Retrospectiva no Art Basel Paris reúne sete anos de colaborações com artistas e apresenta nova série de 13 bolsas inspiradas no universo de Keith Haring
Uma bolsa pode funcionar como suporte para uma obra de arte? É essa relação entre moda, artesanato e criação artística que a Louis Vuitton explora em uma retrospectiva de Artycapucines durante o Art Basel Paris 2026, de 23 a 25 de outubro, no Grand Palais.
Criado em 2019, o projeto convida artistas contemporâneos a reinterpretar a Capucines, transformando sua estrutura, superfície e materiais a partir de diferentes linguagens. Na mostra, realizada no Balcon d’Honneur, criações de 14 artistas aparecem ao lado das obras que inspiraram as bolsas. A Louis Vuitton participa da feira como parceira associada.
Legenda: Bolsas da nova Artycapucines dedicada a Keith Haring aparecem diante de obra do artista, destaque da retrospectiva da Louis Vuitton na Art Basel Paris | Foto: Divulgação/Louis Vuitton
A proposta permite olhar para a Capucines fora da sequência tradicional de lançamentos e observar aquilo que acontece quando uma pintura, uma escultura ou um trabalho têxtil precisa ganhar outra escala, matéria e função.
A própria montagem participa dessa conversa. Caixas abertas, pedestais e estruturas semelhantes a baús foram produzidos em alumínio escovado e lona de algodão, em referência ao armazenamento e ao transporte de obras de arte. A cenografia também recupera as origens da Louis Vuitton como fabricante de baús de viagem.

Quando a obra muda de suporte
A graça da retrospectiva está justamente em colocar criação original e bolsa frente a frente.
Alex Israel, por exemplo, tem Cut-Out-Fin (Golden Hour) exibida ao lado de sua Capucines inspirada em uma barbatana. Já Fruits, de Urs Fischer, encontra correspondência em uma bolsa com uma banana suspensa. As composições botânicas de Sam Falls e as sobreposições entre pintura e têxtil de Tschabalala Self revelam outras maneiras de transportar uma linguagem artística para o couro.
A materialidade também ganha espaço. Because of its blues, de Kennedy Yanko, mistura metal e “pele” de tinta e dialoga com o caráter escultórico de sua bolsa. Os trabalhos com contas de vidro pintadas de Liza Lou e os bordados em seda de Billie Zangewa ajudam a mostrar como técnicas bastante diferentes podem encontrar equivalentes no savoir-faire da marroquinaria.

A exposição revisita ainda relações construídas pela Louis Vuitton com artistas como Takashi Murakami, Yayoi Kusama e Frank Gehry. No caso de Murakami, Monogramouflage Skull (Black) aparece próximo à bolsa inspirada em seu universo camuflado.
A colaboração entre moda e arte, porém, é anterior ao próprio Artycapucines. A maison remonta essa história a 1920, quando trabalhou com o artista e designer Pierre Legrain.

Keith Haring ganha coleção própria
O novo capítulo de Artycapucines é dedicado a Keith Haring e coloca alguns dos desenhos mais reconhecidos da arte pop e da cena nova-iorquina dos anos 1980 sobre uma das bolsas mais tradicionais da maison.
Desenvolvida em colaboração com a Keith Haring Foundation, a oitava edição reúne 13 modelos. Entre as referências escolhidas estão figuras humanas em movimento, Radiant Baby, Running Heart e outros símbolos associados ao vocabulário gráfico do artista.
Para transferir esses desenhos para as bolsas, os ateliês recorreram a técnicas que passam pela marchetaria tradicional em couro e pela impressão a laser.
Uma das criações mais elaboradas é a Capucines Nano Running Heart, inspirada na obra homônima de Haring, de 1984, e coberta por mais de 12 mil cristais. A coleção inclui ainda uma minaudière, pequena bolsa rígida, inspirada em uma embalagem de comida para viagem e decorada com referências à Estátua da Liberdade e à “Big Apple”.

Mas a ligação entre Haring e a Louis Vuitton começou décadas antes desta coleção.
A exposição apresenta uma mala da maison produzida nos anos 1930 e customizada pelo artista em 1984. O objeto estabelece uma conexão concreta entre os dois universos e também serviu de referência para a Capucines MM Genesis da nova série.
A presença dessa peça histórica ajuda a tirar a colaboração do território de uma simples reprodução póstuma. Haring já havia usado um objeto Louis Vuitton como suporte artístico enquanto ainda construía sua trajetória em Nova York.
O artista, morto em 1990 aos 31 anos, tornou-se um dos nomes mais reconhecidos da cena cultural nova-iorquina dos anos 1980. Seus desenhos de contornos marcados e figuras ritmadas circularam entre ruas, metrô, galerias, museus e cultura pop. Nos últimos anos de vida, seu trabalho também incorporou questões políticas e campanhas ligadas à conscientização sobre a Aids.
De bolsa a objeto de coleção
A retrospectiva ajuda a enxergar a Capucines fora da lógica puramente comercial. Colocar cada acessório próximo das referências que orientaram sua criação revela aquilo que permanece reconhecível da obra e aquilo que precisa ser reinventado quando ela passa para outro suporte.
É também uma maneira de tornar visível o trabalho técnico escondido por trás das peças. Em Artycapucines, pinturas, esculturas, bordados e instalações não são simplesmente estampados no couro. Suas formas, texturas e processos precisam ser reconstruídos pelos artesãos da maison.
A nova coleção dedicada a Keith Haring estará disponível a partir de 1º de janeiro de 2027, em edição limitada. Uma linha mais ampla inspirada no artista também deverá incluir prêt-à-porter, artigos de couro e acessórios.
Durante a Art Basel Paris, no entanto, a lógica se aproxima mais da exposição do que da vitrine. Pela primeira vez, uma seleção de títulos da Louis Vuitton Editions também estará disponível na Art Basel Store.
Depois de sete anos de Artycapucines, o mais interessante talvez não seja decidir se uma bolsa pode ser considerada arte. É observar o caminho que uma ideia percorre até ganhar outra matéria, outra escala e uma nova forma de circular pelo mundo.
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