Em conversa com André Esteves no Macro Day, economista e principal consultor econômico da Allianz destacou resiliência da atividade e dos mercados, mas apontou tensões em juros, geopolítica e oferta global de capital
O economista Mohamed El-Erian afirmou nesta segunda-feira (31), durante o Macro Day do BTG Pactual, que a economia mundial apresenta uma combinação pouco usual: apesar da resiliência do crescimento, da inflação relativamente contida e do avanço dos mercados, há tensões importantes se acumulando abaixo da superfície. Em conversa conduzida pelo chairman do BTG Pactual, André Esteves, El-Erian definiu o cenário como uma espécie de “equilíbrio instável”, em que choques sucessivos ainda não provocaram uma ruptura, mas aumentaram os riscos para os próximos anos.
Segundo El-Erian, a leitura muda conforme a profundidade da análise. Na superfície, a economia global absorveu sucessivos choques sem uma grande crise financeira, enquanto os lucros corporativos continuaram avançando e os mercados passaram a incorporar a perspectiva de ganhos de produtividade com a inteligência artificial. Abaixo dessa camada, porém, aparecem uma demanda crescente por capital, menor disponibilidade de recursos, juros mais altos, tensões entre as principais economias e valuations elevados em determinados ativos. “Este é um mundo que não é tão estável quanto parece”, resumiu.
Uma parte importante da conversa foi dedicada ao Federal Reserve. El-Erian elogiou o movimento do presidente da instituição, Kevin Warsh, de buscar um BC americano mais voltado para o futuro e menos dependente de sinalizações prévias ao mercado.
Esteves acompanhou a avaliação e afirmou que, nos últimos anos, o Fed passou a dar orientações excessivas aos investidores, prejudicando o próprio mecanismo de preços que deveria servir de informação para a política monetária. Ambos destacaram positivamente ainda a abordagem de Warsh sobre a inteligência artificial como um possível novo fator de produção, capaz de alterar produtividade e a condução da política econômica. A definição também esteve no discurso de Warsh em Jackson Hole.
Esteves também levou a discussão para a expansão da dívida pública americana, que recentemente ultrapassou US$ 40 trilhões. El-Erian chamou atenção para uma combinação de maior necessidade de financiamento com uma base de compradores de títulos americanos que já não se comporta da mesma maneira do passado. China, países do Golfo e Japão, por diferentes razões, podem exercer menos força como compradores marginais de Treasuries, enquanto o governo dos Estados Unidos segue operando com déficits elevados. O resultado, segundo ele, é uma pressão estrutural sobre os juros mais longos.
Nesse contexto, El-Erian também apontou uma diversificação gradual dos investimentos para fora dos Estados Unidos. Para ele, não existe uma economia capaz de substituir o país no centro do sistema financeiro internacional, mas já é possível observar recursos buscando outros mercados, ouro e diferentes moedas. Esteves observou que esse movimento pode criar oportunidades para economias emergentes, incluindo o Brasil.
Gostou do conteúdo? Inscreva-se e receba a newsletter de MONEY REPORT
