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Os juros altos sufocam o varejo, agro e serviços. Qual é a saída?

Aluizio Falcão Filho
18 de agosto de 2026

A semana começou com dois nomes tradicionais do varejo brasileiro abrindo processos de recuperação judicial: Casas Bahia e Marabraz. Essas duas empresas ilustram, em escalas distintas, como os juros altos estão prejudicando a economia nacional. No caso da Casas Bahia, o grupo protocolou o pedido de RJ após registrar prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre, justificando a decisão por conta de um “ambiente macroeconômico desafiador, marcado por patamares elevados de taxas de juros, restrição de crédito e aumento do custo financeiro”. A companhia, assim, vai fechar quase 300 lojas e demitir pelo menos 2.000 funcionários. Já a Marabraz teve a crise financeira agravada pela combinação entre juros altos e disputas societárias, que resultaram na perda de controle sobre ativos imobiliários dados como garantia de crédito.

As dificuldades financeiras vividas pela livre iniciativa, no entanto, não se limitam ao varejo. Segundo reportagem do jornal O Globo publicada ontem, o Brasil chegou a 9,1 milhões de CNPJs negativados em junho de 2026, somando R$ 232,9 bilhões em dívidas em atraso, um recorde da série histórica iniciada em 2016.

Esse patamar de inadimplência mostra que outros setores, além do varejo, estão patinando. Em 2025, por exemplo, a agropecuária respondeu por 30,1% das empresas em recuperação judicial, seguida de perto pelo setor de serviços, com 30%, à frente de comércio (21,7%) e indústria (18,2%). Em janeiro de 2026, o agro liderou os pedidos com 41 empresas envolvidas. Em seguida, vieram as companhias de serviços (37), comércio (27) e indústria (21).

O governo geralmente coloca a culpa dos juros altos no Banco Central, que determina as taxas. Ocorre, porém, que o BC está respondendo a um quadro fiscal deteriorado pelos gastos públicos sem controle. Dados do próprio Bancen mostram que o déficit nominal do setor público brasileiro se aproximou de 10% do PIB nos 12 meses até junho de 2026, a leitura mais alta desde o choque da pandemia em 2021, em boa parte puxado pelo custo dos juros sobre a dívida pública, que soma R$ 166 bilhões apenas no mês de junho.

Outro levantamento do BC aponta que a dívida pública representa 81,1% do PIB, alertando que um esforço fiscal inferior ao projetado aumentaria o prêmio de risco, elevaria o custo de financiamento da dívida e reduziria o investimento privado. O FMI projeta um cenário ainda mais desafiador: a dívida bruta brasileira deve atingir 100% do PIB em 2027 e seguir subindo até cerca de 106,5% em 2031, segundo o relatório Monitor Fiscal do Fundo. Os juros altos, assim, são uma reação à irresponsabilidade fiscal, que colocou pessoas físicas e jurídicas no torvelinho da inadimplência.  

A saída desse imbróglio passa necessariamente por um ajuste fiscal consistente, não por paliativos. O país precisa reduzir despesas obrigatórias que crescem acima da arrecadação, rever benefícios sem foco alocados via emendas parlamentares e travar o crescimento automático de gastos previdenciários que hoje comprometem qualquer meta de resultado primário. Sem esse esforço, a Selic seguirá em patamar elevado por mais tempo do que o necessário e o custo de financiamento da dívida pública vai continuar consumindo espaço orçamentário que poderia ir para investimento produtivo. O ajuste, se vier, precisa atacar a raiz do problema, que é o tamanho da máquina pública e a rigidez orçamentária.

Mesmo que o PT vença as eleições de 2026, o partido não escapará dessa obrigação. Qualquer governo que assuma o país em 2027 herdará uma dívida pública projetada para superar 100% do PIB e um déficit nominal rondando 10% do PIB, cenário que torna o ajuste fiscal inadiável independentemente de quem esteja no comando.

O problema é que essa tarefa vai esbarrar em resistência interna própria. Muitos petistas seguem defendendo a expansão de gastos sociais como prioridade inegociável e tratam qualquer sinalização de corte como retrocesso ideológico, o que vai gerar um confronto direto com a ala mais pragmática do governo. Economistas ligados ao núcleo mais estatista do PT, por sinal, já sinalizam resistência a qualquer proposta de contenção de despesas.

Esse tema precisa ser discutido com seriedade por parte dos candidatos. É um assunto chato, que não tem apelo popular. Mas é crucial para o futuro do país e para a sobrevivência das empresas. Sem juros palatáveis, entraremos em uma espiral negativa que vai gerar esforços superlativos para revertê-la. É hora, portanto, de termos um compromisso por escrito de todos os candidatos à presidência garantindo que irão fazer um ajuste fiscal. De preferência, com a diminuição da máquina estatal.

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