Seja quem for o vencedor do pleito de hoje será alguém que já entrevistei. Fazer um pingue-pongue com político nunca é algo fácil de fazer, pois todos os escudos invisíveis estão levantados e dificilmente uma resposta sai de forma espontânea. Mas é uma forma privilegiada de enxergar um pedaço da personalidade daquela pessoa que detém (ou pode vir a deter) o maior poder dentro de território nacional.
De todos os líderes políticos que entrevistei, meu favorito foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (imagem abaixo), pelo estilo elegante e respostas inteligentes. Curiosamente, ele tem a fama de vaidoso. Mas, durante uma entrevista, fazia o repórter diante dele se sentir a pessoa mais importante da sala.
Já Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de muito simpático, agia no caminho oposto. Em praticamente toda a resposta das duas entrevistas que fiz com ele no Planalto (com a ajuda de colegas da redação), ele dava um jeito de dizer que ele era o presidente da República. Ou seja, fazia questão de mostrar que ele era o indivíduo mais poderoso de todos os que estavam naquela sala projetada por Oscar Niemeyer.
Lula tem um superpoder (ou tinha): é capaz de entender intuitivamente como pensa seu interlocutor em questão de segundos. A partir daí, ajusta seu discurso: ele fala aquilo que deseja do jeito que o entrevistador parece querer ouvir. O resultado é quase sempre favorável a ele. Ultimamente, porém, não vi mais essa habilidade ser usada pelo presidente em seus diálogos com a imprensa.
Flávio Bolsonaro depende do resultado de hoje para entrar no seleto clube de presidentes brasileiros. Seu comportamento perante um jornalista é diferente de FHC e de Lula. Talvez tenha mais semelhança com Michel Temer: cortês, mas profissional; objetivo nas perguntas que ajudam e evasivo naquelas que precisam de aprofundamento técnico.
Lula e Flávio representam projetos diametralmente opostos em termos de economia, cultura, saúde e segurança – além da chamada pauta de costumes. Quanto a esse último tema, há um ponto curioso. Lula é, pessoalmente, mais conservador que sua claque; já Flávio é mais liberal que os bolsonaristas empedernidos.
Há ainda uma diferença que só aparece antes de o gravador ser ligado. Flávio costuma chegar mais curioso: quer saber quem é o entrevistador, de onde vem, o que pensa o veículo, como se estivesse fazendo sua própria apuração. Lula, por sua vez, nutre um certo fascínio pelos jornalistas, a ponto de comentar com o repórter textos de colegas que leu, elogiando alguns e reclamando de outros, como quem gosta de mostrar que acompanha de perto o que se escreve sobre ele. Flávio é mais cuidadoso nesse terreno e mede melhor as palavras, embora esteja longe de ser travado. Seja qual for o resultado das urnas, o país terá no Planalto alguém que sabe exatamente o peso de uma conversa com a imprensa. Resta saber se o vencedor usará esse conhecimento para se explicar melhor ou apenas para se proteger melhor.
P. S.: hoje é o dia. Vá até sua seção eleitoral e exerça seu dever cívico. E vote em um dos candidatos, não desperdice a sua chance de influir no destino de nosso país.
