Relatório do BTG Pactual mostra como o avanço das dívidas mais caras e o comprometimento da renda alteram o perfil de risco do sistema financeiro
A ampliação do acesso ao crédito no Brasil trouxe novas possibilidades de financiamento para consumidores, mas também tornou mais complexa a avaliação da capacidade de pagamento das famílias. Com a participação de bancos, fintechs, varejistas e marketplaces na oferta de empréstimos, o mercado se diversificou, enquanto o comprometimento da renda com dívidas atingiu níveis recordes, segundo relatório do BTG Pactual desta quarta-feira (28), com base em dados do Banco Central (BC).
O banco destaca que o comprometimento da renda com o serviço das dívidas individuais chegou a 38,5% em junho de 2026, ante 31,8% em dezembro de 2023. A pressão é maior entre os consumidores de menor renda: para quem recebe até dois salários mínimos, o indicador alcançou 42%, contra 34,1% no fim de 2023. Nesse grupo, cartões de crédito e empréstimos sem desconto em folha passaram a absorver 24,6% da renda, ante 17,1% no mesmo período.
O cenário evidencia uma questão para o mercado financeiro: a expansão da oferta de crédito não significa, necessariamente, um aumento proporcional da capacidade de pagamento dos tomadores. Segundo o BTG, o crescimento da renda foi acompanhado pela contratação de novas dívidas, inclusive por meio de modalidades mais caras. A composição das obrigações financeiras, portanto, torna-se tão relevante quanto o volume total de crédito concedido para avaliar a vulnerabilidade dos consumidores.
Essa dinâmica também ajuda a explicar a deterioração dos indicadores de qualidade das carteiras bancárias. A inadimplência do sistema financeiro chegou a 4,87% no segundo trimestre de 2026. Parte da alta decorre de mudanças contábeis introduzidas pela Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional, em vigor desde janeiro de 2025, que alterou os critérios para a baixa de operações sem expectativa razoável de recuperação.
Ainda assim, o BTG estima que, mesmo sob as regras anteriores, a taxa teria avançado de 3,11% em dezembro de 2024 para 4,09% em junho de 2026, sinalizando uma deterioração efetiva da capacidade de pagamento.
O banco também chama a atenção para o peso das dívidas que superam a renda mensal medida dos tomadores. Em junho de 2026, essas pessoas concentravam 16,9% da carteira de crédito às famílias, percentual inferior ao pico de 19,1% registrado em janeiro, mas ainda elevado.
Para o BTG, a combinação de condições financeiras mais apertadas e maior risco de desaceleração econômica em 2027 exige atenção à evolução do ciclo de crédito, com a inadimplência ainda sob pressão nos próximos trimestres.
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