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Sem estabilidade fiscal, não há crescimento sustentável nem investimento

Lucas Andrade
1 de abril de 2026
UBS recomenda: agenda do próximo governo precisará passar pela revisão das regras dos gastos obrigatórios e por reformas estruturais para recolocar a dívida em trajetória sustentável

Relatório da equipe de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management aponta os ajustes necessários para garantir a sustentabilidade das contas públicas. Segundo o banco, a combinação de déficits primários persistentes, crescimento econômico moderado e juros reais estruturalmente elevados levou a dívida pública a patamares críticos para os padrões de economias emergentes.

Nesse contexto, observa o UBS, a política monetária tende a operar sob maior pressão para compensar estímulos fiscais expansionistas ou incertezas quanto à trajetória da dívida. Como resultado, taxas de juros estruturalmente mais altas tornam-se necessárias para manter a inflação ancorada e preservar a credibilidade do regime monetário. Esse desalinhamento entre política fiscal e monetária gera um sacrifício macroeconômico relevante, ao elevar o custo de capital da economia e limitar o crescimento do investimento.

“Sem estabilidade fiscal, não há crescimento sustentável. Não há queda estrutural de juros. Não há investimento. Não há futuro. O diagnóstico é claro: o problema fiscal brasileiro não é conjuntural. É estrutural. E continua sem ser discutido na arena política”, avalia Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management.

A equipe do banco considera que mais relevante do que o nível atual da dívida pública brasileira é sua trajetória esperada para os próximos anos. Com a dívida bruta já próxima de 80% do PIB e o custo de financiamento em patamar elevado, as projeções indicam que, sem mudanças significativas na política fiscal, a relação dívida/PIB deve seguir em alta ao longo da próxima década.

Para estabilizar a dívida pública, seria necessária uma melhora substancial e sustentada do resultado fiscal. Considerando as condições atuais de juros e inflação, o Brasil precisaria alcançar superávits primários da ordem de 3% a 4% do PIB para evitar o aumento da dívida em relação ao PIB.

“A estratégia de consolidar via receita está esgotada. A carga tributária brasileira já supera 32% do PIB — acima da média da América Latina e comparável à de economias avançadas. Ajustes duradouros passam pelo lado do gasto. O que precisa ser feito é conhecido: reforma da previdência com novos ajustes paramétricos, revisão dos mecanismos de indexação ao salário mínimo, reforma administrativa, reorganização dos benefícios sociais e racionalização de gastos tributários”, detalha Solange Srour.

A reforma administrativa contribuiria para maior eficiência do gasto público. A revisão dos mecanismos de indexação pode reduzir a rigidez fiscal. A inspeção periódica de isenções, regimes especiais e deduções que limitam a arrecadação potencial do Estado ajudaria a corrigir distorções e melhorar a eficiência do sistema tributário. Além disso, reorganizar os benefícios sociais pode aprimorar a focalização e a eficiência do gasto.

O relatório conclui que o ciclo eleitoral de 2026 torna urgente o debate fiscal. A agenda do próximo governo precisará incluir a revisão das regras dos gastos obrigatórios e reformas estruturais para recolocar a dívida em trajetória sustentável.

“O Brasil tem os instrumentos. O que falta é a escolha política de usá-los”, completa Solange Srour.

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