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Bolhas, manias, colapsos e o pai do keynesianismo moderno

Bolhas, manias, colapsos e o pai do keynesianismo moderno

Como John Law e a bolha do Mississippi fundaram o financismo atual

Quase todos os entusiastas de economia, e da história da economia, conhecem as grandes bolhas especulativas da história. Houve a bolha da Companhia dos Mares do Sul (a South Sea bubble), houve a bolha das tulipas e, mais recentemente, a bolha das empresas pontocom e a bolha imobiliária.

Em 1841, o poeta, jornalista e escritor britânico Charles Mackay publicou o livro Ilusões Populares e a Loucura das Massas (Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds). Dentre os exemplos de especulação financeira descritos em detalhes no livro está, além da Companhia dos Mares do Sul e da mania das tulipa, a bolha do Mississippi.

A bolha do Mississippi certamente é, de longe, a mais valiosa para os propósitos de nossa elucidação. Foi esta bolha que praticamente moldou as finanças do mundo moderno, e que estabeleceu o arcabouço teórico para várias teorias econômicas subsequentes, dentre elas o keynesianismo e a própria Teoria Monetária Moderna.

O grande artífice desta bolha foi um cavalheiro chamado John Law.

Law e o seu próprio Banco Central

Filho de um banqueiro e ourives escocês, John Law era um garoto brilhante, com aptidões matemáticas surpreendentes. 

Em suas viagens ao continente europeu, passava as manhãs estudando finanças e os princípios do comércio; ao anoitecer, ia para as casas de jogos. Tornou-se um apostador extremamente bem-sucedido, por causa de sua habilidade matemática de calcular probabilidades.

Além de jogador, era também um inveterado mulherengo. Consequentemente, perdeu quase que toda a fortuna da família em suas aventuras.

Certo dia, envolveu-se em uma briga por causa de uma mulher e seu oponente o desafiou para um duelo. Matou seu rival com um tiro, foi preso, julgado e condenado à morte. 

Malandro e esperto que era, Law conseguiu escapar da prisão e fugiu para a França.

À época, Luís XIV era o rei de uma França que vinha se endividando profundamente por causa de suas guerras e do estilo esbanjador da monarquia. John Law, que agora viva na França, havia se tornado companheiro de jogo do duque de Órleans. E foi nessa época que ele publicou um trabalho que exaltava os benefícios de uma moeda de papel desatrelada do ouro e emitida por um Banco Central monopolista.

Quando Luís XIV morreu, seu sucessor, Luís XV, tinha apenas 11 anos de idade. O duque de Órleans foi nomeado regente (rei temporário) e descobriu, tremendamente espantado, que a França estava profundamente endividada e que os impostos recolhidos sequer cobriam os juros da dívida. 

Law, farejando oportunidade, foi à corte real e apresentou ao seu amigo duas monografias que atribuíam os problemas da França a uma insuficiência de moedas e que detalhavam todas as supostas virtudes de uma moeda de papel emitida pelo governo. Até então, não existiam moedas de papel na França. Todos os pagamentos eram feitos em moedas de ouro e prata. 

Law então pediu ao regente a permissão para criar um banco que gerenciaria as receitas da Corte e que faria a emissão da moeda de papel. E conseguiu.

No dia 15 de maio de 1716, John Law tornou-se o dono de um banco (Banque Générale) e ganhou o direito de emitir moeda de papel. O governo decretou que os impostos poderiam ser pagos com esse nova moeda de papel e, assim, o público foi persuadido a abandonar o ouro e a prata (que agora ficariam no Banco) e a adotar a moeda de papel. 

Começava então, efetivamente, o primeiro grande experimento europeu com as moedas fiduciárias. 

O aumento da oferta de moeda trouxe uma nova vitalidade à economia francesa, e John Law passou a ser aclamado um gênio financeiro. Como recompensa, o duque de Órleans concedeu a Law os direitos de exploração de todo o comércio do território francês da Louisiana, na América. O território da Louisiana era uma área enorme que compreendia cerca de 30% do que hoje são os Estados Unidos, indo desde o Canadá até a foz do Mississippi, no Golfo do México. 

Naquela época, acreditava-se que a Louisiana era rica em ouro, e a nova empresa criada por John Law para fazer essa exploração, a Companhia do Mississippi, com os direitos exclusivos de comércio no território, rapidamente se tornou a mais rica empresa da França. Law não perdeu tempo e, aproveitando sua popularidade, soube capitalizar a confiança do público nas perspectivas de sua empresa e emitiu 200 mil ações. 

Logo após a emissão, o preço de cada ação explodiu, subindo mais de 30 vezes em um período de poucos meses. Apenas imagine isso: em poucos anos, Law passou de jogador viciado e assassino pobre para uma das figuras financeiras mais poderosas da Europa. 

E, de novo, foi recompensado. Desta vez, o duque concedeu a ele e às suas empresas o monopólio da venda de tabaco, o direito exclusivo de refinar e cunhar prata e ouro, e ainda transformou o banco de Law no Banque Royale (o precursor do Banco Central da França). 

Ou seja, Law estava agora no controle do Banco Central da França. 

A prosperidade de papel

Agora que seu banco era o Banco Central da França, isso significava que o governo era o garantidor de todo o papel-moeda emitido, da mesma forma como faz o governo hoje com o Banco Central. E, dado que tudo estava correndo tão bem, o duque pediu a Law que imprimisse ainda mais moeda; e Law, concordando que não havia mal algum em ter mais coisas boas, obedeceu. 

O governo, embevecido pela mágica de poder gastar sem ter de elevar tributos, passou a gastar excessiva e descuidadamente ao mesmo tempo em que agradava Law com mais presentes, mais honrarias e títulos. 

Sim, as coisas estavam indo muito bem. Tão bem que o duque pensou que, se esse tanto de moeda corrente trazia tanta prosperidade, então duas vezes tal quantidade seria ainda muito melhor. Dois anos antes, o governo nem sequer conseguia pagar os juros de suas dívidas; agora, não apenas havia liquidado suas dívidas, como também podia gastar tanto quanto quisesse. Tudo o que precisava fazer era imprimir mais papel-moeda. 

Como recompensa pelos serviços de Law à França, o duque aprovou um decreto concedendo à Companhia do Mississippi os direitos exclusivos de comercializar com as Índias Orientais, a China e os Mares do Sul. Ao saber disso, Law emitiu mais 50 mil novas ações da Companhia do Mississippi. Quando fez essa nova oferta de ações, mais de 300 mil pedidos foram feitos para as novas ações. Entre os demandantes havia duques, marqueses, condes e duquesas, todos querendo sua parcela de ações. A solução de Law para o problema foi emitir 300 mil novas ações em vez das 50 mil que havia planejado originalmente, um aumento de 500% do total de ações. 

Paris era uma festa e estava progredindo rapidamente devido à súbita especulação com ações e ao aumento da oferta de moeda. Todas as lojas estavam lotadas, havia uma abundância de novos produtos de luxos e as ruas fervilhavam de pessoas. Como afirmou Charles Mackay em seu livro Ilusões Populares e a Loucura das Massas, “novas casas estavam sendo construídas em todas as ruas e avenidas, e uma prosperidade ilusória lançava um brilho sobre a terra, encantando os olhos de toda a nação; dessa forma, ninguém podia enxergar a nuvem negra que anunciava, no horizonte, a tempestade que estava se aproximando velozmente”. 

O estouro da bolha

Os problemas começaram a aparecer rapidamente. Devido à inflação da oferta de moeda, os preços começaram a disparar. Os preços dos imóveis e dos aluguéis, por exemplo, aumentaram 20 vezes. 

Law começou a sentir os efeitos da inflação galopante que ajudara a criar.  Ao fazer uma nova emissão de ações para a sua Companhia di Mississippi, Law ofendeu o Príncipe de Conti ao se recusar a emitir as ações com o preço que o nobre queria. Furioso, o príncipe mandou três carruagens ao banco de Law para restituir em em ouro e prata todo o papel-moeda e todas as ações da Companhia do Mississippi. Foi pago com três carruagens lotadas de moedas de ouro e prata. 

O duque de Órleans, no entanto, ficou enfurecido com essa atitude e determinou que o príncipe devolvesse as moedas metálicas ao banco. Temendo que nunca mais pudesse pisar de novo em Paris, o príncipe devolveu duas das três carruagens. 

Isso serviu de alerta para o público. Os investidores mais espertos (o “smart money”) foram aos bancos e começaram a converter as cédulas de papel em moedas de ouro e prata. Outros passaram a comprar qualquer coisa transportável que tivesse valor: jóias, talheres de prata, pedras preciosas e quaisquer tipos de moedas metálicas eram compradas e enviadas para o exterior. Ou então eram entesouradas. 

Para estancar o sangramento, em fevereiro de 1720, os bancos aboliram a restituição das cédulas de papel em ouro e prata, e o governo declarou ser ilegal utilizar ouro e prata como meio de pagamento. A compra de joias, pedras preciosas e talheres de prata também foi banida. O governo também instituiu recompensas de até 50% para qualquer ouro ou prata confiscados de pessoas que fossem encontradas em posse dessas mercadorias (pagáveis em papel-moeda, evidentemente). As fronteiras foram fechadas e as carruagens, vasculhadas. As prisões se encheram e cabeças rolaram, literalmente. 

Finalmente, a crise financeira atingiu um estágio crítico. Em 27 de maio, os bancos foram fechados e Law foi dispensado do cargo de ministro. A moeda de papel foi desvalorizada em 50% e, no dia 10 de junho, os bancos foram reabertos e voltaram a restituir as cédulas de papel por ouro e prata a esse novo valor. Quando o ouro acabou, as pessoas passaram a ser pagas em prata. Quando a prata acabou, foram pagas em cobre. Como se pode imaginar, o frenesi para converter a moeda de papel em moedas metálicas foi tão intenso que quase gerou badernas e inquietações sociais.

No fim, ouro e prata desfecharam um nocaute na moeda de papel. 

Já então, John Law era o homem mais odiado da França. Em questões de meses, deixou de ser a força mais poderosa e influente da sociedade francesa e voltou a ser a nulidade de antes. Law fugiu para Veneza, retornando à vida de jogatina e se lamentando: “No ano passado, eu era o sujeito mais rico que já existiu. Hoje, não tenho nada, nem mesmo o suficiente para me manter vivo.” 

Morreu arruinado, em Veneza, em 1729. 

O colapso da Companhia do Mississippi e o sistema de moeda de papel criado por Law afundaram a França, e quase toda a Europa, em uma horrível depressão econômica, que durou por muitas décadas. No entanto, o mais impressionante é que tudo isso aconteceu no período de apenas quatro anos.

Para concluir

Duzentos anos depois, algumas similaridades de Law com a personalidade de Keynes são impressionantes. Keynes primeiro foi matemático, depois virou economista. A abordagem de ambos também era similar: eles viam um problema econômico e já tentavam inventar uma solução, em vez de ver o problema e tentar antes entender por que ele ocorre, para só então pensar em uma solução. 

Tanto Law quanto Keynes acreditavam que uma moeda sólida e estável eram excessivamente restritivas para uma economia.

Consequentemente, quase tudo o que Law propôs e impôs à França é similar ao arranjo keynesiano do mundo atual. A Teoria Monetária Moderna nada mais é do que a tese de John Law levada ao pé da letra.

A diferença, talvez, é que na França ela foi aplicada em condições quase que de laboratório, ao passo que no mundo atual há ao menos alguma resistência intelectual.

Não foi à toa que o esquema de Law colapsou em apenas quatro anos. Hoje, ainda temos alguma chance.

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Por Michael Maloney

Publicado originalmente em: https://www.mises.org.br/article/3291/bolhas-manias-colapsos-e-o-pai-do-keynesianismo-moderno

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