O salto alto dos políticos, geralmente, leva a derrotas ou a impasses difíceis de serem contornados. No caso de Flávio Bolsonaro, a liderança no primeiro turno trouxe uma onda de “já ganhou” no comando da campanha que não permitiu perceber os movimentos de recuperação do adversário. Do outro lado do balcão, os vitoriosos, agora, dão declarações recheadas de soberba e tripudiam quem perdeu nas urnas.
No entanto, embora impressionante e incontestável, a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é uma carta branca dada pelo povo brasileiro. Os 64,2 milhões de eleitores que votaram em Lula, lembremos, representam 40,4% de toda a base eleitoral registrada no país. Portanto, ainda vivemos sob a égide da divisão política e o PT não deveria agir como se tivesse obtido a totalidade dos votos para obter um novo mandato.
O nariz empinado não é o único desafio que os vencedores têm diante de si. O novo governo tem dois problemas pela frente, um derivado do outro. O primeiro é ter de lidar com os parlamentares de direita, que obtiveram a maioria no Senado (a Câmara continua um reduto do Centrão). O segundo é acomodar no primeiro andar do Poder aqueles que ficaram pelo caminho no primeiro turno, derrotados pelos direitistas.
Três exemplos surgem logo de cara: três candidatas derrotadas na corrida pelo Senado, Marina Silva, Simone Tebet e Gleisi Hoffmann. Das três, apenas Marina parece estar com um lugar garantido na Esplanada. Mas, além dela, temos também outros perdedores de peso: Fernando Haddad, Randolfe Rodrigues, Marcio França, João Campos e Eduardo Paes. Como acomodar todos esses políticos e os compromissos com os partidos que vão compor a base aliada no Congresso?
Em 2022, Lula foi eleito usando uma frente que ia da esquerda à direita moderada. Na hora de compor os ministérios, porém, ignorou boa parte dos aliados e preferiu carregar nas tintas vermelhas o seu primeiro escalão. Desta vez, contudo, o presidente se apoiou praticamente em uma plataforma de esquerda. Como será, assim, seu ministério?
Segundo pessoas próximas ao Planalto, o salto alto de agora deve-se à euforia da vitória e logo será substituído pelo pragmatismo e pelas lições aprendidas na reta final da campanha. Lula teria percebido que não pode mais se distanciar das redes sociais e precisa entender o que pensa a sociedade através da interação com os internautas. Isso, porém, pode inflar ainda mais a vaidade do mandatário ou turbinar o desdém pelos adversários e críticos. Como o presidente é um neófito no mundo digital, ainda não se sabe qual será sua reação diante dos elogios e dos apupos.
A história recente mostra que o salto alto cobra seu preço. Flávio Bolsonaro descobriu isso nas urnas. Lula pode descobrir no Congresso, onde um Senado de maioria oposicionista e um Centrão sempre atento às oportunidades estarão prontos para transformar cada gesto de arrogância em fatura política. Com o país dividido ao meio, a governabilidade dependerá da capacidade do presidente de conversar com quem não votou nele e isso exige descer do pedestal logo nos primeiros dias. Lula, que já experimentou o céu e o inferno da política, deveria saber melhor do que ninguém que a euforia de uma noite de domingo dura pouco e que quatro anos passam depressa.