Projeto preserva elementos originais do edifício, explora grandes vãos e instalações aparentes e transforma uma área subutilizada em novo espaço de convivência na Paulista
Antes de receber restaurantes, bares e centenas de visitantes por dia, o futuro Time Out Market São Paulo passa por um trabalho quase arqueológico dentro do Conjunto Nacional.
A implantação ocupa cerca de 3,2 mil m² de uma área que ficou subutilizada por anos. No lugar de apagar as marcas do edifício, o projeto parte justamente delas: concreto aparente, vigas, pilares, tijolos, grandes vãos e diferentes alturas de pé-direito entram como parte da linguagem arquitetônica do novo espaço.
Assinado pelo Levisky Arquitetos | Estratégia Urbana, o projeto tem à frente a arquiteta e urbanista Adriana Blay Levisky. A proposta é preservar o caráter do Conjunto Nacional e, ao mesmo tempo, adaptar o imóvel a uma operação de grande fluxo, combinando a estrutura mais bruta do prédio com madeira, iluminação mais quente, cortinas e mobiliário de linhas leves.
“Estamos criando várias formas de estar no espaço. Teremos grandes mesas coletivas, recantos mais intimistas, áreas mais festivas e corporativas”, afirma Adriana. A arquiteta explica ainda que o desenho prevê zonas mais contemplativas próximas às fachadas e à copa das árvores da Alameda Santos.
A leitura é de contraste, não de disfarce.
Uma obra tratada como arqueologia
Durante a reforma, camadas acrescentadas ao longo das décadas estão sendo retiradas para revelar novamente elementos da construção original.
A equipe envolvida no projeto compara o processo a uma espécie de arqueologia. Vigas são descascadas, tijolos voltam a aparecer e superfícies antes escondidas passam por recuperação.

A ideia é deixar parte dessas descobertas visível no resultado final, sem tentar transformar o edifício em uma reprodução de seu estado original. O novo e o antigo deverão permanecer reconhecíveis.

A linguagem brutalista aparece também nas perspectivas do projeto pronto. Dutos e instalações técnicas permanecem expostos sobre os ambientes, acompanhando as vigas de concreto e ajudando a criar uma estética mais próxima da estrutura real do prédio do que de um interior excessivamente acabado.
A arquitetura muda com o horário
Um dos pontos mais interessantes do projeto está na forma como o ambiente deve se transformar ao longo do dia.
Durante a manhã e a tarde, grandes superfícies envidraçadas aproveitam a entrada de luz natural e mantêm uma relação direta com o movimento externo. Mesas próximas às janelas ajudam a aproximar o interior da Avenida Paulista e da Alameda Santos.


À noite, a intenção é criar uma atmosfera mais intimista. Cortinas poderão alterar a relação com as fachadas, enquanto a iluminação diminui de intensidade e muda a percepção dos materiais.
Algumas áreas próximas às janelas deverão receber mesas especiais e experiências pontuais, reforçando a ideia de que o mesmo espaço possa funcionar de maneiras diferentes dependendo do horário.
Cozinhas entram no desenho
O Time Out Market terá 17 cozinhas, três bares, padaria e áreas destinadas a eventos. Uma particularidade da unidade paulistana será a disposição das cozinhas no centro do espaço, preservando o perímetro envidraçado e as vistas para a cidade. Segundo os responsáveis pelo projeto, essa configuração será inédita entre as unidades da rede.

As operações funcionam quase como fachadas internas, enquanto as mesas ocupam diferentes áreas entre pilares, janelas e circulações.
A decisão acompanha a própria proposta do mercado: evitar uma separação rígida entre comer, circular e permanecer.
O espaço de eventos segue a mesma lógica. Quando não estiver recebendo workshops, apresentações, conversas ou outras atividades, poderá funcionar como extensão das mesas do mercado, evitando que uma área relevante fique vazia durante parte do dia.
Do espaço desperdiçado ao “terceiro lugar”
A recuperação tem também uma dimensão de uso.
Parte da área já recebeu escritórios e outras operações e permaneceu por anos sem uma ocupação compatível com sua localização. O Time Out Market pretende transformar esse espaço antes pouco aproveitado em uma área de circulação e permanência.

A equipe trabalha com o conceito de “terceiro lugar”, expressão usada para definir ambientes que não são nem casa nem trabalho, mas fazem parte da rotina cotidiana.
A ambição é que alguém possa chegar para tomar café, permanecer para trabalhar, encontrar outra pessoa para almoçar, visitar uma exposição na região e retornar mais tarde.
Com capacidade prevista entre 750 e 800 lugares, o desenho precisa acomodar essa alternância de usos sem depender apenas dos horários tradicionais de almoço e jantar.
A Paulista continua para dentro
A conexão com o entorno não termina nas janelas.
Logo na entrada, o projeto prevê um hub que deverá funcionar como concierge e ponto de ligação com a programação cultural da Avenida Paulista. A ideia inclui possíveis parcerias com museus e instituições da região, informações sobre exposições, venda de ingressos e até saídas para walking tours.
Essa relação recupera uma das características mais importantes do próprio Conjunto Nacional: a intenção original de aproximar edifício e cidade, fazendo com que circulação, comércio e vida urbana se misturem.
No Time Out Market, a arquitetura segue a mesma lógica. Mais do que criar um novo interior dentro de um edifício histórico, o projeto de Adriana Blay Levisky tenta aproveitar aquilo que já existia, devolver uso a uma área esquecida e transformar as marcas do tempo em parte da experiência do lugar.
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