Impressão 3D, IA e novos processos miram o canteiro para reduzir custos, desperdício e prazos na construção civil
A construção civil avançou em gestão, planejamento, relacionamento com o cliente e tecnologia da informação. Mas, no coração da operação, muita coisa ainda segue parecida com décadas atrás. No canteiro de obras, a lógica continua baseada em processos manuais, repetitivos e pouco industrializados: um tijolo depois do outro, uma cerâmica depois da outra, uma telha depois da outra.
É justamente nesse ponto que o setor tenta virar a chave. Uma pesquisa da Falconi com mais de 140 construtoras brasileiras revelou que apenas 10% das empresas se consideram realmente inovadoras, embora mais de 70% se vejam como eficientes. O dado expõe uma distância importante entre operar bem e transformar de fato a forma de construir.
“Se você colocar uma foto de como era antes e como é hoje, é muito parecido. A gente teve pouquíssimas evoluções, principalmente de canteiro de obras, que fizeram diferença na construção civil”, afirma Luiz Eduardo Machado, diretor nacional de obras da Emccamp Residencial.
Para a incorporadora, inovação no canteiro precisa passar por critérios concretos. Antes de adotar uma nova solução, a empresa avalia se ela mantém ou supera o padrão de qualidade, reduz custos, rompe com a lógica artesanal do “um a um”, é leve, permite testes rápidos e consegue atrair o colaborador para a mudança.
“A gente precisa testar rápido e aprender rápido. Começar pequeno, testar pequeno, entender como funciona. Não funcionou, troca rápido, evolui rápido”, diz Machado.
Segundo ele, o principal obstáculo hoje não está na resistência das equipes, mas no tempo necessário para desenvolver, validar e certificar novas tecnologias. “A gente pode ser uma fábrica de solução e não podemos, de jeito nenhum, ser uma fábrica de problemas”, afirma.
Entre as apostas que começam a redesenhar esse cenário está a impressão 3D de concreto. A tecnologia permite produzir peças fora do canteiro e levá-las prontas para montagem na obra. Daniel Félix, responsável pelas operações da Cosmos 3D, resume o processo de forma simples: “Saem da impressora as pecinhas prontas, a gente leva para a obra, encaixa e monta. É como brincar de Lego com coisa de gente grande.”

A comparação é leve, mas os ganhos são objetivos. Em obras de 200 m² a 400 m², a tecnologia reduziu o prazo de execução de 18 para 8 meses. O desperdício de materiais fica entre 5% e 8%, enquanto no modelo convencional pode superar 20%. A operação também exige menos mão de obra: uma estrutura completa pode funcionar com três ou quatro funcionários, entre fábrica e obra.
“Temos um processo todo rastreável e auditável. Isso é um controle de qualidade que permite otimizar tanto o prazo quanto a qualidade de entrega”, afirma Félix.
Para ele, o desafio mais difícil não é tecnológico, mas cultural. A adoção depende de mostrar, especialmente a quem está na ponta, quais são os ganhos reais da mudança. “Todo mundo ama quando vê, porque é muito legal mesmo. Quando eles percebem o valor, fica muito mais fácil engajá-los”, diz.
A inteligência artificial também começa a aparecer como ferramenta para resolver problemas antigos da cadeia da construção. Weber Rangel, CEO do Minas Summit, cita o exemplo da startup Estoque na Obra, que usa IA pelo WhatsApp para conectar pequenos empreiteiros a compradores de materiais excedentes. A solução transforma sobras de obra em economia circular.
“É um exemplo de como a inovação pode trazer a inteligência artificial para dentro de um processo que todo mundo conhece, mas ninguém havia digitalizado direito”, afirma Rangel.
Para o executivo, inovar deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser condição de sobrevivência. “Inovação hoje é uma condição sine qua non para as empresas continuarem existindo. Ela tem que estar no core da organização, igual contratar maquinário e pessoas”, pontua.
A velocidade das mudanças aumenta a pressão sobre as empresas. Segundo Rangel, a inteligência artificial dobra sua capacidade de desenvolvimento a cada sete meses, o que exige adaptação rápida dos negócios. “Quem não tiver inovação no sangue vai ficar para trás e isso está acontecendo muito rápido”, afirma.
Apesar do ritmo acelerado, o setor ainda vê espaço para uma transformação profunda. Na avaliação dos especialistas, a próxima fronteira da inovação na construção civil está no chão de fábrica, onde a produtividade pode crescer com processos mais industrializados, uso de dados, novas tecnologias e mudanças culturais.
“Tenho certeza que a bola da vez é o chão de fábrica. Nas áreas de apoio, a inovação já evoluiu muito, é nítido. Mas na obra em si, a gente tem um oceano azul para desenvolver”, resume Machado.
A avaliação é compartilhada por Félix, que vê a construção civil entrando em uma fase parecida com a transformação já vivida por outros setores. “A automobilística foi, o agro foi, a farmacêutica foi. A construção civil está chegando lá e agora é a nossa hora”, afirma.
