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Construindo reputação: como evitar que a autoconfiança vire soberba

Aluizio Falcão Filho
23 de outubro de 2026

No debate entre os candidatos à presidência, na semana passada, sobraram ataques e faltaram propostas. Mas houve também outra constatação: Flávio Bolsonaro, ao pressionar fortemente seu oponente, passou uma imagem de arrogância a uma parte da audiência, por ter abusado do tom agressivo e debochado em certos momentos.

Em nosso cotidiano, esse é um risco que corremos, especialmente se a autoconfiança estiver em níveis altos. Quando temos muita certeza do que estamos falando, podemos exagerar na contundência dos argumentos, passando uma impressão ruim.

Mas como evitar que a nossa assertividade seja vista como soberba?

Em primeiro lugar, tente mapear o terreno no qual você está pisando. Faça perguntas antes de fazer sua exposição. Sonde as opiniões alheias e refaça, se necessário, seu roteiro de acordo com o que escutou. Suavizando a abordagem de ideias que estejam em confronto com seus interlocutores ou reforçando os conceitos que estão em sintonia.

Coloque tudo em perspectiva, tentando mesclar técnica e paixão. Uma apresentação puramente emocional vai gerar reações por parte da audiência (contra e a favor). Outra predominantemente técnica será enfadonha. Portanto, uma mistura das duas coisas vai evitar o tédio e, ao mesmo tempo, trazer dados e números para corroborar suas teses e dar profundidade a seus argumentos.

Preste atenção em sua linguagem corporal. Evite apontar para seus interlocutores ou abrir demais os braços, pois isso nem sempre comunica franqueza. Especialistas em comunicação apontam que o gesto, associado em geral à receptividade, pode soar arrogante ou agressivo conforme a forma e o contexto em que aparece. Posturas que ocupam espaço em excesso, como espalhar os braços sobre cadeiras vizinhas ou cruzar as mãos atrás da cabeça, eventualmente transmitem uma impressão de superioridade e, dependendo do público, a reação pode ser ruim.

Já gestos rápidos, acima dos ombros e com palmas voltadas para baixo podem sugerir confronto, especialmente se ocorrerem a curta distância. A referência usada por treinadores de oratória é uma caixa imaginária entre ombros e cintura, dentro da qual o gestual passa controle e segurança. O ambiente também altera o sentido: o que funciona num auditório pode parecer invasivo numa negociação a dois. Há ainda o peso cultural, já que brasileiros toleram mais a gesticulação ampla do que japoneses ou europeus do norte.

Há outros riscos menos visíveis do que o gestual. O primeiro é o de parar de ouvir. Quem está convicto demais costuma interromper, a responder antes de o outro terminar a frase e a tratar objeções como obstáculos a remover, não como informações a considerar. O segundo é o deboche. A ironia pode render aplausos imediatos de quem já concorda com você, mas costuma humilhar o interlocutor e afastar justamente os indecisos, que são os que importam numa negociação, numa reunião de conselho ou num debate eleitoral. O terceiro é o excesso de certeza. Quem nunca admite dúvida transforma qualquer erro, por menor que seja, num desgaste desproporcional, porque a plateia passa a cobrar a infalibilidade que lhe foi prometida.

Por isso, a melhor vacina contra a soberba é a disposição de reconhecer limites. Admitir que não sabe algo, dar crédito a uma boa ideia alheia ou mudar de posição diante de um argumento melhor não enfraquece um líder. Ao contrário, sinaliza segurança verdadeira, aquela que não depende de vencer todas as discussões. Autoconfiança é ter fé no próprio preparo; soberba é acreditar que os outros não têm nada a acrescentar. A primeira constrói reputação ao longo de anos. A segunda pode destrui-la em poucos minutos, diante das câmeras ou de uma mesa de reunião.

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