroquímica global passa por mudanças estruturais, com alterações na dinâmica de oferta e demanda e nos custos de produção. Por isso, a companhia também deve revisar sua estratégia operacional, incluindo temas como eficiência, portfólio, matéria-prima e competitividade.
Tokeshi afirmou que uma venda relevante de ativos não está nos planos imediatos, diante da volatilidade internacional e da importância de manter um portfólio diversificado. No médio prazo, porém, ativos considerados não estratégicos poderão entrar em um eventual pacote de desinvestimentos.
Entre os focos da nova fase estão a migração gradual da nafta para o gás como matéria-prima, a expansão do complexo petroquímico no Rio de Janeiro e o avanço dos petroquímicos verdes, produzidos a partir do etanol.
A mudança no comando ocorre após a venda do controle antes detido pela Novonor para a IG4 Capital e a assinatura de um acordo de acionistas com a Petrobras. A nova estrutura dá à estatal maior influência na gestão da petroquímica em comparação ao arranjo anterior.
Para Tokeshi, a presença da Petrobras no bloco de controle é positiva. “Os acionistas estão alinhados. É ótimo ter a Petrobras junto”, afirmou.
Caso a reestruturação avance com sucesso e a alavancagem da companhia recue, a Braskem poderá, no futuro, migrar para o Novo Mercado da B3. Antes disso, porém, terá de atravessar uma agenda pesada: convencer credores, preservar caixa e provar ao mercado que o novo comando será capaz de reorganizar uma das empresas mais estratégicas da cadeia petroquímica brasileira.
