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Pausas na carreira ampliam desigualdade de gênero

Lorena Scavone Giron
9 de janeiro de 2026
Mulheres levam mais tempo para se recolocar após interrupções profissionais, aponta estudo

As pausas na carreira, frequentemente tratadas como decisões individuais ou intervalos passageiros, revelam um custo estrutural alto — especialmente para as mulheres. No Brasil, elas levam significativamente mais tempo do que os homens para retornar ao mercado de trabalho após uma interrupção profissional, aprofundando desigualdades de renda, acesso a cargos de liderança e participação econômica.

A constatação é de uma pesquisa realizada em 2025 pela Be Back Now, em parceria com a NOZ Inteligência, que analisou os principais motivos para pausas na trajetória profissional e seus efeitos no retorno ao emprego.

Segundo o levantamento, 28,8% das mulheres que interromperam a carreira apontam a maternidade como principal motivo, seguida por questões de saúde mental e responsabilidades com familiares. Entre os homens, o fator predominante é o desemprego, citado por 32,8% dos entrevistados, além da tentativa de empreender.

“Essas diferenças refletem a distribuição desigual do trabalho de cuidado no Brasil, historicamente concentrado nas mulheres”, afirma Tetê Baggio, CEO e fundadora da Be Back Now. “A pausa não é o maior problema. O desafio está na forma desigual como o mercado reage quando essas interrupções estão associadas ao cuidado.”

Retornos desiguais ao mercado

O estudo mostra que a principal assimetria não está apenas nos motivos da pausa, mas no que acontece depois dela. Mulheres enfrentam mais barreiras para se recolocar, especialmente quando permanecem afastadas por períodos prolongados. A perda de networking, a percepção de defasagem de competências e o estigma sobre trajetórias não lineares dificultam o retorno.

Dados do Movimento Mulher 360 reforçam esse cenário: mulheres são cinco vezes mais propensas do que homens a deixar o mercado de trabalho após a chegada dos filhos, e uma parcela significativa permanece fora do emprego formal por três anos ou mais.

Esse afastamento prolongado tem efeitos cumulativos. Informações do IBGE, analisadas pela NEWA, indicam que mais de 11 milhões de mulheres estão fora da força de trabalho no Brasil por responsabilidades domésticas e familiares — uma perda relevante não apenas individual, mas também para o potencial produtivo do país.

Embora homens que pausam a carreira por desemprego também enfrentem dificuldades de recolocação, a evidência aponta que eles tendem a retornar em menos tempo e com menor penalidade de longo prazo. A desigualdade, portanto, está menos na interrupção e mais na forma como o mercado absorve diferentes tipos de pausa.

Uma questão sistêmica

Para especialistas, tratar pausas na carreira apenas como escolhas pessoais ignora seu caráter estrutural. Em um contexto de envelhecimento da população e escassez de talentos qualificados, reduzir barreiras ao retorno profissional pode ser estratégico tanto para a equidade de gênero quanto para a eficiência econômica.

“O mercado ainda precisa amadurecer para enxergar que profissionais retornantes trazem não só experiência técnica, mas também resiliência, visão ampliada e competências socioemocionais valiosas”, diz Tetê Baggio. “A valorização das pausas de carreira é uma transformação que ainda está começando no Brasil, mas é inevitável.”

A pesquisa completa, “Pausa na Carreira 2025: o cenário do mercado de trabalho brasileiro”, está disponível para download gratuito.

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