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O tempo passa. A água fica

Da redação
17 de outubro de 2026
De 1963 a 2026, imagens do Anhangabaú alagado mostram uma cidade que mudou de cara, de carros e de século, mas continua diante de uma velha cena

O compilado de fotografias do Anhangabaú alagado é a Imagem da Semana de MONEY REPORT. À primeira vista, o que chama atenção são os carros. Os modelos antigos dão lugar aos mais novos, os ônibus mudam de formato, as fotografias ganham cor. Mas basta olhar um pouco mais para perceber o que permanece: a água tomando o vale. 

A sequência reúne registros identificados como de 1963, 1967, 1971, 1985, 1999, 2020, 2024 e 14 de outubro de 2026. São mais de seis décadas entre a primeira e a última fotografia. Uma pequena história de São Paulo contada por suas enchentes. 

Em 1963, um homem aparece com parte do corpo dentro d’água. Em 1985, ônibus e automóveis dividem uma avenida inundada. Nas imagens mais recentes, motoristas sobem nos veículos enquanto esperam uma saída. O cenário muda, mas o susto atravessa o tempo. 

E a repetição tem relação com a própria geografia paulistana. O Anhangabaú está no centro de uma bacia formada por cursos d’água como os córregos Saracura, Bixiga, Itororó e Augusta. Essas águas descem de diferentes pontos da região central, encontram-se na área da Praça da Bandeira e seguem pelo rio Anhangabaú, hoje canalizado e escondido sob ruas e túneis.

Por isso, colocar toda a culpa na configuração mais recente do Vale, ou apenas na retirada de árvores e no concreto, simplifica um problema que as próprias fotografias mostram ser muito mais antigo. A impermeabilização contribui, mas a baixa capacidade de escoamento e o histórico processo de canalização e soterramento dos cursos d’água ajudam a explicar por que a mesma cena volta há décadas.

Há algo de desconcertante nessa repetição. São Paulo redesenhou o centro, construiu túneis, mudou a frota e cobriu seus rios. Embaixo de tudo isso, porém, a água continua seguindo o caminho que sempre seguiu.

A imagem de 2026 encerra o carrossel. O que ela não encerra é a história. No Anhangabaú, a próxima fotografia já deveria poder mostrar outra coisa. 

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