Tesla desistiu de fazer carros comuns, e quer deixar montadoras ocidentais sozinha na luta contra montadoras chinesas
O carro voador de Elon Musk foi mais um momento de choque promovido pelo trilionário para alavancar a Tesla, tanto na bolsa quanto na boca de sua leal base de clientes, muitas vezes indissociável da própria base dos seguidores de Musk. Acontece que esse movimento no mundo dos negócios tem um recado e um destinatário muito específico, escreve o colunista de mercado automobilístico do Wall Street Journal, Tim Higgins.
Musk mostrou que a Tesla vai deixar de fazer somente carros comerciais. E vai abdicar da disputa desse mercado para outras montadoras ocidentais disputarem com BYD, GWM e outras fabricantes chinesas. O banho de sangue na concorrência dos elétricos não vai invadir empresa que tornou Musk mundialmente famoso.
Ao lançar o Roadster 69 metros de altura no ar, Musk comprovou que a Tesla estaria também pronta para uma eventual fusão com a SpaceX, antes a empresa de indústria espacial do empresário, transformada na holding de negócios do trilionário. Depois de uma década de promessas inatingíveis, Musk mostrou que é o maior fã do “sonho americano” mais uma vez.
É improvável que o Tesla Roadster comece a ser produzido em 2028, com todos os dispositivos que Musk prometeu durante a apresentação na sede da montadora no Texas. Mas o lançamento não é o mais importante, nem mesmo sob a ótica dele. Musk aponta que o Roadster será “o último carro a ser lançado para condutores humanos” da fabricante. Ele quer, na verdade, expor a Tesla como uma companhia de robótica em primeiro lugar.
Concorrência com chineses
O trilionário indicou no passado que a concorrência com os chineses chegaria a um ponto insustentável. Disse que os chineses são tão formidáveis em produzir veículos elétricos que nem mesmo ele sabe como as montadoras ocidentais serão páreo.
As montadoras brasileiras que o digam. O mercado automotivo do Brasil, fechado como é, vive uma onda de marcas e EVs chineses. As marcas americanas e europeias que fabricavam carros no Brasil estão acelerando investimentos aqui porque sabem que hoje a BYD tem um CNPJ em Camaçari, na Bahia, com sua própria linha.
As fabricantes americanas vivem insuladas dos efeitos, por enquanto. Mas existe um movimento parecido com o da Tesla entre outras marcas. A Porsche, por exemplo, vai focar em carros mais caros em vez de aumentar o volume.
Musk fomentou o sonho do veículo elétrico ao Ocidente. Quem fez mais e espalhou os automóveis híbridos e 100% elétricos foi a China. Agora, Musk e outros executivos da indústria americana tentam fugir do jogo chinês. Musk não liga para o desempenho do Roadster em vendas, ele quer ser visto e entendido como o empresário que pode virar o jogo — e decidir o futuro.
