No dia 29 de setembro, os eleitores puderam ver, pela TV Globo, um debate civilizado entre os postulantes ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad. Houve farpas e cutucões dos dois lados, é claro, mas nenhum dos oponentes bateu abaixo da linha da cintura. Isso provocou, para algumas pessoas, a ilusão de que a polarização política havia entrado em uma fase mais respeitosa. Mas essa impressão não passou de um wishful thinking.
Muitos analistas dizem que o segundo turno é uma eleição completamente diferente do primeiro. E o que estamos vendo é mesmo outra campanha, com uma escalada de ataques e agressões que deixaram o pleito de 2018 no chinelo. A liderança de Flávio Bolsonaro na primeira etapa eleitoral colocou a esquerda em modo combate, nas redes sociais e nas ruas, com a octanagem das postagens chegando a níveis nunca vistos antes.
A multidão que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou na avenida Paulista, anteontem, é uma prova disso. Há muito tempo que a esquerda não conseguia realizar uma concentração maciça como a de domingo. E essa mobilização se deve ao avanço visível da direita.
O clima pesado é visível nas redes sociais, sendo que o TikTok virou uma terra de ninguém. As fake news tomaram conta do universo digital, sendo que dessa vez boa parte das notícias falsas veio de apoiadores de Lula. Invencionices como a ideia de que Flávio Bolsonaro iria devolver o Brasil ao status de colônia portuguesa, por exemplo, foram repassadas sem dó na rede.
Além disso, os militantes dos dois lados deixaram de postar mensagens políticas apenas em suas contas particulares e começaram a repassar vídeos e figurinhas eleitorais através de mensagens privadas. Muitas delas são críticas baseadas na realidade; outras, porém, são pura fantasia.
Como faltam menos de duas semanas para o segundo turno, essa intensificação de agressividade nas redes sociais ainda está longe de chegar ao seu ponto máximo. Aquela máxima de 2018, segundo a qual muitos eleitores de direita diziam que iriam passar o Natal daquele ano com Jair Bolsonaro, pois tinham brigado com a família inteira, deve se repetir em 2026 – não importa qual seja o resultado das urnas.
O Brasil sairá dessa eleição mais uma vez dividido. A vantagem do vencedor deve ser novamente pequena. Mas, ao contrário do que houve em 2022, o Congresso terá uma maioria claramente de direita, com Senado e Câmara refletindo uma virada de sinal dos eleitores. Essa mudança vai também ocorrer em 25 de outubro? Talvez sim. Mas o esforço empreendido pela campanha petista mostra que uma eventual vitória de Flávio não será fácil.
Por isso, muitos observadores da cena política brasileira alertam para o “já ganhou” que viralizou na campanha de Flávio Bolsonaro, assim como apontam os riscos de um certo “salto alto” que está calçando a equipe do senador fluminense. O momento, agora, é de avaliar o cenário polarizado e estudar qual é a abordagem que vai garantir um triunfo daqui a duas semanas.
Lula escolheu o ataque virulento e o uso de argumentos clássicos da esquerda. Se Flávio reagir na mesma moeda, replicando a claque bolsonarista, pode se distanciar dos eleitores de centro, imprescindíveis para se obter uma vitória nas urnas. A melhor saída pode ser apostar na rejeição do presidente, que continua alta, e ressaltar o fato de que Lula teve quatro anos para mostrar uma agenda positiva – coisa que resolveu fazer apenas na reta final da campanha. O que irá prevalecer? O bom senso ou a agressividade? Se o debate do SBT, marcado para a próxima quinta-feira, for realizado, teremos uma pista concreta sobre os caminhos que os dois candidatos vão adotar até a realização do segundo turno.