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A casa de 2026 troca o “clean” pela personalidade

Lorena Scavone Giron
26 de agosto de 2026
Materiais naturais, cores mais profundas, peças afetivas e mistura de épocas ganham força nos interiores

Depois de anos dominados por paredes claras, poucos móveis e paletas neutras, os interiores começam a recuperar uma coisa que havia sido deixada um pouco de lado: personalidade.

A mudança acompanha uma transformação na forma de viver a casa. Objetos trazidos de viagens, lembranças de família, peças garimpadas e materiais com textura passam a ocupar mais espaço nos projetos, enquanto ambientes excessivamente “clean” perdem força.

Para as arquitetas Danielle Dantas e Paula Passos e o arquiteto Eduardo Baldelomar, o movimento aponta para casas mais quentes, autorais e conectadas à memória de quem vive nelas.

A casa contemporânea abre espaço para cores, objetos afetivos e referências que revelam a personalidade de cada morador de forma singular | Projeto Eduardo Baldelomar | Foto: Divulgação

“Depois do período de reclusão que precisamos viver, passou-se a compreender que nossas moradas vão além de edificações com ambientes muito bem elaborados. Elas são refúgios espirituais que nos abraçam, recarregam a nossa energia e onde revisitamos nossas memórias”, afirma Baldelomar.

A base neutra não desapareceu

Isso não significa que bege, off-white e tons claros tenham saído completamente de cena. A diferença é que a neutralidade deixa de aparecer sozinha.

Terracota, argila, areia, marrom chocolate, caramelo, verde oliva, verde musgo, vinho e ameixa surgem em superfícies maiores ou em pequenos pontos de destaque. Cortinas mais encorpadas, tapetes grandes, livros, mantas, obras de arte e iluminação indireta ajudam a acrescentar novas camadas ao ambiente.

Os tons terrosos são os queridinhos na decoração e não é por acaso. Inspirados na natureza, eles trazem a dose certa de aconchego e tranquilidade que transforma qualquer espaço | Projeto Dantas & Passos Arquitetura | Foto: Maura Mello

“Estamos caminhando para casas mais vibrantes e autorais”, resumem Danielle e Paula.

Madeira, pedra e feito à mão

Materiais naturais continuam entre as escolhas mais fortes, mas aparecem em versões mais marcantes.

Nos projetos realizados pelas arquitetas Danielle Dantas e Paula Passos, a singularidade de cada espaço produzido pela dupla denota a intenção de refletir a identidade dos moradores, sem depender de uma única abordagem | Projeto Dantas & Passos Arquitetura | Foto: Eduardo Pozella

Madeiras como nogueira, carvalho escuro, ébano, freijó e pau-ferro ganham espaço por seus veios e tonalidades mais profundas. Em vez de dominar a casa inteira, costumam funcionar como pontos de contraste, combinadas a acabamentos mais claros.

No projeto assinado pelas arquitetas Danielle Dantas e Paula Passos, o buffet reúne o que a rotina tem de melhor: a adega, as xícaras, as taças, tudo com lugar certo e fácil acesso. A luz embutida no painel ripado realça o azul dos cristais que exaltam o charme genuíno dos materiais | Projeto Dantas & Passos Arquitetura | Foto: Henrique Ribeiro

Nas pedras, travertinos, quartzitos verdes e mármores em tons vermelhos ou vinho ajudam a substituir a preferência quase automática pelas superfícies muito claras.

“O feito à mão, a beleza da imperfeição e o artesanal terão uma presença importante dentro das casas”, afirma Baldelomar.

Menos catálogo, mais mistura

Outra mudança importante aparece na combinação de épocas e estilos.

Um sofá contemporâneo pode dividir espaço com uma mesa antiga; uma marcenaria de linhas retas pode receber uma cadeira clássica; uma obra moderna pode conviver com um objeto de antiquário ou uma lembrança de viagem.

Para o arquiteto Eduardo Baldelomar, uma casa com autenticidade não precisa escolher entre passado e presente, mas habilmente reunir os dois com a preservação de itens que fazem sentido nesse contexto, ao mesmo tempo que novos elementos chegam para se completar parte daquilo que somos | Foto: Carolina Mossin

A ideia é evitar ambientes que pareçam excessivamente calculados e, de quebra, reaproveitar móveis que já fazem parte da história da casa. Para Baldelomar, uma poltrona antiga, por exemplo, pode ganhar nova vida com troca de tecido ou reposicionamento dentro do projeto.

Neste ambiente, o arquiteto Eduardo Baldelomar transformou a arquitetura em instrumento de memória, identidade e valorização latino-americana, combinando objetos, tecidos, mobiliário e revestimentos | Projeto Eduardo Baldelomar | Foto: Carolina Mossin

Paredes também entram mais ativamente na composição, com pinturas minerais, massas texturizadas e papéis de parede. Até os espelhos ganham formas menos convencionais, com modelos orgânicos, côncavos, convexos, peças de grandes dimensões e versões retroiluminadas.

No fim, a tendência parece menos interessada em ditar um novo estilo único e mais em abandonar a ideia de que uma casa sofisticada precisa parecer saída de um mesmo catálogo. Em 2026, o luxo dos interiores passa cada vez mais pela sensação de que aquele espaço só poderia pertencer a quem mora ali.

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