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Autonomia financeira feminina segue bloqueada por barreiras estruturais

Lorena Scavone Giron
2 de junho de 2026
Estudo da Think Olga e Think Eva mostra que mulheres trabalham mais, ganham menos e envelhecem mais pobres

Apesar dos avanços legais conquistados nas últimas décadas, a autonomia financeira das mulheres brasileiras continua limitada por barreiras estruturais que atravessam trabalho, renda, patrimônio e acesso ao mercado financeiro. Essa é uma das principais conclusões do estudo “Elas Pagam a Conta – Mulheres, dinheiro e a conta que não fecha”, desenvolvido pelas organizações Think Olga e Think Eva.

O levantamento aponta que a desigualdade econômica feminina não se resume à falta de educação financeira. Ela é resultado de um processo histórico de exclusão das mulheres das decisões sobre dinheiro, carreira, crédito e construção de patrimônio.

A conta começa no salário

A diferença de renda entre homens e mulheres permanece como um dos principais obstáculos à autonomia financeira. Segundo o estudo, mulheres recebem, em média, 21% menos do que homens na mesma função.

A desigualdade também aparece no topo da pirâmide de renda. Entre os brasileiros que recebem mais de 20 salários mínimos, as mulheres são minoria: representam 31%, contra 69% de homens.

Pobreza tem gênero e cor

O levantamento mostra que a vulnerabilidade econômica é ainda maior entre mulheres negras. Mulheres pretas e pardas estão entre os grupos mais pobres da população brasileira.

Segundo os dados citados no estudo, 30,4% das mulheres pretas e pardas vivem em situação de pobreza e 4,5% em extrema pobreza. Entre homens brancos, os percentuais são menores: 14,7% vivem na pobreza e 2,2% na extrema pobreza.

O peso invisível do cuidado

Um dos pontos centrais da pesquisa é o impacto do trabalho de cuidado não remunerado. Atividades como cuidar da casa, dos filhos, de idosos e familiares ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres.

O estudo aponta que 76% das horas de cuidado não pago são realizadas por mulheres, o que reduz o tempo disponível para empregos remunerados, qualificação profissional e construção de patrimônio.

Esse peso aparece diretamente no mercado de trabalho. Apenas 49,1% das mulheres estão ativas na força de trabalho, contra 68,8% dos homens.

Maternidade e informalidade

A sobrecarga é ainda mais intensa entre mães solo. De acordo com a pesquisa, 81% das mulheres que criam filhos sozinhas já precisaram recorrer ao trabalho informal para complementar a renda.

Entre as divorciadas, 95% relatam dificuldades financeiras relacionadas aos cuidados familiares e domésticos. Entre mães solo, o percentual é de 92%.

Violência também é barreira econômica

A pesquisa também conecta violência doméstica e dependência financeira. Mulheres vítimas de violência doméstica faltam, em média, 18 dias por ano ao trabalho, segundo levantamento citado no estudo.

Em 2025, cerca de 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência, de acordo com dados do Senado Federal mencionados no relatório. Para as autoras, esse cenário mostra que a violência doméstica não deve ser tratada apenas como uma questão privada, mas também como uma barreira à emancipação econômica feminina.

Mercado financeiro ainda fala para homens

Mesmo quando conseguem poupar ou investir, as mulheres encontram um mercado financeiro pouco acessível. Segundo o estudo, elas representam 35,4% dos profissionais do setor financeiro e apenas 5,4% dos CEOs.

A pesquisa também aponta que muitas mulheres ainda recorrem mais à internet, livros e redes sociais para aprender sobre investimentos do que a assessores financeiros ou gerentes de banco. O motivo, segundo especialistas ouvidas no levantamento, passa pela linguagem técnica, pela falta de transparência e por um atendimento historicamente pensado para homens.

Autonomia vai além de ganhar dinheiro

Para a Think Olga e a Think Eva, autonomia financeira não significa apenas ter renda própria. Envolve acesso a crédito, patrimônio, segurança, informação, liberdade de escolha e capacidade de tomar decisões sobre o próprio dinheiro.

O estudo lembra que, até poucas décadas atrás, mulheres dependiam legalmente dos maridos para trabalhar, assinar contratos, administrar bens ou acessar crédito. A revogação dessas normas foi essencial, mas não eliminou automaticamente as expectativas culturais que ainda associam mulheres ao cuidado e homens à provisão financeira.

O desafio das empresas e das políticas públicas

A pesquisa defende que a redução da desigualdade econômica feminina exige ações combinadas de empresas, mercado financeiro e poder público. Entre os caminhos apontados estão políticas de equidade salarial, ampliação de redes de cuidado, combate à violência patrimonial, educação financeira com linguagem acessível e maior presença feminina em cargos de decisão.

A conclusão do levantamento é direta: dinheiro também é coisa de mulher. Mas, para que ele chegue de fato ao bolso delas, será preciso mexer nas estruturas que ainda fazem com que mulheres trabalhem mais, ganhem menos e acumulem menos patrimônio ao longo da vida.

Principais números da pesquisa
  • 21% de diferença salarial entre homens e mulheres na mesma função;  
  • 1 em cada 4 mulheres vivia com menos de US$ 6 por dia no Brasil;  
  • 76% das horas de cuidado não remunerado são realizadas por mulheres;  
  • 61% das mulheres fora do mercado apontam responsabilidades familiares como principal motivo;  
  • 49,1% das mulheres participam da força de trabalho, contra 68,8% dos homens;  
  • Mulheres ocupam apenas 5,4% dos cargos de CEO no mercado financeiro;  
  • Mulheres vivem, em média, seis anos mais que os homens, tornando a vulnerabilidade financeira na velhice um desafio crescente.  

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