Criatividade é uma mercadoria rara em qualquer mercado. Do mundo cinematográfico às bancas de advocacia, aqueles que têm mentes criativas são disputados a tapa. Mas ideias originais e de impacto não surgem a qualquer momento, mesmo para aqueles que são gênios da originalidade. Diante das dificuldades de implementar ideias novas e brilhantes, muita gente prefere reciclar produtos antigos, usar estratégias de outros mercados ou adaptar sacadas alheias em seus negócios. Nada contra, diga-se de passagem.
É no mundo do showbusiness, no entanto, que essas reciclagens ficam mais evidentes.
No cinema, por exemplo, foi lançada nesta semana o quarto episódio da saga da Marvel com o Homem-Aranha vivido por Tom Holland (antes, o mesmo herói tinha sido vivido três vezes por Tobey Maguire e duas por Andrew Garfield). Um pouco antes, a Netflix havia lançado “Spider Noir”, uma série com Nick Cage. A premissa é interessante: como seria o Homem-Aranha se ele tivesse surgido logo após a Segunda Guerra Mundial? Imagine isso como se fosse um roteiro de filme policial com Humphrey Bogart, com direito a ver os episódios em preto e branco. Uma ideia reciclada. Mas, ao mesmo tempo, original.
Nos últimos tempos, porém, surgiu uma tendência no mundo da reciclagem artística – a de usar filmes antigos como gancho para um seriado. “Cobra Kai”, baseada em “Karatê Kid” ´é um exemplo disso, ao lado de “Wandinha” (“Família Adams”) e de “Fargo”, inspirada no filme homônimo.
Uma das grandes coqueluches entre os adolescentes de hoje é a série “Elle Woods”, que usa a personagem principal de “Legalmente Loira” nos seus anos de ensino médio. Usando a máquina do tempo na direção oposta, teremos uma versão streaming de “As Patricinhas de Bervely Hills” (imagem) no canal Paramount +. Nesta série, Alicia Silverstone reviverá o papel de Cher Horowitz nos tempos atuais e aparecerá como mãe de uma adolescente. Uma sacada que promete ser divertida. Detalhe: o filme original já era uma reciclagem, pois tinha sido baseado no livro “Emma”, de Jane Austen. E uma série já havia sido produzida com os mesmos personagens no final dos anos 1990.
Reciclar uma criação de alguém vale a mesma coisa que ter uma ideia original?
Isso depende do que se faz com a coisa reciclada. Existe uma diferença de natureza entre pegar um título conhecido para economizar o custo de apresentar um personagem ao público e pegar esse mesmo título para dizer algo que o original não disse. “Spider Noir” se sustenta porque parte de uma premissa interessante: o que aconteceria com aquele super-herói se ele fosse deslocado para o contexto do pós-guerra e para a linguagem visual do cinema policial? “Cobra Kai” funciona porque inverte o eixo moral do filme e transforma o vilão adolescente de 1984 em um adulto derrotado, explicando porque ele agiu errado no passado. Nos dois casos, há trabalho criativo real, apenas exercido sobre matéria-prima emprestada.
Vale lembrar que a originalidade absoluta talvez não exista. Jane Austen, por exemplo, escreveu “Emma” sobre convenções de comédia de costumes que já estavam em circulação em sua época. O que muda de um caso para outro é a proporção entre o que se herda e o que se acrescenta. E talvez seja essa proporção que separa a homenagem da cópia. Quem recicla bem assume um risco criativo, porque precisa justificar por que usou ideias de antigamente.
Há outro aspecto neste debate: reciclar é uma forma de reduzir riscos (algo legítimo e muitas vezes necessário). Um estúdio que compra um título conhecido está comprando previsibilidade de audiência, custo de marketing menor e uma conversa pronta com o público.
O problema está em abusar deste truque. “Karatê Kid”, “Legalmente Loira” e” As Patricinhas de Beverly Hills” existiram porque alguém, num determinado momento, bancou uma ideia sem lastro prévio. Dessa forma, uma indústria que só recicla está consumindo um estoque que não repõe. Em algum momento, as boas ideias do passado vão se esgotar, O que o público vai fazer quando isso ocorrer? Procurar quem oferece ideias originais e criativas.
Reciclar, assim, é uma estratégia válida. Mas não pode ser a única disponível.
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