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Construindo reputação: nunca despreze a pesquisa e o conhecimento

Aluizio Falcão Filho
25 de setembro de 2026

É preciso aprender com os erros, mesmo que a ficha caia com algum tempo de atraso. Isso aconteceu comigo muitos anos atrás, ainda na época em que a internet dava os primeiros passos no país e eu estava envolvido na implantação do primeiro portal de notícias que foi ao ar no mercado brasileiro, o Brasil Online, da Editora Abril.

Dois episódios dessa época me ensinaram que nunca devemos desprezar o conhecimento (involuntariamente ou não) e que devemos sempre buscar informações e dados. O fato é que nunca saberemos ao certo quando vamos precisar de matéria-prima para uma argumentação ou debate. Por isso, é melhor ter à mão o entendimento de certas questões do que naufragar em um embate com um adversário.

Foi o que aconteceu comigo. Para piorar, tendo vários colegas jornalistas como testemunhas. Estávamos em um evento interno da Abril e sentei-me em uma mesa que abrigava profissionais da revista EXAME e outras publicações da casa. No último assento disponível aboletou-se um engenheiro da TVA, o braço de televisão por assinatura do grupo.

Quando ele soube que fazia parte da iniciativa de internet, começou a dizer que a websites teriam de obrigatoriamente usar a estrutura de cabo das grandes operadoras para distribuir seus sinais. Rebati, usando como exemplo uma experiência da Sky com acesso à internet via satélite. O tal engenheiro, então, me inundou com dados para mim desconhecidos, mostrando que essa possibilidade era inviável. Inibido pela falta de conhecimento técnico, calei-me e reconheci a derrota.

Mas minha tese era a de que, em algum momento, o acesso à rede seria feita por alguma tecnologia wireless, o que passou a ser feito, algum tempo depois, com o sistema GSM e, depois, com o 3G. No entanto, não consegui me expressar em termos técnicos, pois tinha outras prioridades e não me aprofundei neste determinado quesito. Logo depois, porém, me armei de dados e insights sobre a distribuição de sinal e sustentei uma discussão em evento realizado pelo Instituto de Engenharia de São Paulo. Lancei mão de argumentos que deveria ter usado antes e me precavi para nunca mais ficar sem ter o que falar em um debate mais técnico.

Outra situação ocorreu comigo quando conversava com o diretor técnico do Brasil Online e fiz uma pergunta sobre um upgrade do sistema. Ele me disse que isso só poderia ser feito quando um profissional da equipe voltasse de uma viagem (ou coisa parecida). Perguntei, então, por que ele mesmo não implementava essa mudança. Sua resposta foi, para mim, intrigante: ele não sabia como fazer esse procedimento.

Retruquei que ele deveria saber como fazer as coisas que os subordinados faziam. Ele adotou um tom irônico e cutucou: “Isso constrói caráter, né?”. Respondi que esse não era o ponto. Meu ponto era o seguinte: quando não temos ideia daquilo que realiza o nosso colaborador, temos de aceitar o que ele diz como uma verdade absoluta, pois não temos como questionar seus argumentos. Dito isso, enumerei alguns pontos que deveriam ser feitos pelo departamento técnico, pois havia feito uma pesquisa sobre o tema, entrevistando pessoas que os colegas do suplemento de informática de EXAME tinham me passado. Alguns pontos, inclusive, não eram de conhecimento do responsável técnico.

É por isso que precisamos agir como esponjas e assimilar tudo o que possa a ajudar em nosso repertório. Mas, em determinadas situações, vamos acumular conhecimento inútil e descartável. Dou um exemplo: nesta mesma época, conheci um executivo da Microsoft que havia sido um grande especialista em linguagem COBOL. Falamos sobre isso e ele minimizou essa especialidade, dizendo que ninguém mais precisava deste conhecimento técnico.

Naquela época e até hoje, a linguagem COBOL é utilizada em sistemas financeiros e de gestão de governos. Um conhecimento muito específico, que chegou a ser muito importante para o mundo da informática. “Mas que hoje não serve para muita coisa”, disse aquele então executivo da Microsoft.

Mesmo assim, ele me disse que conseguia fazer algumas programações diferentes dos demais profissionais porque poderia pensar de uma forma diversa, usando os parâmetros COBOL. Isso pode ser ou não verdade, mas considero que usar modelos fora do lugar comum para obter soluções originais é sinal de que aquele conhecimento técnico não foi acumulado em vão.

Esses episódios apontam para a mesma lição. O engenheiro da TVA me venceu no debate porque tinha os dados e eu não; o diretor técnico do Brasil Online perdeu autoridade porque delegou o conhecimento e ficou refém do que seus subordinados diziam; e o especialista em COBOL, ironicamente, subestimou o próprio repertório justamente na área em que ele tinha mais a oferecer. Em cada caso, o conhecimento acumulado faria toda a diferença entre sustentar um argumento e aceitar o que os outros afirmavam.

Por isso, construir reputação profissional passa por essa disposição constante de acumular informações e dados, mesmo aqueles que parecem inúteis ou fora de moda, como o COBOL parecia ser para aquele executivo da Microsoft. Nunca sabemos quando um debate vai exigir de nós um argumento técnico, uma referência histórica ou um dado específico que só temos porque nos preocupamos em pesquisar antes de precisar. Ter esse repertório à mão é o que nos permite discutir de igual para igual, questionar pontos importantes e, no fim, evitar o desconforto de reconhecer, tarde demais, que faltou conhecimento na hora certa.

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