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O ateliê de Iris van Herpen

Anny Meisler,
para MR
28 de julho de 2026

Há algumas semanas, entrei numa sala do Brooklyn Museum e demorei a entender o que estava olhando. Era parte da exposição Iris van Herpen: Sculpting the Senses, a primeira grande retrospectiva da estilista holandesa nos Estados Unidos.

Quase duas décadas de uma produção que torna difícil saber onde termina a moda e começam a arte, a ciência e a engenharia. Suas criações já vestiram Beyoncé, Björk, Lady Gaga. Há vestidos que parecem líquidos, tecidos que lembram ar, estruturas que se comportam mais como organismos vivos do que como roupas.

Mas não foi nenhum desses vestidos que mais me impressionou por mais que cada um mereça, e aqui já deixo a recomendação, uma visita demorada e uma pesquisa profunda sobre toda a obra dela.

Foi uma sala que provavelmente recebe menos flashes e menos tempo de visita. No meio da exposição, o museu reconstruiu o ateliê de Iris van Herpen, em Amsterdã. Nas paredes: testes de materiais, moldes, estudos de plissados, experiências com fios, pequenas maquetes. Um mood board, mas numa escala que eu nunca tinha visto. Tudo aquilo que a peça pronta esconde, exposto ali, sem pudor.

É o avesso da obra. E é ali que mora uma das grandes contradições do trabalho extraordinário: quanto mais perfeito parece o resultado, mais difícil fica enxergar a complexidade que foi preciso para produzi-lo.

As peças parecem ter saído de um computador, ou de alguma realidade futura. Mas são o encontro entre tecnologia de ponta e técnicas tradicionais de alta-costura. Envolvem pesquisa, modelagem, costura manual, tentativa, erro e colaboração com arquitetos, biólogos, físicos, engenheiros, artistas. Foi isso que me fascinou: a coragem de transitar por tantos mundos para criar um só.

Um dos trabalhos é um vestido vivo, feito com cerca de 125 milhões de microalgas bioluminescentes. Elas emitem luz em resposta ao movimento e, para permanecerem vivas, precisam de umidade, temperatura e até ritmo circadiano controlados. O que parece poesia é sustentado por física, biologia, precisão e um cuidado diário que ninguém vê.

Saí daquela sala pensando no que acontece nas empresas. Somos treinados para admirar o resultado, mas raramente aprendemos a reconhecer o processo que o tornou possível. O mercado vê o número do trimestre. Não vê a decisão difícil tomada seis meses antes. Vê o produto lançado. Não vê os protótipos descartados.

Vê a empresa crescendo. Não vê as conversas incômodas, os erros corrigidos, as contratações certas e as recusas que protegeram o negócio. Vê a obra pronta. Não vê tudo o que precisou ser resolvido para que ela parecesse simples.

Quando um ambiente fica pronto, o que aparece é a beleza: a proporção, os materiais, a harmonia entre as peças. Mas aquilo que o cliente não vê costuma ser exatamente o que exigiu mais inteligência. Porque quando o trabalho é bem executado, o esforço desaparece. E talvez esteja aí uma das maiores injustiças da excelência: ela torna invisível tudo o que foi preciso para alcançá-la.

Quem olha rápido para um vestido de Iris van Herpen diz apenas: “é moda”. Quem entra no ateliê entende que está diante de pesquisa aplicada, domínio técnico, colaboração entre áreas e anos de repertório construído. Uma carreira não se faz só de talento. Existe uma contabilidade invisível estudo, renúncia, consistência, trabalho que nenhuma biografia registra por inteiro.

Acredito que por isso o ateliê tenha me interessado mais do que a passarela. A passarela mostra o resultado. O ateliê revela a capacidade de produzir muitos outros. E, para quem lidera ou investe, essa distinção muda tudo: resultados extraordinários podem ser pontuais; capacidades extraordinárias são repetíveis.

Saí do Brooklyn Museum pensando que a obra mais importante daquela exposição não foi nenhum vestido.

Era o ateliê. A sala que revelava que nada verdadeiramente extraordinário uma obra, uma empresa, uma carreira nasce sem uma enorme quantidade de trabalho que quase ninguém vê. Na arte, como nos negócios, admirar o que está pronto é fácil. O olhar realmente valioso é o que reconhece tudo o que precisou existir antes de o resultado aparecer.

Se você passar por Nova York enquanto a exposição estiver em cartaz, vá. Mas não pare nos vestidos. Procure o ateliê. É lá que está a parte mais bonita e a mais verdadeira.

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