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Uma outra maneira de ver a polarização de 2026

Aluizio Falcão Filho
19 de outubro de 2026

No Brasil, convencionou-se dizer que a polarização é um embate entre direita e esquerda. Isso não deixa de ser verdade, mas há outras nuances que precisam ser levadas em consideração, pois o mundo atual tem mais de cinquenta tons ideológicos de cinza. Há, por exemplo, mulheres que se consideram direitistas, mas estão longe se serem consideradas tradwives – na verdade, são até defensoras de algumas causas feministas. Há, por outro lado, eleitores esquerdistas favoráveis a um endurecimento no combate ao crime organizado, uma bandeira tradicional dos conservadores.

Uma pesquisa do Datafolha divulgada ontem mostra que existe uma outra forma de classificar essa divisão política. Segundo a enquete, os eleitores de Flávio Bolsonaro votam neste candidato movidos pelo desejo de mudança. Já os apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva querem recolocá-lo no cargo para defender a proteção social realizada pelo Estado.

Nos Estados Unidos, o colchão protetor estatal é bem pequeno, se comparado ao do Brasil. Já na Europa, temos inúmeros mecanismos públicos que ajudam a população, carente ou não. No fundo, o que o estudo do Datafolha mostra é um confronto entre visões de como um governo deve agir: um grupo evoca o modo americano, enquanto o outro prefere uma abordagem europeia.

Isso vai além da clássica divisão de classes. É por isso que existem hoje os chamados pobres de direita ou, na visão pejorativa que uma parte da esquerda difunde, os CEOs de MEIs. Quem conseguiu sair da pobreza através do empreendedorismo, assim, não está muito preocupado com as normas da CLT e não se importa em trabalhar em uma escala 7×0. Já aqueles que enxergam o Estado como um ente provedor querem uma legislação repleta de direitos trabalhistas e benefícios sociais.

Isso quer dizer que direitistas e conservadores, como diria o personagem Justo Veríssimo, do humorista Chico Anysio, querem que o pobre se exploda? Não necessariamente. Os programas sociais mais efetivos que temos notícia no país têm origem na iniciativa privada. Nestes mecanismos, a taxa de retorno é sempre muito superior à do sistema público.

Voltando à pesquisa. Há dados intrigantes na enquete. Isso geralmente acontece quando os entrevistados estão diante de perguntas que podem comprometer a autoimagem de cada um. Um exemplo: 31% dos eleitores de Flávio e 17% dos de Lula disseram votar em seus candidatos por “rejeição ao adversário”. Convenhamos: há um número muito maior de eleitores de Flávio que irão votar nele por rejeição a Lula e vice-versa. Mas boa parte desses indivíduos não iria admitir isso para um pesquisador (as pesquisas do Datafolha são todas presenciais).

Por fim, um item importantíssimo (“Propostas e qualidades do candidato”) é pouco valorizado pelos eleitores pesquisados. Entre os apoiadores do candidato do PL, 15% consideram isso um motivo de escolha. Já entre aqueles que vão votar no nome do PT, essa razão está presente apenas em 10% das respostas.

Esse talvez seja o dado mais preocupante da pesquisa. Se a divisão entre os eleitores é, no fundo, uma disputa entre dois modelos de Estado, o lugar natural para esse debate seria justamente o capítulo das propostas: como financiar a proteção social sem estourar as contas públicas, estimular o empreendedorismo sem precarizar o trabalho e enfrentar o crime organizado com eficiência.

Quando apenas um em cada dez eleitores de Lula e pouco mais de um em cada sete de Flávio dizem escolher seu candidato pelo que ele pretende fazer, a eleição deixa de ser uma escolha de projetos e vira um plebiscito de identidades. E isso é cômodo para os dois lados, que se livram da obrigação de detalhar planos e podem se limitar a apontar os defeitos do adversário. Quem perde é o eleitor, que, em 2027, vai receber um governo cujo programa mal conhece. Ele terá escolhido o modelo americano ou o europeu sem saber como, na prática, cada um deles seria aplicado no Brasil.

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