Entenda o que motivou a bolsa a investir no relatório de diversidade, segundo Ana Buchaim, vice-presidente da B3
O Ibovespa, principal indicador do desempenho das ações negociadas no Brasil, conta com 84 empresas listadas. O novo portfólio deve ser anunciado no final de agosto, mas até o momento, apenas 3 empresas, que estão no índice, são lideras por mulheres. São elas:



A formação dessas 3 presidentes
- Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury
Formação: Medicina pela USP Ribeirão Preto (1992); residência e doutorado em cardiologia pelo InCor-USP; pós-doutorado nos EUA; MBA em inovação pela FIA; cursos executivos em Harvard, Wharton e MIT.
Entrada no Fleury: Ingressou como médica cardiologista em 2001.
Carreira no Grupo Fleury: Gerente de P&D (2007), diretora médica (2012–2018), diretora de negócios (2018–2021), CEO desde abril de 2021. - Magda Chambriard, CEO da Petrobras
Formação: Engenharia civil (1979); mestrado em engenharia química (1989); especializações áreas de exploração e produção.
Carreira na Petrobras: Estagiária (1980), atuação técnica em produção por décadas.
ANP: Diretora-geral (2012–2016), com atribuições importantes na regulação e licitações.
Setor público e consultoria: Atuação em Alerj e empresas de energia.
Petrobras: Presidente desde 24 de maio de 2024. - Tarciana Medeiros, CEO do Banco do Brasil
Formação: Bacharel em administração (2012); pós-graduações em marketing e em liderança, inovação e gestão; MBA em marketing, branding e growth; cursa MBA em BI e analytics.
Carreira no Banco do Brasil: Ingressou como concursada em 2000; atuou em agências da Bahia e assumiu seu primeiro cargo de gestão em 2002.
Trajetória executiva: Foi superintendente comercial da BB Seguros (2013–2018) e gerente executiva de Clientes Pessoa Física e MPE, com foco em digitalização e pós-venda.
Banco do Brasil: Presidente desde 26 de janeiro de 2023; primeira mulher a liderar o banco em mais de 200 anos de história.
Diversidade das empresas pela B3
Tanto Magda quando Jeane foram a segunda mulher a ocupar a cadeira de CEO das companhias que lideram hoje. Já Tarciana é a primeira mulher a liderar a empresa estatal.
Esse número é um reflexo do perfil da liderança das empresas no Brasil. Segundo o último estudo da consultoria Deloitte sobre o tema, no Brasil a representação de mulheres em cargos de CEO era 2,4% em 2023. Para identificar a diversidade nas empresas, a B3 exige desde 2023 um relatório das companhias listadas.
Na bolsa de valores, os homens também são maioria: o número de investidores homens que entram em equities é historicamente maior que o número de mulheres. Por outro lado, as mulheres apresentam valor mediano do primeiro investimento de R$ 372, enquanto o dos homens é de R$ 164.
Ana Buchaim, vice-presidente da B3, compartilha à EXAME as medidas de diversidade dentro e fora da bolsa.
As ações externas
Com a aprovação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a B3 criou o Anexo ASG, uma medida que estimula a transparência nas empresas listadas. A ação entrou em vigor em 2023, e desde então as empresas devem divulgar a presença (ou ausência) de diversidade, equidade e inclusão na diretoria estatutária e nos conselhos de administração. Caso não adotem práticas de diversidade, como gênero e raça, devem explicar os motivos.
A lógica do “pratique ou explique” oferece um parâmetro para investidores e consumidores: o de considerar, além dos indicadores financeiros, os valores representados por cada companhia.
“Essa transparência permite que o mercado tome decisões mais conscientes, favorecendo empresas que, de fato, estão comprometidas com a diversidade”, afirma a vice-presidente da B3.
Para apoiar esse avanço, a instituição também oferece o Guia de Boas Práticas em Diversidade, Equidade e Inclusão e promove pesquisas que ajudam as empresas a fazer um diagnóstico preciso e estruturar planos de ação alinhados à estratégia de negócios.
Outra frente importante é o IDiversa B3, criado também em 2023, é o primeiro do tipo no Sul Global e mede a performance financeira de companhias com boas práticas de diversidade de gênero e raça. “A importância desse índice é mostrar, com dados, que a pluralidade também gera resultado”, afirma a VP da B3.

A análise interna sobre ESG
Internamente, a B3 aplica o mesmo rigor. Estabeleceu metas de diversidade para todos os níveis de liderança e definiu publicamente o objetivo de ter 35% de mulheres em cargos de gestão até 2026. A meta impacta diretamente a remuneração variável de todos os gestores — inclusive do presidente.
“Queremos que os líderes se comprometam com a construção de times diversos”, afirma Buchaim.
A empresa também criou programas voltados a grupos sub-representados, como o Humanas da Tec, que recruta e forma mulheres para atuar em tecnologia, além de iniciativas de mentoria em momentos críticos para o avanço da carreira feminina, diz Buchaim.
“Reforçando o compromisso com a inclusão, a B3 realiza censos de diversidade recorrentes, monitora a equidade salarial e mantém núcleos internos para tratar das dores específicas de cada grupo”.
A cultura de ética é outro pilar: a B3, segundo Buchaim, possui um comitê especializado para investigar e resolver, com agilidade, possíveis casos de assédio. Ao mesmo tempo, promove o letramento contínuo de lideranças e equipes para garantir um ambiente seguro, respeitoso e preparado para lidar com a pluralidade.
Com 5 mulheres entre os 11 membros do conselho de administração e 3 entre os 10 diretores estatutários, a B3 está entre os 6% das empresas listadas no país que reúnem liderança feminina em ambas as instâncias, diz Buchaim. “Diversidade não é discurso. É ação estratégica que começa dentro de casa, mas precisa influenciar o mercado inteiro”.
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Por Layane Serrano