Medidas tornam mais difícil o esforço da autoridade monetária para cortar juros
Reportagem da Bloomberg destaca que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem acelerado a implementação de medidas de estímulo econômico em ritmo tão intenso que o Banco Central encontra dificuldades para manter sua estratégia de controle da inflação. O pacote de incentivos já equivale a cerca de 1,5% do PIB, incluindo cortes de impostos, subsídios a combustíveis e energia, além de programas de crédito para famílias e trabalhadores.
O resultado é uma economia que cresce em velocidade surpreendente, mesmo diante de juros reais entre os mais altos do mundo. Estimativas da Bloomberg Economics apontam expansão anualizada próxima de 4%, com o PIB avançando 1% no primeiro trimestre e 0,9% no segundo. Para analistas, esse desempenho é “impressionante” diante do aperto monetário mais severo das últimas duas décadas.
A estratégia, no entanto, gera tensão. Enquanto o governo “pisa no acelerador”, como descreveu o ex-presidente do BC Gustavo Loyola, a autoridade monetária tenta conter pressões inflacionárias e enfrenta dificuldades para reduzir a taxa básica, hoje em 14,5% ao ano. A inflação segue acima da meta e as expectativas continuam em alta, agravadas pelo cenário internacional de preços elevados de petróleo.
Economistas alertam para uma “dinâmica perversa”: juros altos aumentam o endividamento das empresas e famílias, o que tende a exigir ainda mais estímulos fiscais. Para Lula, porém, o foco é manter o consumo e conquistar apoio popular em ano eleitoral, mesmo que isso pressione a dívida pública e dificulte o trabalho do Banco Central.
Dívida do Brasil continuará a crescer
O estímulo já soma quase R$ 200 bilhões, equivalente a 1,5% do PIB, e deve deixar uma ressaca fiscal duradoura. O déficit nominal do Brasil alcançou 9,4% do PIB em março, o maior desde a pandemia, e a dívida bruta subiu para 80,1% do PIB. Segundo o Santander, os novos gastos acrescentarão dois pontos percentuais à dívida de longo prazo, que continuará a crescer até o fim da década.
O governo argumenta que a política fiscal é neutra e que os programas são direcionados para setores específicos, prometendo entregar superávit primário em 2026. Há planos de usar receitas extraordinárias do petróleo para financiar cortes temporários de impostos e reduzir gastos obrigatórios a partir de 2027. Ainda assim, investidores seguem atentos, já que mesmo medidas pequenas podem se acumular e ampliar o risco fiscal.
