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Para Guedes, a melhor defesa é o ataque

Dizem por aí que a melhor defesa é o ataque. Foi o que fez ontem o ministro Paulo Guedes, em entrevista coletiva ao lado do presidente Jair Bolsonaro. Quando perguntado pelos repórteres como ele via as críticas à intenção de furar o teto dos gastos públicos para financiar o novo programa social do governo, o ministro voltou suas baterias para três economistas em particular: Mailson da Nóbrega, Affonso Celso Pastore e Henrique Meirelles (este último, diga-se de passagem, formado em engenharia civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo).

Sobre Mailson, Guedes disse que sua gestão (aquela do “feijão com arroz”) levou o país ao caos e à hiperinflação, o que tiraria o mérito de suas opiniões. De fato, foi sob a tutela dele que o Brasil atingiu a marca de 82 % de inflação mensal. Embora isso seja verdadeiro, não se pode acusar o ex-ministro de ter sido o único responsável pelo descontrole total de preços no Brasil. A hiperinflação teve suas raízes ainda ao final do governo militar e explodiu de vez durante o governo José Sarney, que teve quatro comandantes da economia: Francisco Dornelles, Dilson Funaro, Luiz Carlos Bresser Pereira e o próprio Mailson.

Quando se referiu a Pastore, disse que ele “era um bom amigo, com um passado razoável, mas que não tem um bom treinamento em equilíbrio geral”. Em seguida, afirmou que o ex-presidente do Banco Central “não está entendendo o que estamos fazendo” e que havia servido ao governo militar. “Governo Figueredo, que foi um caos, que tocou fogo no Brasil, porque fez uma política errada – ele não fez nada e está me criticando porque eu estou ajudando um presidente democraticamente eleito”, disse.

Até então, Bolsonaro estava sorrindo e balançando a cabeça em concordância. Mas, quando ouviu a associação entre o caos econômico e o governo de João Figueiredo, assumiu uma expressão entre a neutralidade e o desconforto. Guedes, então, arrematou: “Ele tinha de ficar quieto e ter uma velhice digna”.

Por fim, o ataque chegou a Meirelles. “Candidato. Trabalha para qualquer partido, qualquer momento, em qualquer hora”, disparou. Neste momento, o presidente voltou a sorrir e a balançar a cabeça. “Ele não fez a reforma da previdência, não fez a reforma tributária, não fez a reforma do ministério – não fez nada. Ele botou o teto [de gastos] e saiu correndo”, cutucou.

Pode-se argumentar que reformas e outras ações executivas de um governo não dependem apenas da vontade de um único ministro – tanto é que Guedes fala em privatizações desde que assumiu a pasta e, até agora, não vimos nenhuma estatal ser vendida.

Essas declarações de Guedes mostram que o ministro ainda guarda um ressentimento cultivado desde a época em que Mailson, Pastore e Meirelles (e outros indivíduos) mandavam na economia brasileira e ele era apenas um crítico voraz das políticas vigentes no ministério da Fazenda. Bateu forte na trinca. Mas deixou de dar maiores explicações sobre a situação que deixou o mercado financeiro apreensivo.

O fato, no entanto, é que os apupos não partem apenas destes três analistas econômicos (sendo que um deles, Meirelles, é secretário da Fazenda do governo de São Paulo). Se houvesse apenas três vozes se erguendo contra as decisões governistas, o dólar não estaria tão alto e as bolsas não teriam caído tanto na semana passada.

O ministro aproveitou a deixa para fazer um paralelo entre o programa social do governo com as ideias de Milton Friedman, um dos gurus do liberalismo. Na prática, Friedman acreditava em um mecanismo bem diferente do assistencialismo puro e simples – o imposto de renda negativo, um sistema segundo o qual aqueles que ganhassem abaixo de uma renda mínima estipulada pelas autoridades receberiam uma compensação financeira bancada pelos tributos suplementares de quem ganhasse mais.

Guedes parece firme em sua intenção de ir até o final a bordo do governo, mesmo que, para isso, tenha de fazer malabarismos verbais para mostrar coerência em suas atitudes. Nesta jornada, no entanto, precisará de engolir mais alguns sapos, pois o furo do teto neste caso específico parece ser o pretexto que o Centrão tanto queria para turbinar os gastos públicos e, de quebra, tentar pavimentar a reeleição de Bolsonaro.

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