Professor da Universidade de Pequim e diretor do Turenscape, um dos maiores escritórios paisagísticos do mundo, ele criou soluções para que as áreas urbanas absorvam grandes volumes de água, evitando mortes e prejuízos

Entre as quatro vítimas fatais da queda de um avião de pequeno porte no Pantanal está o arquiteto chinês Kongjian Yu. O acidente ocorreu em Aquidauana (MS), na noite desta terça-feira (23). Reconhecido globalmente por propor soluções inovadoras de planejamento urbano sustentável, ele desenvolveu e aprimorou em diferentes locais o conceito das cidades-esponja, adotado como política nacional na China em 2013. O objetivo principal é usar a infraestrutura verde para criar áreas alagáveis, transformando temporariamente parques em lagos e reservatórios durante e logo após grandes furacões e períodos prolongados ou intensos de chuva. Suas ideias incluem instalação de pavimentos permeáveis, de forma a depender menos dos sistemas de drenagem tradicionais.
O conceito surgiu na China como uma resposta às inundações que há milhares de anos atingem as planícies costeiras, onde se concentra a população – só a Grande Inundação de 1931 do Rio Amarelo matou até 4 milhões de pessoas e destruiu uma área maior que Portugal (100 mil km2). Aplicável em grandes cidades brasileiras, como São Paulo, onde ocorre a ocupação desordenada de áreas de várzea, adapta a paisagem reduzindo o uso de concreto para que o solo atue como uma esponja. Segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), a prática cria áreas de escoamento, evitando inundações nas estruturas urbanas.
Além do problema das enchentes, o método de construção criado pelo arquiteto também forma paisagens urbanas arborizadas com cursos d’água controlados, estabelecendo novos pontos de convivência e de turismo nas cidades em que é implementado.
Muito verde envolvido


“Gastamos bilhões de dólares canalizando rios, construindo represas, diques, tentando evitar que cidades e aldeias sejam inundadas”
Kongjian Yu, em 2024
Kongjian Yu estava no Brasil para participar da Conferência Internacional CAU 2025, ocorrido 4 e 6 de setembro, em Brasília, e da 14ª Bienal Internacional de Arquitetura, em São Paulo, entre os dias 18 e 19. Na CAU, declarou que seu trabalho foi inspirado em uma prática milenar, que lidava com ciclos anuais de cheias e secas naturais. Na ocasião, Yu declarou que no Brasil seria possível adaptar metrópoles como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre (afetada em 2024 pelas enchentes) ao modelo de construção sustentável. “Vejo o Brasil como a última esperança para salvar o planeta”.
Além do arquiteto, dois cineastas e o piloto da aeronave morreram no acidente. As vítimas foram identificadas como o também cineasta brasileiro Luiz Fernando Feres da Cunha Ferraz, o documentarista Rubens Crispim Jr. e o piloto Marcelo Pereira de Barros.
Carreira
Com mais de 20 livros publicados, Yu era um estratégico parceiro do Brasil sustentável e um dos maiores arquitetos do mundo em atividade. Em junho do ano passado, esteve na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio, para debater as experiências internacionais na reconstrução de cidades, especialmente em razão da catástrofe climática no Rio Grande do Sul, em 2024, que provocou prejuízos de R$ 89 bilhões, a perda 195 mil empregos e 213 mortes e desaparecimentos.
Com 62 anos, Kongjian Yu sai de cena atuando como professor da Universidade de Pequim e diretor do escritório de arquitetura paisagística Turenscape, um dos mais prestigiados do mundo, fundado em 1998. Ele era graduado pela Universidade Florestal de Pequim e doutor por Harvard, nos Estados Unidos. Ao longo da carreiras projetou obras em mais de 70 cidades que hoje são capazes de receber mais chuvas do que as que atingiram o RS.
Soluções urbanas pelo mundo



Em nota, o Ministério da Cultura lamentou a morte de Ferraz, frisando que o cineasta se destacou pela dedicação aos documentários e “pela busca constante de novas linguagens audiovisuais”. “Sua obra deixa uma contribuição inestimável à cultura e ao cinema brasileiro”.
O produtor-executivo da companhia, Thomas Miguez, informou à Agência Brasil que Ferraz e Crispim estavam gravando material para um documentário que planejavam fazer sobre o trabalho de Yu, e que se chamaria Planeta Esponja.
“A viagem do professor Yu ao Brasil foi a convite da 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, mas, como eles já estavam envolvidos na produção do filme, a visita ao Pantanal foi um pedido especial do professor, que não conhecia a região”, comentou Miguez, referindo-se a Yu como professor da Universidade de Pequim.
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