O Rio de Janeiro tem o mais impressionante acervo de ex-governadores com problemas na Justiça do Brasil. São sete: Sérgio Cabral, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Luiz Fernando Pezão, Moreira Franco, Wilson Witzel e Cláudio Castro. Dessa lista, apenas Witzel e Castro não viram o sol nascer quadrado. Os demais passaram temporadas curtas ou longas na cadeia. As acusações são diversas: corrupção, lavagem de dinheiro, coação de testemunhas, extorsão de empresários, financiamento ilícito de campanhas, concessão ilegal de benefícios fiscais, desvio de verbas da saúde durante a pandemia e abuso de poder político/econômico em eleições (para citar algumas).
Diante deste quadro, a atuação do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto, é uma surpresa positiva. O desembargador, o quarto na linha sucessória estadual, chegou ao poder por conta de um efeito dominó inédito na história política nacional.
O vice-governador Thiago Pampolha deixou o governo em março de 2025 para assumir uma vaga no Tribunal de Contas regional. Em dezembro do mesmo ano, o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, foi preso e afastado do cargo. Quando Cláudio Castro renunciou ao cargo, não havia ocorrido uma eleição oficial na ALERJ para substituir Bacellar. A soma dos três fatores, assim, esvaziou os três primeiros lugares da linha de sucessão. Sem nenhum dos três, o cargo coube ao quarto sucessor, que era presidente do Tribunal de Justiça. Trata-se de um caso sem precedentes no Brasil: um cargo no Poder Executivo estadual foi parar nas mãos de um representante do Judiciário.
Existe um movimento na Assembleia Legislativa fluminense para tomar a vaga de Couto, mas essas manobras foram contidas, até agora, pelo Supremo Tribunal Federal, que travou o processo e vem sendo acusado pelos deputados estaduais de agir em defesa do Judiciário.
De qualquer forma, a gestão de Couto, pelo menos por ora, mostra características que todo político eleito pelo voto direto deveria ostentar. Sob sua batuta, todos os contratos de grande vulto com o estado têm sido reavaliados. O próprio governador em exercício está examinando com lupa o funcionalismo estadual e já mandou embora mais de 3.000 servidores fantasmas. Mas ele não deve parar por aí. “Eu acho que a gente vai passar de 6.000”, disse o governador ao jornal “O Estado de S. Paulo”.
Nessa entrevista, Couto afirmou que acorda de madrugada todos os dias, pressionado pela responsabilidade. Mas, em outra conversa com jornalistas do mesmo veículo, afirmou o seguinte: “Se você quer saber, tem sido péssimo. Eu não consigo dormir direito, no primeiro mês e meio eu acordava às 4h, uma pressão muito grande, medo de chuva, de desabamento”.
E é justamente essa combinação de honestidade brutal e disposição para agir que torna Ricardo Couto um fenômeno raro na política fluminense. Por não ter chegado ao cargo pelo voto, ele não precisa das urnas para se sustentar nele, o que o libera de uma das maiores amarras do político tradicional: o medo de desagradar. Políticos tradicionais frequentemente adiam decisões impopulares, postergam cortes necessários e fecham os olhos para irregularidades que poderiam custar apoios eleitorais.
Couto não carrega esse fardo. Pode demitir servidores fantasmas, revisar contratos suspeitos e perder o sono sem ter de calcular o custo político de cada medida. Este caso é paradoxal e ao mesmo tempo revelador: o gestor mais honesto que o Rio teve em décadas é justamente aquele que nunca pediu um voto sequer.