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Lula vai explorar o medo dos eleitores – assim como fizeram com ele em 2002

Aluizio Falcão Filho
8 de outubro de 2026

Os aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já se movimentam para explorar um conceito que ainda não tinha sido trabalhado em sua campanha: o medo. A ideia é incitar nos eleitores o receio de que Flávio Bolsonaro vá reduzir os programas sociais em um eventual governo. Sua única evidência para isso é a de que adversário já falou em cortar as despesas públicas.

Não deixa de ser curioso. Lula vai adotar uma estratégia que já foi usada contra ele no passado. O ano era 2002 e o candidato do PT competia pela presidência contra José Serra, do PSDB. O país vivia a consolidação do Plano Real, que havia debelado a inflação e conquistado equilíbrio monetário. Em uma peça de campanha dos tucanos, a atriz Regina Duarte disse o seguinte: “Estou com medo; fazia tempo que não tinha esse sentimento. O Brasil, nesta eleição, corre o risco de perder toda a estabilidade que foi conquistada”.

Em um evento realizado em dezembro de 2025, o então pré-candidato Flávio Bolsonaro participou de um almoço com empresários, organizado por MONEY REPORT. Nesta ocasião, foi perguntado a ele como ele agiria em relação aos programas sociais, em especial o Bolsa Família. Flávio respondeu que, num país como o Brasil, é preciso manter esse tipo de inciativa e que não pretendia fazer grandes mudanças. No entanto, afirmou que era preciso criar estímulos regionais para que os beneficiários pudessem ter condições de empregabilidade e deixar o auxílio do Estado.

É bem verdade que o governo de Jair Bolsonaro não cortou o Bolsa Família e ainda decretou o pagamento de um décimo-terceiro em 2019. Mesmo assim, a campanha petista deve explorar a possibilidade de que um governo de direita irá reduzir esse benefício. Além disso, a intenção é mostrar aos aposentados que seus pagamentos, sob um eventual governo do PL, podem ser desvinculados do salário-mínimo, o que vem onerando há anos o caixa do governo.

Com isso, Flávio terá um dilema diante de si: abrir ou não o jogo sobre a necessidade de tomar medidas amargas para controlar o descontrole que existe nas contas públicas. Se delinear o que pretende fazer para conter os gastos estatais, pode perder votos. Mas se ignorar o tema, perderá credibilidade junto a seus eleitores da elite e da classe média.

O que acontecerá se o PT insistir em incutir o medo nos eleitores?

Lula construiu a vitória de 2002 justamente ao desmontar o sentimento que Regina Duarte expressava com a Carta ao Povo Brasileiro, ao prometer uma continuidade do Plano Real. Vinte e quatro anos depois, ele ocupa o lugar de Serra: é o candidato da continuidade, defendendo o status quo e pedindo ao eleitor que não arrisque. A diferença é que, em 2002, o PSDB tentava proteger uma conquista de prestígio inquestionável, o fim da hiperinflação. Hoje o PT pede que o eleitor proteja um arranjo que ele próprio avalia mal, num país com inadimplência recorde, juros altos e desconfiança fiscal.

É neste ponto que a estratégia pode esbarrar na aritmética observada no domingo. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,04% contra 45,15%, e Lula recuou nas cinco regiões do país, inclusive no Nordeste. Quando a perda é universal, o que se manifesta é o cansaço com quem está no poder. Campanhas de medo funcionam sobre eleitores satisfeitos que temem perder algo; diante de quem está insatisfeito, podem reforçar o desejo de mudança.

Hoje, o país está dividido politicamente. Mas uma maioria, ainda que não acachapante, parece querer um caminho diferente para o governo. E quem deseja o novo costuma deixar o medo em segundo lugar. É como dizia um slogan do PT, feito para combater o discurso personificado por Regina Duarte: “A esperança vai vencer o medo”. O Brasil, definitivamente, é um pais no qual os papéis são trocados com frequência. Afinal, a direita está vivendo hoje o que a esquerda experimentou ontem.

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