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Ter uma filha muda o jeito como um chefe contrata

Aluizio Falcão Filho
27 de setembro de 2026

Um estudo feito pela Universidade de Northwest (Illinois) mostra que ter uma filha muda o jeito como um chefe contrata. As pesquisadoras Maddalena Ronchi e Nina Smith vasculharam registros administrativos de empresas sediadas na Dinamarca entre 1993 e 2017, cruzando dados corporativos com a composição das famílias de dezenas de milhares de gestores. Ronchi e Smith se interessaram por um grupo específico: donos de pequenas empresas que decidem sozinhos quem contratar e quanto pagar.

O resultado, divulgado na semana passada pela revista britânica “The Economist”, chama atenção. Quando o primogênito do chefe é menina, os salários das mulheres nas empresas sobem 4,4% em média e o número de mulheres contratadas cresce 2,9%, um efeito que surge logo após o nascimento e não desaparece com o tempo. Essas empresas passam a contratar mais mulheres para vagas de tempo integral e cargos mais bem pagos, muitas vezes no lugar de homens com currículo parecido, sem que isso pese no faturamento ou na produtividade. A explicação das autoras é simples: conviver com uma filha parece bastar para que esses gestores comecem a enxergar a capacidade das mulheres de ocupar postos de maior responsabilidade.

O machismo, nos dias de hoje, é algo que muitos disfarçam, mas continuam praticando no sigilo de suas mentes. Trata-se de algo que não muda facilmente. O nascimento de uma menina é algo que pode mexer com esses homens e esse estudo mostra isso. Muitas vezes, executivos e empreendedores agem de uma forma machista e nem percebem isso, pois simplesmente repetem o comportamento de seus antepassados e amigos.

Este grupo de machistas pode ter reações diferentes quando repreendidos pelo chauvinismo. Uma delas, a ideal, é reconhecer que o comportamento é inapropriado e tentar mudanças. Mas, infelizmente, esses indivíduos parecem pertencer a uma minoria. Os demais podem se comportar de duas formas. Uma é disfarçar um pouco e continuar se portando da mesma forma. A outra é assumir um machismo desenfreado e culpar o feminismo por todos os problemas do mundo.

Mais uma vez, temos aqui um toque de polarização entre o moderno e o antigo, entre o progressismo e o conservadorismo. Esse tipo de antagonismo, porém, é mais complexo, uma vez que há meninas e mulheres no campo conservador que desejam ter espaço no mercado de trabalho e esbanjam competência para isso. Da mesma forma, é possível que um homem de esquerda também seja machista e crie empecilhos para o crescimento profissional feminino. Dessa forma, temos um debate bastante aberto e cheio de nuances que pode sacudir praticamente todo o espectro ideológico.

Esse fenômeno já apareceu em outros contextos e tem nome na literatura acadêmica: “efeito filha”. Juízes americanos com filhas mulheres julgam de forma mais favorável a causas de gênero, segundo pesquisa que analisou decisões da Justiça Federal. Deputados com filhas votam mais a favor de pautas femininas, mostrou outro estudo, este sobre o Congresso dos Estados Unidos. Investidores de venture capital que têm filhas passam a contratar mais sócias mulheres em suas próprias gestoras. O padrão se repete porque o mecanismo é sempre o mesmo: conviver de perto com uma menina obriga o homem a imaginar, na prática, os obstáculos que ela vai enfrentar e isso muda a régua que ele usa para julgar as mulheres à sua volta.

Não é um efeito automático nem uma cura milagrosa contra o machismo estrutural. Ter uma filha não apaga décadas de comportamento aprendido e o próprio estudo de Ronchi e Smith mostra isso: o impacto existe, é mensurável, mas está longe de resolver a desigualdade salarial entre homens e mulheres nessas empresas. O que a pesquisa sugere é algo mais modesto e, ainda assim, revelador: para uma parte desses gestores, a virada não vem de campanhas de conscientização ou de pressão externa; vem de dentro de casa, quando o conceito abstrato de mulheres no mercado de trabalho ganha o rosto da própria filha.

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