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Danuza Leão, autoridade suprema em elegância e simplicidade

Tem certas figuras públicas que seguimos com tanto interesse que nos sentimos próximos, quase que como amigos. São pessoas que, quando partem, deixam um vazio em nosso peito. É como se perdêssemos um ente querido. Senti isso com as mortes de David Bowie, Nora Ephron e Fernanda Young. Voltei a ter a mesma sensação nesta semana, quando Danuza Leão se foi.

Li todos seus livros e acompanhei semanalmente suas colunas na Folha de S. Paulo. Percebia suas mudanças de humor através de seus textos, escritos sempre com classe. Sua autobiografia (“Quase Tudo”) é um livro divertido e leve; conta, através de sua trajetória, uma parte importante da recente história brasileira.

Era uma espécie de versão feminina do personagem Forrest Gump, só que feminina, inteligente e elegante. Ela presenciou situações importantes com chefes de Estado e outras completamente despretensiosas, mas que ficaram na história.

O movimento que se tornou a Bossa Nova, por exemplo, tomou forma na sala de estar do apartamento de seus pais na Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, ainda nos anos 1950. Os amigos de sua irmã caçula, Nara, lá se reuniam para tocar violão e ensaiar uma batida diferente, cantando músicas com vocais nada afetados, ao contrário do que se fazia naquela década. Danuza, porém, não percebeu a grandeza daquilo que ocorria no living de sua família. Naquela época, achava que era apenas a turma da irmã mais nova que ficava bagunçando sua sala e bebericando escondido o uísque do pai.

Entendia muito bem os jornalistas. Foi casada com dois, mãe de um e amigo de vários. “Jornalistas são divertidos”, dizia. “Chegam tarde em casa, têm certas vantagens do poder, mas não se deslumbram e sabem tudo antes dos outros”.

Em suas colunas, arriscava-se em vários terrenos, indo da política aos relacionamentos amorosos.

Muito antes de Frank Underwood, o impagável personagem de “House of Cards”, discutiu a diferença entre poder e dinheiro: “Poder e dinheiro são parecidos, mas o poder é melhor. Um milionário é poderoso? Em termos; ele pode ter tudo o que quer, mas seu poder é relativo. Aliás, o supremo poder é ser dono da sua própria vida, e esse poucos têm. Dá para ir à praia segunda-feira de manhã e fazer do dia o que bem quiser? Não, a não ser que você seja seu próprio patrão. E quando se é seu próprio patrão, aí mesmo é que não dá”.

Seus livros (especialmente os de etiqueta e viagens) revelavam uma pessoa simples e autêntica, que não precisava de muito para ser feliz. Tive uma oportunidade de vê-la uma vez. Ela estava fumando um cigarro na pérgola do Hotel Copacabana Palace, olhando para a piscina e bebericando um café. Volta e meia dava um sorriso, como se estivesse recordando um momento feliz ou satisfeita com um pensamento que tinha acabado de surgir em sua mente. Eu estava em uma mesa próxima, conversando com um jornalista amigo, que ela conhecia. Quando Danuza foi embora, passou a mão no ombro do meu amigo e olhou para ele. Depois, olhou para mim e meneou a cabeça quase que imperceptivelmente. Não disse uma só palavra, mas marcou sua presença, com uma elegância que poucas vezes vi na vida.

Atriz, jornalista, directrice da discoteca Hippopotamus, socialite – são inúmeras as facetas de Danuza Leão. Mas ela ficará para sempre na memória brasileira como alguém que desarmava os interlocutores com um raciocínio, rápido, direto e sincero. Certa vez, antes dos celulares, ligou para um amigo, empresário poderoso no Rio. A secretária atendeu. O seguinte diálogo se travou:

– Alô, eu gostaria de falar com o Fulano de Tal.

– Quem deseja?

– Danuza Leão.

– De onde?

– Como assim?

A perplexidade de Danuza tinha duas origens. A primeira é que ela conhecia intimamente o empresário, seu amigo de décadas. A segunda: quem é que não conhecia Danuza Leão no Rio de Janeiro de 30 anos atrás? A secretária insistiu:

– De onde?

– Da minha casa, ué.

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