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El Niño pode afetar varejo por inflação, clima e doenças, aponta XP

Lorena Scavone Giron
18 de junho de 2026
Relatório da casa vê impactos em supermercados, moda e farmácias a partir do segundo semestre, com efeitos mais fortes em 2027

A volta do El Niño ao radar climático também entrou nas contas do mercado financeiro. Depois das preocupações com os impactos do fenômeno sobre o agronegócio, a XP Investimentos passou a avaliar como a combinação de inflação de alimentos, mudanças no clima e aumento de doenças pode afetar diferentes segmentos do varejo brasileiro.

Segundo relatório da casa, os efeitos devem começar a aparecer nos resultados das empresas a partir do segundo semestre deste ano, com maior intensidade ao longo de 2027. A análise considera três canais principais de transmissão: a alta dos preços dos alimentos, a mudança no comportamento de consumo provocada pelo clima e o possível avanço de doenças arbovirais, como dengue.

As projeções ganharam força após a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, indicar probabilidade de cerca de 63% de ocorrência de um evento climático de forte intensidade entre novembro e janeiro.

No Brasil, o El Niño costuma provocar alterações regionais importantes. A expectativa é de seca mais severa no Norte e no Nordeste, especialmente em áreas da Amazônia e do norte nordestino. Já no Sul e no Sudeste, o fenômeno pode trazer temperaturas mais amenas em alguns períodos, mas também ondas de calor. No Sul, há ainda risco de chuvas acima da média, com potencial para eventos severos.

Para os analistas da XP, esse cenário pode atingir o varejo de formas distintas.

O primeiro impacto tende a vir dos alimentos. Quebras de safra e dificuldades logísticas podem reduzir a oferta de produtos e pressionar custos de produção, transporte e distribuição. Itens como hortifrúti, carnes, derivados de leite e produtos de panificação aparecem entre os mais sensíveis.

Com alimentos mais caros, o consumidor perde poder de compra e passa a concentrar parte maior da renda em despesas essenciais. Esse movimento pode limitar o consumo de outros produtos e retardar uma recuperação mais robusta do crédito, especialmente em um contexto de endividamento ainda elevado das famílias.

Nos supermercados e atacarejos, a inflação pode até impulsionar as vendas nominais, mas isso não significa necessariamente ganho real. A XP avalia que parte do avanço de receita pode ser neutralizada pela redução dos volumes vendidos e pela migração dos consumidores para marcas mais baratas. Ainda assim, o Assaí aparece no relatório como uma das empresas mais bem posicionadas para atravessar esse ambiente, pela exposição ao atacarejo e pela capacidade de repasse de preços.

No varejo de moda, o efeito pode ser diferente. Temperaturas mais altas e um inverno mais curto tendem a reduzir a dependência de peças pesadas e diminuir a necessidade de promoções agressivas para escoar estoques. Isso pode favorecer a entrada de coleções de meia-estação e primavera com margens melhores.

Nesse segmento, a XP destaca a Lojas Renner como uma das companhias com maior potencial de captura desse movimento no segundo semestre. Para os analistas, caso o cenário climático se confirme, as vendas nas mesmas lojas podem ganhar tração em todo o setor, ajudadas também por uma base de comparação mais fraca.

O terceiro canal de impacto envolve as farmácias. A combinação de calor e umidade pode favorecer a proliferação de mosquitos transmissores de doenças como dengue e outras febres. Embora esse efeito costume aparecer com algum atraso em relação às mudanças climáticas, a XP avalia que redes de drogarias podem registrar aumento na demanda por vacinas, testes rápidos, repelentes e produtos ligados à prevenção e ao cuidado com sintomas.

Nesse caso, empresas com forte presença no Sudeste e no Sul, como RD Saúde e Panvel, aparecem como as mais expostas ao possível aumento da demanda. Além do maior fluxo nas lojas, categorias de maior valor agregado, como higiene, perfumaria, cosméticos e serviços farmacêuticos, também podem ganhar relevância.

A análise mostra que o El Niño tende a produzir um efeito desigual no varejo. Para alguns segmentos, o fenômeno representa pressão sobre custos e renda disponível. Para outros, pode abrir espaço para ganho de vendas em categorias específicas. No fim, o clima entra mais uma vez no centro das decisões de consumo, investimento e estratégia empresarial.

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