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Existe fake news do bem?

Aluizio Falcão Filho
3 de outubro de 2026

Nesta semana, discutiu-se muito sobre a onda de fake news sobre uma pretensa intenção do senador Flávio Bolsonaro em retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil. Neste debate, houve quem arriscasse dizer nas redes sociais que essa notícia podia ser falsa, mas tinha um bom propósito – o de tirar votos da direita.

Com isso, os militantes de esquerda se equipararam aos direitistas que inundaram a mídia digital com informações distorcidas da realidade ou simplesmente fabricadas, como o chamado kit gay para crianças, com direito a mamadeiras no formato de pênis.

Alguns colunistas da grande imprensa se arriscaram pelo tema, questionando se existiria algo como fake news do bem. Todos que falaram sobre o tema chegaram à conclusão de que uma notícia falsa tem como propósito enganar e manipular seu leitor, não importa qual é a intenção que a motiva.

Curiosamente, topei há dois dias com um outro tipo de fake news do bem, com cunho motivacional, que rola nas redes sociais. Trata-se de uma fotografia do ator John Wayne, com os seguintes dizeres em inglês: “Depois que John Wayne morreu em 1979, seus arquivos bancários revelaram que ele havia comprado 1.200 casas entre 1950 e 1979 e as deu para veteranos da Guerra do Vietnã que não tinham onde morar. Pagamentos em dinheiro. Nunca assinou seu nome [nas escrituras]. […] Total gasto: US$ 43 milhões. Sua família não sabia”.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, o post afirma que Wayne começou a comprar os imóveis em 1950, quando não existiam veteranos do Vietnã, já que as tropas de combate só desembarcaram naquele país em 1955. O texto também se contradiz na mesma frase, ao afirmar que registros bancários revelaram tudo e, logo adiante, que as compras foram feitas em dinheiro vivo e sem assinatura. Compra em espécie não gera registro bancário e imóvel não muda de dono sem escritura assinada e registrada em cartório de condado, um documento público que seria encontrado por qualquer repórter que pesquisasse o tema.

Mil e duzentas casas gerariam ainda impostos, seguro e manutenção em nome de alguém. Deixar um envelope com chaves num hospital da VA não seria suficiente para transferir propriedades e hospitais federais não distribuiriam imóveis a pacientes. Por fim, o dinheiro nunca existiu: o espólio de Wayne foi avaliado em cerca de US$ 6,8 milhões em 1979, dos quais aproximadamente US$ 1 milhão em imóveis, enquanto o card fala em 43 milhões gastos, mais de seis vezes tudo o que ele deixou.

Mas o que leva alguém a inventar uma história como essa?

Há basicamente duas razões. A primeira é econômica: conteúdo emocionante gera tráfego, que produz receita através de audiência. Basta procurar no YouTube para encontrar dezenas de vídeos com a mesma história de John Wayne, publicados por canais que vivem de engajamento e não têm compromisso algum com apuração. A segunda é mais interessante para quem observa comportamento. O autor da peça não precisa acreditar no que escreveu, mas sabe que o leitor quer acreditar.

A história funciona porque parte de um fundo verdadeiro (como boa parte das fake news), já que Wayne de fato visitou tropas no Vietnã em 1966 e defendeu publicamente os veteranos deste conflito armado. Além disso, a narrativa oferece ao leitor algo de que ele sente falta: a ideia de que existe generosidade sem plateia, algo praticamente inexistente nos dias de hoje, quando muitas doações são amplamente divulgadas. A frase final da peça, aquela em que a família não sabia de nada, tem um propósito específico: desarmar a checagem antes que ela comece. Se a família não tinha conhecimento disso, em tese ninguém pode desmentir.

Esse post sobre John Wayne não difama ninguém, não altera eleição alguma e deixa quem a lê momentaneamente mais animado com a espécie humana. Ainda assim, consegue fazer um certo estrago: a historinha treina o leitor a aceitar como verdade o que ele gostaria ser genuíno. Fake news do bem é como uma sequência de mentiras inocentes. O estrago não está no conteúdo em si, mas em fazer os leitores acreditarem em uma fonte de informações que pode trapacear no futuro. E que pode sair dos temas motivacionais para outras invencionices, bem mais perigosas e nada inocentes.

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