Ontem, mencionei uma biografia de Paul McCartney que reli rapidamente. Hoje, volto a algo que foi mencionado pelo ex-beatle neste livro. Em março de 1966, ele publicou o seguinte anúncio, assinado pelo pseudônimo Ian Iachmoe (o som de seu nome tocado ao contrário), um fictício diretor polonês de nouvelle vague:
Uma mulher (entre 35 e 45 anos) é maníaca por limpeza. É espantosamente meticulosa no cuidado e higiene da casa e obcecada pela sujeira. Isso se espelha em seu vestuário, aparência etc.
Acontece alguma coisa que a faz rastejar numa grande quantidade de sujeira — velhas latas de lixo etc. A boa e velha sujeira. Que coisa é essa que a leva a fazer isso?
A história continua, e a cabeça da mulher é afetada por sua experiência com a sujeira. Ela enlouquece, e a obsessão fica ainda pior.
O que se pede é a ideia, aquilo que pode ter levado a mulher a meter-se na sujeira. (Ela não era obrigada a fazer isso, mas decidiu assim.)
Paul ofereceu 20 guinéus a quem mandasse a melhor sugestão daquilo que faria a personagem obcecada por limpeza rastejar na sujeira. Houve alguns candidatos, mas o roteiro que o ex-beatle queria escrever a partir deste argumento nunca foi produzido.
Fiquei pensando aqui no que poderia motivar alguém com esse comportamento desatinar assim. Me veio, então, uma ideia: ela recebe a visita de um sobrinho, que aprendeu recentemente a técnica do hipnotismo. Ele convence a tia a ser hipnotizada e a faz voltar em suas memórias até a idade de cinco anos de idade, quando derrubou uma lata de lixo em casa, esparramando sujeira pelo quintal. A mãe, furiosa, reage muito mal e começa a esfregá-la nos restos de lixo para dar-lhe uma lição. A partir daí, a personagem adquire uma compulsão por limpeza que a persegue até os dias atuais. O sobrinho, ao perceber que destravou um trauma, pede que ela repita a cena, derrubando uma lata de lixo e se arrastando sobre a sujeira. Isso a faria, segundo o rapaz, se livrar do trauma e proporcionar a ela uma vida mais leve.
Enquanto pensava se essa era uma boa ideia, resolvi fazer uma traquinagem. E seu eu submetesse o mesmo desafio ao Claude, para ver o que a Inteligência Artificial produziria como ideia criativa? Bem, foi o que fiz. E essa é a resposta da IA:
Uma ideia que fecha bem com a lógica do roteiro (mania de limpeza como mecanismo de controle que depois se inverte): ela perdeu um filho ou filha, anos atrás, em circunstâncias nunca esclarecidas, e a obsessão por limpeza nasceu justamente daí, como uma forma de impor ordem sobre algo que ela não conseguiu controlar. Toda a meticulosidade é, no fundo, uma tentativa de higienizar a própria culpa. O gatilho da cena é ela receber uma pista, um telefonema, uma notícia de jornal, um vizinho que jura ter visto algo, de que existe uma prova enterrada num antigo depósito de lixo perto de onde a criança desapareceu.
Ela não é obrigada a ir atrás disso, poderia simplesmente ignorar, mas decide se meter na sujeira porque a possibilidade de resposta pesa mais que o nojo. O problema é que, ao entrar em contato físico com aquilo que sempre evitou, alguma coisa nela se rompe: a sujeira deixa de ser inimiga e vira, de forma doentia, um lugar onde ela se sente mais perto da verdade, ou da filha. Daí a obsessão não desaparecer, mas piorar, ela pode passar a voltar ao lixo, a guardar sujeira em casa, invertendo o próprio símbolo que definia sua identidade no início da história.
Curiosamente, tanto eu como o Claude partimos do pressuposto de que a personagem proposta por Paul McCartney se comporta dessa forma por causa de um trauma. No entanto, existe sempre a possibilidade de um comportamento assim não ser fruto de uma ferida psicológica. Mas, neste caso, talvez o roteiro não fique interessante.
E aí? Qual é a ideia que você prefere, a minha ou a da IA? Só não vale dizer que os dois argumentos são ruins (isso eu já sei…).