A pesquisa Meio/Ideia desta semana traz um dado curioso: 18,6 dos eleitores decidiram seu voto no primeiro turno entre a véspera e o dia da eleição. Desses, cerca de metade tomou a decisão em frente à urna eletrônica. Essa dinâmica mostra como é difícil a vida de quem pesquisa intenções de voto no Brasil. Diante deste comportamento, tudo pode acontecer em uma eleição que deve ser decidida por margens irrisórias.
Como esse eleitor que decide na último hora deverá se comportar? Além dessa, há outras dúvidas em sobre a eleição de amanhã, cujas respostas só saberemos por volta das dez horas da noite, quando o resultado deve ter sido consolidado e anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral.
A primeira é: qual será o volume de abstenções e em quais regiões isso vai ocorrer de maneira mais forte? Lembremos que, no primeiro turno, a região Nordeste obteve uma alta no comparecimento às urnas. Já o Sudeste, no qual existe uma concentração de sufrágios na direita, a abstenção aumentou. Como esse fenômeno vai ocorrer amanhã? Trata-se de um detalhe que pode definir a parada. Afinal foram 34 milhões os eleitores que simplesmente não deram as caras nas seções eleitorais.
O segundo ponto importante: haverá mudança de votos? Segundo outra enquete, esta do Datafolha, cerca de 6% dos entrevistados dizem que podem trocar seu voto até amanhã. Esse dado foi o que motivou o PT a fazer uma blitzkrieg para tentar desconstruir a imagem de Flávio Bolsonaro entre o eleitorado.
Mais uma questão crucial: qual é o verdadeiro percentual dos eleitores que já decidiram o voto mas se declaram indecisos? Existe no Brasil um comportamento peculiar, o do voto envergonhado. Em 1985, vimos isso acontecer quando todas as pesquisas apontavam a vitória de Fernando Henrique Cardoso para a prefeitura de São Paulo. Abertas as urnas, porém, o vencedor seria Jânio Quadros.
Outro fator que embaralha o radar dos institutos é o destino dos votos de quem ficou pelo caminho no primeiro turno. Segundo a Quaest, 48% dos eleitores de Augusto Cury, terceiro colocado, pretendem votar em Lula, enquanto 33% migram para Flávio. Transferência de voto, porém, não é automática, e parte desse contingente pode anular ou simplesmente ficar em casa.
Soma-se a isso a diversidade de métodos: a Quaest vai a campo presencialmente, a Meio/Ideia entrevista por telefone e a AtlasIntel recruta eleitores pela internet, o que ajuda a explicar números às vezes distantes entre si. O retrospecto recente recomenda humildade. Na véspera do primeiro turno, a Quaest apontava Lula com 46% dos votos válidos e Flávio com 45%, enquanto a AtlasIntel registrava 47% a 44,1% para o petista. Nas urnas, Flávio terminou com 47,03% e Lula, com 45,16%.
Os números indicam uma disputa decidida no detalhe. Logo após o primeiro turno, Flávio Bolsonaro abriu vantagem: o Datafolha o colocou com 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula, e a AtlasIntel registrou 52,8% a 47,2%. Desde então, a diferença encolheu. Na rodada da AtlasIntel divulgada na segunda-feira, Flávio aparece com 51,1% dos válidos, contra 48,9% de Lula. Na Quaest feita depois do debate da Band, o placar ficou em 45% para Flávio e 44% para Lula, com o senador oscilando um ponto para baixo e o presidente estável. O quadro é de empate técnico, com ligeira vantagem numérica para o candidato do PL e tendência de aproximação do petista.
O desfecho deve depender menos de conversões do que de comparecimento. Flávio venceu em todos os estados do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste, enquanto Lula ganhou nos nove estados do Nordeste, onde abriu vantagem superior a 11 milhões de votos. Se o Nordeste voltar a votar em peso e o Sudeste repetir a abstenção, Lula pode virar. Se as pesquisas voltarem a subestimar o eleitor de Flávio, como ocorreu há três semanas, o senador chega ao Planalto. Em qualquer cenário, a margem deve ser estreita, e quem decidir diante da urna pode ter a palavra final.