Tarciana Medeiros e Paulo Henrique Pereira defenderam a revisão dos critérios bancários; debate também abordou compras públicas, desigualdade salarial e qualificação profissional
O acesso ao crédito continua sendo uma das principais barreiras ao crescimento das pequenas empresas brasileiras, apesar da criação de novas linhas de financiamento. A avaliação foi apresentada nesta terça-feira (4), durante o Summit Mulheres nas Profissões, em São Paulo, em um painel que reuniu representantes do governo federal, do Banco do Brasil e do setor empresarial.
Participaram da conversa a presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros; o ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, Paulo Henrique Pereira; o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho; e a ministra das Mulheres, Márcia Lopes. O debate foi conduzido pela empresária Luiza Helena Trajano.
O principal embate ocorreu em torno da distância entre a existência de recursos no sistema financeiro e a capacidade dos pequenos empresários de acessá-los. Ao questionar por que o dinheiro disponível nos bancos públicos não chega a quem está na ponta, Luiza apontou o modelo de avaliação de risco como um entrave.
“Tem dinheiro, mas o score de crédito não libera os recursos para as pessoas. Se não mexermos nisso, não vamos resolver o problema”, afirmou.
Paulo Henrique Pereira concordou que os critérios tradicionais estão distantes da realidade de quem administra um negócio de pequeno porte. Segundo o ministro, exigências como patrimônio, imóvel próprio e histórico financeiro consolidado acabam excluindo empreendedores que dependem justamente do crédito para estruturar ou expandir suas atividades.
“O score está no século passado. Quem está empreendendo muitas vezes não tem casa própria nem garantias tradicionais”, disse.
A presidente do Banco do Brasil afirmou que a instituição discute alternativas para adaptar a análise à realidade das pequenas e médias empresas. Tarciana defendeu a construção de um modelo nacional diferenciado, sobretudo para negócios liderados por mulheres.
“Já tivemos uma conversa sobre a revisão do score para pequenas e médias empresas, principalmente para aquelas comandadas por mulheres”, declarou.
Segundo a executiva, o banco mantém relacionamento com aproximadamente 1,3 milhão de empresas lideradas por mulheres e concedeu mais de R$ 110 bilhões a esse público nos últimos três anos. Os números foram apresentados como parte de um debate mais amplo sobre a necessidade de fazer o financiamento alcançar empreendedoras ainda excluídas pelos critérios bancários.
Entre as iniciativas citadas está o ProCred 360, direcionado a microempreendedores individuais e microempresas. Negócios liderados por mulheres podem acessar condições diferenciadas. Os participantes ponderaram, no entanto, que a criação de linhas específicas não elimina as dificuldades encontradas durante a análise de risco.
Governo quer aproximar pequenos negócios das compras públicas
Além do crédito, Pereira apresentou iniciativas destinadas a ampliar a participação de micro e pequenas empresas nas contratações realizadas pelo poder público.
A proposta é conectar órgãos governamentais a prestadores locais para serviços como pintura, manutenção, marcenaria e conserto de equipamentos. Assim, uma escola, um hospital ou uma agência pública poderia contratar um pequeno empresário da própria região, em vez de recorrer a fornecedores de outras cidades.
“Por que a escola vai contratar uma empresa de longe se pode contratar um empreendedor local?”, questionou o ministro.
Luiza Trajano afirmou que a contratação local pode reduzir custos e acelerar a prestação do serviço, além de manter os recursos circulando na própria comunidade.
Pereira também destacou que o governo trabalha para aumentar a participação de mulheres nessas oportunidades. Segundo ele, a inclusão de atividades mais frequentemente exercidas por empreendedoras depende da presença feminina nos espaços onde os programas são formulados.
Representatividade influencia políticas de crédito
A discussão sobre financiamento foi relacionada à presença de mulheres na liderança de empresas e instituições públicas. Tarciana Medeiros, primeira mulher a comandar o Banco do Brasil em mais de dois séculos de história da instituição, defendeu que a diversidade nos cargos de decisão altera a forma como produtos e políticas são construídos.
O banco estabeleceu a meta de alcançar 50% de mulheres nos cargos de alta liderança até 2030. Atualmente, segundo a executiva, elas representam 30% desse grupo.
Mais do que uma agenda interna, a presença feminina na gestão foi apresentada no painel como um fator capaz de influenciar decisões sobre crédito, contratação e apoio ao empreendedorismo.
A questão central, porém, permaneceu sem uma solução imediata: como ampliar o financiamento sem repetir critérios que excluem os pequenos empresários antes mesmo de seus negócios serem analisados.
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