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Da preguiça ao tamanduá: fauna brasileira vira mobiliário de coleção em estreia de Vinícius Rosaneli

Lorena Scavone Giron
23 de setembro de 2026
Em sua primeira coleção autoral, arquiteto transforma animais brasileiros em sete peças de edição limitada e leva ao mobiliário uma pesquisa construída entre arquitetura, arte, natureza e design

Um tamanduá pode virar banco. Um jabuti, mesa de centro. E a preguiça, poltrona. Mas, na primeira coleção autoral de mobiliário de Vinícius Rosaneli, a fauna brasileira aparece longe da representação literal. Os animais são reduzidos a volumes, proporções e soluções construtivas até se transformarem em peças que transitam entre móvel, escultura e objeto de coleção.

Batizada de Brasilis, a série foi apresentada nesta terça-feira (22), na Patio Brasil, em São Paulo, justamente no Dia Nacional em Defesa da Fauna. São sete peças concebidas em séries limitadas e assinadas, marcando a entrada de Rosaneli no design de produto depois de uma trajetória concentrada em arquitetura e interiores.

A coleção parte de espécies brasileiras para construir um repertório próprio. O Banco Tamã toma o tamanduá-bandeira como referência, enquanto o Banco Muriqui remete ao macaco-muriqui. As mesas de centro Tinga e Piranga são associadas ao jabuti-tinga e ao jabuti-piranga; a Poltrona Preguiça carrega a inspiração já no nome; e a série se completa com Mesa Esperança e Cadeira Esperança.

 Mesa e Cadeira Esperança levam para o mobiliário a referência ao inseto de mesmo nome; as peças combinam madeira freijó e aço inox, com quartzito Vitória Régia na mesa | Crédito: @paolayrenato_

Algumas das peças de Brasilis, apresentadas individualmente em diferentes materiais e soluções construtivas | Divulgação

O exercício, porém, não é transformar bichos em móveis de maneira literal. No Banco Tamã, por exemplo, o tamanduá aparece na extensão horizontal do corpo e na terminação alongada. Nas mesas inspiradas em jabutis, a referência é sintetizada em formas baixas e circulares, mais próximas do chão.

No Banco Tamã, a referência ao tamanduá-bandeira aparece na horizontalidade e nas proporções da peça, produzida integralmente em madeira freijó | Crédito: @paolayrenato_
Banco Tamã traduz o corpo alongado do tamanduá-bandeira em uma peça de desenho horizontal e caráter escultórico | Divulgação

Brasil sem folclore

É justamente aí que Brasilis encontra seu caminho mais interessante: falar de identidade brasileira sem recorrer à caricatura.

Madeira, quartzitos e metais são combinados em contrastes entre quente e frio, peso e leveza, enquanto encaixes de madeira e forquilhas deixam de ser apenas recursos técnicos e passam a integrar o próprio desenho. A coleção estabelece ainda um diálogo com princípios do modernismo brasileiro, sobretudo pela valorização da estrutura, da matéria e da clareza formal.

Inspirada no jabuti-tinga, a Mesa de Centro Tinga combina madeira freijó, quartzito Vitória Régia e aço inox | Crédito: @paolayrenato_
Mesa de Centro Tinga combina madeira e pedra e leva para o objeto a referência ao jabuti-tinga | Divulgação

Os detalhes construtivos também ajudam a explicar essa linguagem. Estrutura e técnica não ficam escondidas: aparecem de forma deliberada, transformando o encaixe em parte da estética do móvel.

 Na Mesa Esperança, estrutura e encaixes ficam aparentes e passam a integrar o desenho da peça, que reúne madeira freijó, aço inox e quartzito Vitória Régia | Crédito: @paolayrenato_

Essa busca pela matéria não começou agora. O estúdio de Rosaneli trabalha arquitetura, interiores e design a partir de materiais naturais, luz, arte e uma estética menos submetida ao excesso ou à tendência passageira. No material que apresenta a filosofia do escritório, essa ideia é resumida de forma direta: “O valor contemporâneo está no que persiste.”

Em Brasilis, esse pensamento ganhou o conceito de “Território Vivo”. A proposta parte da ideia de que território não se encerra nas fronteiras de um mapa. Ele também permanece na memória, na matéria, na cultura e nas maneiras pelas quais a natureza ajuda a formar uma identidade.

“Território não é apenas lugar, é, sobretudo, aquilo que nos habita”, afirma Rosaneli.

Inspirado no tamanduá-bandeira, o Banco Tamã aparece em diálogo com a paisagem que orienta o conceito de “Território Vivo” | Crédito: @paolayrenato_

O Brasil da coleção, portanto, não está apenas nos bichos que batizam as peças. Aparece também nos materiais, nos modos de construção e em uma leitura do país feita menos por símbolos evidentes e mais por textura, proporção e memória.

Entre São Paulo, Bahia e Michigan
Vinícius Rosaneli ao lado do Banco Tamã, uma das sete peças de sua primeira coleção autoral de mobiliário | Crédito: @paolayrenato_

A mistura de referências acompanha a própria formação do arquiteto.

Filho de um designer automotivo, Rosaneli cresceu próximo ao processo de criação e à relação entre forma, função, cálculo e conforto. Sua infância foi dividida entre São Paulo e Bahia, além de uma passagem por Michigan, nos Estados Unidos. Com raízes familiares italianas, construiu um repertório que mistura referências europeias, tropicais e urbanas.

Essa formação ajuda a explicar outra ideia recorrente em seu trabalho. No material que apresenta sua trajetória, a arquitetura é descrita não apenas pelo espaço físico que ocupa, mas pela experiência que produz: “a arquitetura não se limita aos volumes, ela se define pelo que desperta.”

É uma noção que agora passa da escala do ambiente para a do objeto.

Com trabalhos no Brasil entre Bahia, São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, além de projetos internacionais em andamento, Rosaneli vinha construindo sua atuação principalmente em arquitetura e interiores. Brasilis inaugura uma nova frente, levando para sete móveis questões já recorrentes em seus projetos, como proporção, materialidade, estrutura e precisão construtiva.

Do ambiente ao objeto de coleção

A mudança de escala também abre uma nova frente de negócios para o arquiteto. Em vez de desenhar apenas o ambiente e selecionar aquilo que estará dentro dele, Rosaneli passa a colocar no mercado peças capazes de circular independentemente de seus projetos de arquitetura.

A opção por séries limitadas e assinadas reforça o caráter autoral de Brasilis e aproxima os móveis do universo do design colecionável, no qual desenho, procedência, materialidade e quantidade produzida também ajudam a construir valor.

 Inspirada no bicho-preguiça, a Poltrona Preguiça reúne madeira freijó, aço inox, camurça natural hidrofugada, percinta e tela sling | Crédito: @paolayrenato_

A estreia aconteceu em parceria com a Patio Brasil, empresa que atua há 26 anos no mercado de mobiliário de alto padrão e mantém produção própria em Uberaba, Minas Gerais. Especializada em peças para áreas externas e espaços de transição, como varandas e áreas gourmet, a marca inaugurou seu primeiro showroom em São Paulo na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, endereço escolhido para apresentar a coleção.

A associação também insere Brasilis em uma discussão maior do mercado de luxo contemporâneo: a valorização de autoria, história, trabalho manual e permanência em oposição à lógica de consumo acelerado e de tendências que envelhecem rápido.

No caso da coleção, o caráter colecionável não vem apenas da tiragem limitada. Vem da tentativa de fazer com que cada peça carregue uma narrativa própria, ainda que sem abrir mão da função.

 Detalhe do quartzito Vitória Régia da Mesa de Centro Tinga, combinado a madeira freijó e aço inox | Crédito: @paolayrenato_
 Detalhe do quartzito Vitória Régia da Mesa de Centro Tinga, combinado a madeira freijó e aço inox | Crédito: @paolayrenato_

Fauna, ancestralidade e futuro

A narrativa brasileira extrapola o mobiliário.

O convite do lançamento trouxe uma obra da jovem artista Isabel Eulálio, criada quando ela tinha 12 anos. Na paisagem, água e terra estruturam a composição, o voo dos guarás sugere o ar e a intensidade cromática das aves se aproxima do fogo. Há ainda uma referência ao Manto Tupinambá, ligando fauna, ancestralidade e memória cultural.

A escolha acrescenta uma dimensão de futuro ao projeto. Se Brasilis parte de espécies, paisagens, técnicas e memórias brasileiras, a presença de uma obra produzida por uma nova geração ajuda a deslocar esse repertório da nostalgia para a continuidade.

No fim, a coleção fala menos sobre colocar animais dentro de casa do que sobre encontrar novas formas de representar o Brasil.

Tamanduás, jabutis, muriquis, preguiças e esperanças são o ponto de partida. O que chega ao mobiliário são madeira, pedra, metal, encaixe, proporção e uma tentativa de transformar território em desenho — e de criar objetos capazes de continuar fazendo sentido depois que a tendência da vez passar.

Apresentada na terça-feira (22) em um vernissage na Patio Brasil, em São Paulo, a coleção Brasilis — Vinícius Rosaneli para Patio Brasil permanece em exposição até 25 de setembro, das 10h às 19h, no showroom da marca, na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 232.

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