Muita gente bem-sucedida conta a própria história como se tudo tivesse sido planejado. Aí eu peço para contar de novo, decisão por decisão, e a história muda
Há algumas semanas, almocei com um fundador. Ele vendeu a empresa que construiu em dezoito anos, ficou mais dois lá dentro porque o contrato de venda exigia, e saiu com o que ele mesmo chamou de “dinheiro para três vidas”. Frase que eu ouço mais do que se imagina, quase sempre de quem vai continuar trabalhando como se o dinheiro fosse acabar antes do fim do ano.
Estava sendo sondado para um conselho e para o cargo de CEO num grupo maior. Queria minha leitura sobre qual das duas fazia mais sentido.
Eu não respondi. Devolvi a pergunta que faço sempre que alguém que já deu certo me procura para falar de próximo passo.
Quanto é suficiente para você?
Ele riu. Depois ficou quieto. Depois disse que nunca tinha pensado nisso.
A parte do dinheiro ele já tinha resolvido, e com folga. O que ele não sabia dizer era de quanto cargo, de quanto poder e de quanto aplauso ainda precisava para sossegar.
Eu entendo a dificuldade. Quem chegou lá passou a carreira inteira se perguntando qual é o próximo passo, e foi essa pergunta que levou a pessoa tão longe. Só que ela tem um defeito: nunca aceita “nenhum” como resposta. Sempre existe um próximo passo. E com o tempo, sem ninguém avisar, essa lógica sai do trabalho e passa a decidir também onde morar, quanto tempo sobra para os filhos e o que fazer com o domingo.
Muita gente bem-sucedida conta a própria história como se tudo tivesse sido planejado. Aí eu peço para contar de novo, decisão por decisão, e a história muda. A pessoa aceitou uma promoção porque fazia sentido. Depois aceitou outra. Assumiu mais gente, ganhou mais dinheiro. Entrou em outro negócio, comprou participação, expandiu. Cada passo parecia o certo na hora. Só que ela nunca parou para escolher a vida que esses passos foram formando. Foi acontecendo.
Às vezes, sucesso é inércia bem remunerada. O caminho vai ficando tão bom, paga tão bem e rende tanto elogio que continuar nem parece decisão. Cada etapa vem com um prêmio, e a pessoa vai atrás do próximo sem notar que parou de escolher. A pergunta do suficiente nem chega a aparecer, porque a resposta parece sempre ser “um pouco mais”.
Eu me reconheço nisso. Tenho quase vinte anos na mesma empresa e já me fiz essa pergunta algumas vezes. Não gostei de perceber quanto tempo eu demorei para responder.
No caso de quem já fez patrimônio, a demora é mais difícil de explicar. Dinheiro, depois de certo ponto, serve para comprar escolha: poder dizer não, esperar, aceitar ganhar menos para fazer uma coisa mais interessante. Só que eu vejo o contrário. A pessoa passa a vida juntando essa liberdade e, quando ela chega, continua decidindo como se não tivesse opção.
Querer mais não é o problema. O problema é quando a gente usa a conquista para resolver uma coisa que conquista nenhuma resolve. Muitas vezes é uma vontade antiga de ser reconhecido por alguém. E esse alguém às vezes nem está mais por perto.
Eu vejo isso em conversa de carreira. Pergunto o que a pessoa quer e ela responde com um cargo. Pergunto por quê, e vem desafio, impacto, crescimento. Pergunto de novo. Quando a conversa vai mais fundo, às vezes aparece o nome de alguém. Um pai. Uma mãe. Um professor. Um gestor de vinte anos atrás.
Tem gente tentando provar valor para um pai que já morreu. Outros ainda discutem sozinhos com um gestor que duvidou deles há vinte anos e que provavelmente nem lembra da conversa. E tem quem cresceu com medo de faltar dinheiro e continua acumulando muito depois de ter garantido os filhos e os netos.
Existe conquista que nasce de vontade e conquista que nasce de ferida. De fora, as duas parecem iguais, e em quase todo mundo elas vêm misturadas. A diferença é que a parte da ferida nunca termina. A pessoa passa a vida preparando a defesa para um julgamento que não vai acontecer. Nenhuma promoção encerra isso. Patrimônio também não.
Por isso a palavra “suficiente” incomoda tanto. A gente aprende a definir a próxima meta, mas não a definir o suficiente. E sem saber quanto basta, patrimônio vira placar. Toda vez que você chega perto da linha de chegada, ela anda mais um pouco. Quem empurra a linha é a comparação. Antes a gente se comparava com o vizinho e com o colega, um grupo pequeno. Hoje você abre o LinkedIn e se compara com centenas de pessoas antes de escovar o dente.
Na agenda de quem deu certo sempre cabe mais um conselho, mais uma operação, mais um convite. Só que toda vez que alguma coisa entra, outra sai da sua vida sem se despedir.
Aos trinta, dava para mudar de cidade, de carreira, de país, começar do zero. Aos cinquenta, algumas dessas portas continuam abertas. Outras fecharam enquanto você estava em reunião. E quase ninguém faz o luto das vidas que não vai viver. A empresa que ficou no PowerPoint. A cidade que virou destino de férias em vez de endereço. A pessoa que você achava que ia ser e que hoje não cabe na agenda. Não existe cartão de condolências para isso.
Muita gente fica esperando o suficiente chegar sozinho, como uma sensação. Um dia a pessoa acorda satisfeita e sabe que deu. Esse dia não vem, porque a linha continua andando. O suficiente precisa ser decidido. Quem fica esperando sentir vai esperar a vida inteira.
O fundador me mandou mensagem uns dias depois. Não tinha escolhido entre o conselho e o cargo de CEO. Tinha resolvido responder primeiro à pergunta do almoço. Disse que era a primeira semana em vinte anos que passava sem tentar decidir o próximo passo.
Não sei o que ele vai escolher. Mas dessa vez vai ser escolha.
Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page Brasil. É autor do best-seller “Lugar de Potência: Lições de carreira e liderança de mais de 10 mil entrevistas, cafés e reuniões”
