Nesta semana, durante uma gravação de MONEY REPORT TV, um dos temas do momento foi debatido: criação de repertório, algo imprescindível dos dias de hoje. Mas qual seria o principal motor da formação de uma caixa de ferramentas intelectuais? Como construir uma bagagem de conhecimento que pode ser utilizado em momentos importantes na vida e na carreira?
A resposta óbvia parece ser a curiosidade. O apetite pelo saber é algo que, por exemplo, está incrustrado em nove de cada dez bilionários do planeta. No entanto, o que move a curiosidade? O faz as pessoas terem sede por conhecer histórias, acumular dados e procurar novas informações? Um desses motores seria a inquietude. Pessoas que estão insatisfeitas com o próprio conhecimento estão sempre buscando ampliá-lo.
Mas há um outro fator que está por trás da curiosidade e poucos falam a respeito: a humildade. Mas como um bilionário pode ser humilde? Calma lá. Alguém pode ser vaidoso ou saber de sua própria importância e, mesmo assim, ser humilde intelectualmente.
Estamos falando de uma humildade legítima, não de falsa modéstia. Conheço várias pessoas que se dizem humildes, mas, na prática, escondem a arrogância dentro do armário, visível apenas para quem tem o olhar clínico para essas situações.
Quando alguém busca novas informações através da leitura, assim, está reconhecendo que ainda não atingiu a sua plenitude intelectual em um determinado assunto. Isso, porém, se manifesta mais fortemente durante uma conversa. Para ouvir o que os outros têm a dizer sobre sua própria trajetória é preciso colocar a vaidade de lado.
Há alguns anos, testemunhei algo que ilustra bem este ponto (se você já me ouviu contar esse caso ou já leu um texto anterior sobre isso, peço desculpas antecipadas). Foi durante um churrasco na casa de um amigo, que contou com a presença do humorista Tom Cavalcante.
Estava eu sentado em uma mesa e Tom acabou se aboletando ao meu lado. Como era de se esperar, aquela se transformou no lugar mais concorrido do churrasco, com todas as cadeiras ocupadas e vários marmanjos em pé. Ocorreu, então, o inevitável: vários (bota vários nisso) comensais resolveram ensinar o pai-nosso ao vigário. Ou seja, começaram a contar piadas para um dos maiores humoristas brasileiros.
Fiquei impressionado com a desfaçatez daqueles sujeitos, mas percebi que o álcool tinha ajudado todos a perder qualquer tipo de inibição. O desfile de piadas durou quase uma hora e Tom, estoico, ouviu todas com grande atenção e dava gargalhadas ao final de cada intervenção.
Quando a mesa finalmente deu uma esvaziada, comentei com ele: “Tom, impressionante a sua generosidade; eu já ouvi essas piadas umas vinte vezes e imagine que você conhecesse todas muito bem”. A resposta dele: “Esse é o meu trabalho e, de vez em quando, uso algumas dessas piadas em meus shows. Mas ninguém conta a mesma piada igual aos outros. Às vezes, alguém coloca uma entonação diferente aqui, um improviso acolá e a graça aumenta. Por isso, eu preço muita atenção quando os outros ficam me contando anedotas”.
Moral da história: um grande humorista deixou seu ego de lado e ficou prestando atenção na narrativa e no estilo de amadores que, animados por umas biritas, queriam contar seus chistes batidos. Se Tom Cavalcante exerce a humildade a este ponto, você também pode conseguir aprender com quem menos espera. É só tentar deixar a vaidade de lado.