Uma entrevista dada pela ex-ministra Dorothéa Werneck à coluna de Mônica Bergamo, na “Folha de S. Paulo”, traz um depoimento que merece ser discutido. Dorothéa foi instada a avaliar os dois presidentes com os quais trabalhou (Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor). Na comparação entre os dois, Collor foi considerado pela ex-ministra como um gestor mais habilitado para o cargo.
FHC, ela diz, deixava a desejar na gestão de pessoas. “Ele tinha um grupo muito pequeno em sua volta e sempre ouvia a última pessoa com quem falava. Várias vezes, vi serem tomadas decisões da minha área sem ter sido ouvida”, afirmou ela. Já Collor agia como um CEO. “Ele fazia as coisas acontecerem. Foi o melhor chefe que eu já tive em termos de Presidência da República”, disse.
Trata-se de uma comparação interessante, já que Fernando Henrique era um professor de formação e havia passado muitos anos no Senado. Collor, por sua vez, era economista e atuou como empresário durante anos. No universo político, foi parlamentar como FHC, mas exerceu cargos executivos, como prefeito de Maceió e governador de Alagoas. Portanto, apesar de mais novo no exercício da presidência, tinha mais experiência em administração do que Efeagá.
Em termos de imagem pública, Fernando Henrique Cardoso ganha de lavada de Fernando Collor – mesmo com toda a antipatia nutrida por uma parte da direita àquele que trocou a sociologia pela política. Mesmo assim, talvez ele não tenha sido melhor administrador que Collor.
O ex-governador de Alagoas sofreu um processo de impeachment e teve sua carreira marcada por acusações de corrupção. Mas foi ele quem abriu a economia brasileira ao mundo e, por isso, conseguiu modernizar vários produto fabricados por aqui, como nossos automóveis, chamados por ele de “carroças”.
E Fernando Henrique? Apesar de construir sua carreira acadêmica e política nas hostes esquerdistas e de ter fundado o PSDB com inspiração vinda da social-democracia europeia, Fernando Henrique assinou e implementou o maior programa de privatização que o Brasil já viu. Tanto é que sua gestão ganhou a pecha de “neoliberal”, embora ele não fosse exatamente um irmão de armas de Roberto Campos ou Ludwig Von Mises. A capacidade de não se contaminar pelos eventuais escândalos de sua administração rendeu a criação de um neologismo: o efeito teflon, que ocorre quando os políticos escapam de uma celeuma sem ter a reputação manchada.
O depoimento de Dorothéa Werneck escancara uma confusão recorrente na avaliação de líderes: a que mistura simpatia com competência. Um chefe que ouve todo mundo, cultiva boas relações e mantém a imagem pública intacta pode, ainda assim, ser um mau gestor, incapaz de tomar decisões firmes ou de proteger sua equipe de escolhas erráticas. Já um líder rude, impopular ou até cercado de escândalos pode produzir resultados concretos, porque entende que liderar envolve fazer escolhas difíceis, delegar com clareza e cobrar entregas, ainda que isso custe popularidade. O mundo corporativo conhece bem esse fenômeno: existem executivos adorados por funcionários que levam empresas à falência e outros temidos ou mal-vistos que multiplicam o valor de um negócio.
A lição que fica da comparação entre FHC e Collor: a história costuma julgar governantes por sua imagem construída ao longo dos anos e não necessariamente pela eficácia real de sua gestão. Um presidente pode conquistar respeitabilidade internacional, produzir livros e discursos elogiados. Mesmo assim, é possível que tenha dificuldade em administrar o dia a dia de uma máquina pública ou de uma empresa. Outro pode carregar o estigma de escândalos e impeachment e, décadas depois, ser lembrado por reformas estruturais que mudaram o país. Avaliar um líder apenas pela sua reputação é, portanto, um exercício raso. O verdadeiro teste está nos resultados que ele deixa, não na simpatia que desperta enquanto está no poder.
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