Materiais naturais, cores mais profundas, peças afetivas e mistura de épocas ganham força nos interiores
Depois de anos dominados por paredes claras, poucos móveis e paletas neutras, os interiores começam a recuperar uma coisa que havia sido deixada um pouco de lado: personalidade.
A mudança acompanha uma transformação na forma de viver a casa. Objetos trazidos de viagens, lembranças de família, peças garimpadas e materiais com textura passam a ocupar mais espaço nos projetos, enquanto ambientes excessivamente “clean” perdem força.
Para as arquitetas Danielle Dantas e Paula Passos e o arquiteto Eduardo Baldelomar, o movimento aponta para casas mais quentes, autorais e conectadas à memória de quem vive nelas.

“Depois do período de reclusão que precisamos viver, passou-se a compreender que nossas moradas vão além de edificações com ambientes muito bem elaborados. Elas são refúgios espirituais que nos abraçam, recarregam a nossa energia e onde revisitamos nossas memórias”, afirma Baldelomar.
A base neutra não desapareceu
Isso não significa que bege, off-white e tons claros tenham saído completamente de cena. A diferença é que a neutralidade deixa de aparecer sozinha.
Terracota, argila, areia, marrom chocolate, caramelo, verde oliva, verde musgo, vinho e ameixa surgem em superfícies maiores ou em pequenos pontos de destaque. Cortinas mais encorpadas, tapetes grandes, livros, mantas, obras de arte e iluminação indireta ajudam a acrescentar novas camadas ao ambiente.

“Estamos caminhando para casas mais vibrantes e autorais”, resumem Danielle e Paula.
Madeira, pedra e feito à mão
Materiais naturais continuam entre as escolhas mais fortes, mas aparecem em versões mais marcantes.

Madeiras como nogueira, carvalho escuro, ébano, freijó e pau-ferro ganham espaço por seus veios e tonalidades mais profundas. Em vez de dominar a casa inteira, costumam funcionar como pontos de contraste, combinadas a acabamentos mais claros.

Nas pedras, travertinos, quartzitos verdes e mármores em tons vermelhos ou vinho ajudam a substituir a preferência quase automática pelas superfícies muito claras.
“O feito à mão, a beleza da imperfeição e o artesanal terão uma presença importante dentro das casas”, afirma Baldelomar.
Menos catálogo, mais mistura
Outra mudança importante aparece na combinação de épocas e estilos.
Um sofá contemporâneo pode dividir espaço com uma mesa antiga; uma marcenaria de linhas retas pode receber uma cadeira clássica; uma obra moderna pode conviver com um objeto de antiquário ou uma lembrança de viagem.

A ideia é evitar ambientes que pareçam excessivamente calculados e, de quebra, reaproveitar móveis que já fazem parte da história da casa. Para Baldelomar, uma poltrona antiga, por exemplo, pode ganhar nova vida com troca de tecido ou reposicionamento dentro do projeto.

Paredes também entram mais ativamente na composição, com pinturas minerais, massas texturizadas e papéis de parede. Até os espelhos ganham formas menos convencionais, com modelos orgânicos, côncavos, convexos, peças de grandes dimensões e versões retroiluminadas.
No fim, a tendência parece menos interessada em ditar um novo estilo único e mais em abandonar a ideia de que uma casa sofisticada precisa parecer saída de um mesmo catálogo. Em 2026, o luxo dos interiores passa cada vez mais pela sensação de que aquele espaço só poderia pertencer a quem mora ali.