Alta das recuperações judiciais e dificuldade de renegociação aumentam pressão por uma política de crédito rural de longo prazo
O aumento do endividamento e a maior seletividade dos bancos na concessão de crédito colocaram o financiamento do agronegócio entre os temas que devem ganhar espaço na agenda econômica do próximo governo.
Produtores e empresas do setor enfrentam um cenário marcado por juros elevados, oscilações nos preços das commodities, eventos climáticos e dificuldades para renegociar passivos. A combinação tem impacto direto sobre a capacidade de investimento e pode restringir recursos necessários para custeio e expansão da produção.
O avanço das recuperações judiciais ajuda a dimensionar o problema. Segundo dados da Serasa Experian citados no levantamento, foram registrados 474 pedidos relacionados ao agronegócio no primeiro trimestre de 2026, considerando produtores rurais, pessoas físicas e jurídicas e empresas ligadas à cadeia. O número representa alta de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025.
Para Bruno Medeiros Durão, advogado especialista em Direito Bancário e fundador da DAP Advocacia, ampliar a oferta de financiamento, isoladamente, não resolve o problema de produtores que já carregam dívidas.
“O problema do agro hoje não é apenas falta de crédito. É a dificuldade de transformar crédito em uma solução sustentável para quem já está endividado. O produtor precisa de previsibilidade, possibilidade real de reestruturação do passivo e segurança jurídica para continuar produzindo sem colocar todo o patrimônio em risco”, afirma.
O governo federal adotou neste ano mecanismos voltados à reorganização de parte dessas dívidas. Entre eles está a Medida Provisória 1.376/2026, que criou condições para composição de passivos de produtores enquadrados em determinados critérios, incluindo perdas decorrentes de eventos climáticos ou queda nos preços de comercialização.
O Conselho Monetário Nacional também autorizou operações de renegociação de determinadas dívidas rurais. Para Durão, no entanto, a efetividade das iniciativas depende tanto do acesso dos produtores quanto de condições compatíveis com sua capacidade futura de pagamento.
“Caso contrário, apenas se adia o problema e aumenta o risco de novas inadimplências e processos judiciais”, diz.
A situação também afeta as instituições financeiras. À medida que cresce o risco de inadimplência, bancos tendem a adotar critérios mais rígidos na concessão de recursos, o que pode dificultar o financiamento inclusive de produtores economicamente viáveis.
Na avaliação do advogado, uma política de longo prazo para o setor deveria combinar crédito, seguro rural, gestão de risco e mecanismos permanentes de renegociação, em vez de concentrar as medidas apenas em períodos de crise.
“O Brasil precisa sair da lógica de socorrer o produtor somente quando a dívida já se tornou impagável”, afirma.
O tema se soma a outras demandas apresentadas pelo agronegócio no debate econômico de 2026, como infraestrutura, seguro rural, competitividade e acesso a financiamento. Para o setor, o desafio será criar mecanismos capazes de atravessar ciclos adversos sem transformar problemas temporários de caixa em insolvência.
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