Coleções apresentadas em São Paulo exploram tecidos jacquard, escamas naturais e referências brasileiras para tratar a iluminação como parte da identidade dos interiores
A luminária está deixando de ser apenas aquilo que ilumina o ambiente para assumir uma presença cada vez mais próxima da escultura. Essa ideia atravessou duas coleções apresentadas nesta terça-feira (6), em São Paulo, pelo Cris Bertolucci Estúdio, aproximando luz, moda, artesanato e pesquisa de materiais.
De um lado, Jacquard, assinada por Lili Tedde, Cris e Giovanna Bertolucci. Do outro, Camurupim, do artista e designer Vinicius Parisi. Embora partam de universos bastante distintos, as duas têm algo em comum: é o próprio material que ajuda a definir a forma e a maneira como a luz ocupa o espaço.

Quando o tecido deixa o corpo e vai para a luminária
Na coleção Jacquard, tecidos originalmente desenvolvidos para o universo da moda foram deslocados para o design de iluminação. A trama, a densidade dos fios e os diferentes níveis de transparência passam a interferir diretamente na quantidade de luz difundida e até nos contornos das peças.
A pesquisa partiu de Analogy of Flowers, estudo do Studio Edelkoort, de Paris, dedicado a diferentes interpretações do universo botânico. Os padrões orientaram o desenvolvimento dos jacquards, posteriormente selecionados por Lili Tedde, Cris e Giovanna Bertolucci para a coleção.
A própria apresentação do projeto resume esse encontro entre moda e design: “Assim como as vestimentas moldam nossos corpos, bases e cúpulas são revestidas de modo a preservar a liberdade e a fluidez das peças.”

Em vez de esconder a estrutura do tecido, a coleção explora justamente sua maleabilidade. O avesso aparece, as cúpulas ganham movimento e a luz muda conforme a trama, transitando entre opacidade e difusão.
São sete modelos, entre coluna, abajur, arandela e diferentes tipos de pendente. A paleta passa por verdes, vermelhos, beges, cinzas e dourados, e as peças apresentadas no lançamento integram uma série limitada, sem reedição dos mesmos padrões.

Escamas de peixe entram no design
Camurupim parte de outro repertório. Vinicius Parisi buscou na pesca artesanal do Norte e Nordeste brasileiro as referências para uma série de três luminárias produzidas com escamas naturais de camurupim, madeira de imbuia e aço inox.

O material, tradicionalmente utilizado por artesãos de comunidades costeiras em adornos e objetos, aparece deslocado para o design contemporâneo e combinado a estruturas inspiradas tanto no peixe quanto nas embarcações relacionadas à sua pesca.
“Camurupim nasceu do interesse em aproximar o design de uma cultura material que já existe e carrega uma história própria. A ideia não era reproduzir literalmente o peixe ou as embarcações, mas traduzir essa relação entre homem, mar e matéria em um objeto contemporâneo”, explica Parisi.

A pesquisa começou com a luminária de piso Camurupim, apresentada no SaloneSatellite de Milão em 2025. Agora, a linguagem foi ampliada com duas versões suspensas, Camurupim 140 e Camurupim 104. A peça inaugural também entrou na shortlist do Architecture Hunter Awards 2026, na categoria Product Design | Lighting Design.
As duas coleções ajudam a mostrar uma mudança interessante no design de interiores: a iluminação passa a ser pensada não apenas pela intensidade ou temperatura da luz, mas também pelo que o objeto comunica mesmo quando está apagado.
O lançamento, realizado no Cris Bertolucci Estúdio, na Vila Madalena, incluiu ainda uma conversa conduzida pelo jornalista e curador Marcelo Lima sobre a dimensão cada vez mais escultórica e emocional das luminárias nos interiores contemporâneos.
Gostou do conteúdo? Inscreva-se e receba a newsletter de MONEY REPORT
