O comércio internacional, os fluxos de capital e as decisões de investimento passaram a incorporar variáveis que, há poucos anos, tinham peso secundário: segurança das cadeias de suprimento, acesso à energia, domínio tecnológico, minerais críticos, proximidade geográfica e alinhamento político. O resultado não é um mundo menos integrado, mas uma economia global mais seletiva, com novas rotas comerciais e maior competição por ativos estratégicos.
Para o Brasil, essa transformação abre uma janela relevante. Mas vantagens naturais não se convertem automaticamente em crescimento, industrialização ou maior relevância internacional. Elas precisam ser transformadas em capacidade produtiva, infraestrutura, tecnologia, previsibilidade regulatória e projetos empresariais bem estruturados. Há a necessidade de visão de longo prazo.
Os números recentes ajudam a ilustrar essa mudança. Entre janeiro e julho de 2026, as exportações brasileiras cresceram 10% em valor, alcançando US$ 218 bilhões. Ao mesmo tempo, as vendas para os Estados Unidos recuaram, enquanto a Ásia (e particularmente a China) ampliou sua participação no comércio exterior brasileiro (e Latino-Americano). O dado é importante não apenas pelo efeito conjuntural das barreiras comerciais, mas pela mensagem estratégica que transmite: diversificar mercados é necessário; preservar e aprofundar relações econômicas relevantes é igualmente indispensável.
A relação com os Estados Unidos continua central para o Brasil. Trata-se de uma economia que combina capital, tecnologia, consumo, inovação e presença empresarial global. O comércio bilateral de bens superou US$ 61 bilhões nos primeiros oito meses de 2026. Mais do que discutir tarifas ou disputas pontuais, o desafio é construir uma agenda capaz de ampliar investimentos produtivos, parcerias tecnológicas, joint ventures e integração de cadeias de valor.
O Brasil não deve enxergar essa relação a partir de uma lógica de dependência ou antagonismo. Deve tratá-la como uma oportunidade de complementariedade. Os Estados Unidos buscam maior resiliência em suas cadeias industriais, fontes confiáveis de insumos estratégicos e alternativas de produção fora de regiões de risco geopolítico. O Brasil dispõe de escala agrícola, matriz energética competitiva, base industrial diversificada, recursos minerais e um mercado consumidor relevante.
Essa agenda se torna particularmente evidente no setor de minerais críticos. O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, o segundo maior volume do mundo. A relevância desses recursos vai muito além da mineração tradicional: eles são essenciais para veículos elétricos, equipamentos de defesa, geração renovável, eletrônica avançada, telecomunicações e infraestrutura de inteligência artificial.
No entanto, possuir a reserva não é suficiente. O valor econômico mais relevante não está apenas na extração, mas no beneficiamento, na transformação industrial, na propriedade intelectual e na inserção em cadeias globais de maior valor agregado. A Política Nacional de Minerais Críticos aponta na direção correta ao reconhecer que o país precisa avançar da condição de fornecedor de matéria-prima para a de parceiro industrial e tecnológico.
Esse movimento exigirá capital paciente, segurança jurídica, licenciamento eficiente, infraestrutura logística e visão de longo prazo. Também exigirá novos formatos de transação: alianças estratégicas, investimentos minoritários, joint ventures, contratos de fornecimento de longo prazo e aquisições que combinem ativos locais com capacidade tecnológica e acesso a mercados internacionais.
A nova geografia econômica terá efeito direto sobre o mercado de fusões e aquisições (M&A, em inglês). Em um cenário de cadeias de suprimento mais regionalizadas, o M&A deixa de ser apenas uma ferramenta de crescimento ou consolidação. Passa a ser também instrumento de acesso a recursos estratégicos, tecnologia, capacidade industrial, infraestrutura e mercados.
Para investidores internacionais, o Brasil reúne ativos difíceis de replicar: escala agrícola, disponibilidade de energia renovável, recursos minerais, empresas líderes em nichos específicos e um mercado interno grande o suficiente para justificar plataformas regionais. Em 2025, o país concentrou 40% de todo o investimento estrangeiro direto destinado à América Latina e ao Caribe e mais de 70% das atividades de M&A na região. A atratividade existe. O ponto central é transformar essa atratividade em investimento de longo prazo, produtivo e geração de valor local.
Em mineração e materiais críticos, a tendência deve ser de maior presença de investidores estrangeiros por meio de joint ventures, participações minoritárias, contratos de fornecimento e aquisições de ativos em estágio mais avançado. O desafio brasileiro será negociar essas operações de forma a preservar competitividade, estimular processamento local e atrair conhecimento técnico — e não apenas antecipar a exportação de matéria-prima.
Em energia e infraestrutura, a oportunidade é igualmente relevante. A transição energética, a eletrificação da economia e a demanda crescente por capacidade computacional ampliam a importância de geração renovável, redes de transmissão, armazenamento, biocombustíveis, logística e infraestrutura associada a data centers. A combinação entre energia, conectividade e mercado digital pode posicionar o Brasil como destino relevante para capital de infraestrutura, fundos de private equity e empresas globais de tecnologia.
O agronegócio também deverá viver uma nova etapa de transações. Além da produção, investidores buscarão ativos ligados a insumos, genética, armazenagem, logística, rastreabilidade, crédito, seguros, tecnologia agrícola e alimentos processados. A pauta deixa de ser apenas expansão de área ou ganho de escala: passa a envolver produtividade, segurança alimentar, descarbonização e acesso a mercados premium.
Em tecnologia, a maior oportunidade brasileira, além de operações de Data Centers – dada sua relevante vantagem competitiva em relação a energia e custo de área, talvez esteja menos na criação de grandes plataformas globais e mais na consolidação de empresas capazes de aplicar inteligência artificial e dados a problemas concretos. Soluções para crédito, saúde, educação, logística, varejo, indústria e agronegócio podem se tornar alvos relevantes de investidores estratégicos e financeiros. Empresas com base de clientes, dados proprietários, governança e capacidade de integração estarão mais bem posicionadas.
O mercado de M&A ilustra essa seletividade. No primeiro semestre de 2026, o Brasil registrou 421 transações, uma redução de 33,5% em relação ao mesmo período do ano anterior (dados da área de Investment Banking da Kroll Brasil). Isso não significa ausência de capital ou de oportunidades. Indica que investidores (nestas transações, há predomínio do perfil de investidores nacionais, presente em 72% das transações, e de perfil estratégico, em 71% das transações) estão mais disciplinados e que ativos realmente diferenciados recebem atenção desproporcional. Em um mercado assim, não basta crescer: é preciso demonstrar qualidade de gestão, tese estratégica clara e capacidade de execução.
Há, porém, riscos importantes. O primeiro é o de o Brasil voltar a ocupar apenas a posição de fornecedor de ativos ou recursos, sem reter tecnologia, propriedade intelectual, empregos qualificados e capacidade decisória. O segundo é o de incertezas tributárias, regulatórias e cambiais elevarem o custo de capital e reduzirem o apetite de investidores justamente quando outros países disputam os mesmos recursos.
Também será necessário maior preparação das empresas brasileiras. Bons ativos não bastam. Compradores internacionais (que estiveram presentes em apenas 22% das transações) exigem governança, transparência financeira, controles de compliance, rastreabilidade da cadeia produtiva, gestão ambiental e clareza sobre riscos regulatórios. Empresas que se organizarem antes de um processo de captação ou venda terão mais alternativas de negociação, maior poder de barganha e melhores condições de capturar valor.
O mundo está menos previsível, mas não menos aberto a oportunidades. A reorganização das cadeias globais criará vencedores entre os países capazes de combinar recursos naturais, capital humano, tecnologia, infraestrutura e confiança institucional.
Para o Brasil, o caminho não é escolher entre abertura e proteção, entre mercado interno e exportação, ou entre capital nacional e estrangeiro. O desafio é usar o investimento internacional e o M&A como instrumentos para criar empresas mais competitivas, inserir fornecedores locais em cadeias globais e transformar recursos naturais em produtos, tecnologia e serviços de maior valor agregado.
A nova geografia dos investimentos já está sendo desenhada. A questão é se o Brasil participará dela apenas como fornecedor de recursos ou como protagonista na criação de valor. A globalização não acabou. Ela está sendo redesenhada.
Alexandre Pierantoni é Managing Director e Head de Investment Banking para a América Latina e Brasil da Kroll
